As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

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Com o escritor Ignacio Loyola Brandão

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Reunião na Biblioteca

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Oficina do GOLP - Balaio de Imagens por Carmen Pilotto

A escritora e poetisa Carmen Pilotto
 Imagens e palavras que inspiraram os textos da noite



 No silêncio, entre livros, brotaram as inspirações
Os textos serão publicados brevemente no BLOG


terça-feira, 4 de agosto de 2015

Oficina do GOLP a cargo da escritora Carmen Pilotto

O GOLP - Grupo Oficina Literária de Piracicaba -  retoma o antigo projeto de oficinas motivacionais literárias em suas reuniões para estimular a criação de textos. 
A primeira estará a cargo da escritora e poetisa Carmen Pilotto e tem por tema “Balaio de Imagens”
Nesta quarta-feira, às 19h30, na Biblioteca Municipal de Piracicaba.
Aberta a quem gosta de escrever.

sábado, 1 de agosto de 2015

PIRACICABA


        Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins

TERRA DE ARAGENS E CORES
CUJA CADÊNCIA BRILHANTE
FAZ DANÇAR A NOIVA EM FESTA!
CAPELA ABERTA
DE CORAÇÃO GIGANTE
A ABRAÇAR TODAS AS RAÇAS!

CANAVIAIS DA ESPERANÇA
EM MÁGICOS TONS DE VERDE
DESFILAM SUA RIQUEZA
A ENTOAR CANÇÕES AO VENTO
EM DEFESA AO RIO TROVADOR
SOLISTA DE SÚPLICES CANTOS:

--"CAUDALOSO, FELIZ, OUTRORA
FORNECI LAZER, ALIMENTO.
SINTO GASTA MINHA BELEZA,
HOJE DESPIDA DE MATAS...
O ABANDONO EM QUE ME ENCONTRO
ESTÁ ME LEVANDO À MORTE.
OUÇAM-ME, FILHOS QUERIDOS,
SINTO FRACO MEU CORAÇÃO.
AGUARDO O MILAGRE DA CURA
CHAMADO DESPOLUIÇÃO."

quinta-feira, 30 de julho de 2015

PARA FUTURA AMIZADE


Lídia Sendin

Procuro um ser deveras “desejante”
De amizade, carinho e convivência.
Apesar de não ser tão preocupante
Faço questão de um pouco de paciência.

Homem ou mulher, amigo é sempre bom,
Sendo igual ou mesmo o oposto.
A pele poder ser de qualquer tom.
No vestir cada um tem o seu gosto.

Da altura também faço questão:
Deve ter uma boa estatura,
Com cabeça nas nuvens, pés no chão,
Não se negue a boa uma curvatura.

Do peso vou falar sério agora:
Nem leve que se deixe carregar,
Nem pesado que nunca vá embora.
Amigo sabe sempre onde estar.

Com a idade tem que ficar esperto,
Pois é bom ter lembranças em comum,
Bossa Nova, Tom Jobim e Rei Roberto.
Pode ter na lembrança mais algum.

Enfim, procuro alguém como você,
Capaz de amizade e fantasia.
E que apesar de tudo ainda crê

Que há lugar neste mundo pra poesia. 

sábado, 25 de julho de 2015

Dia do Escritor (25 de julho)


Olivaldo Júnior
 
Quem escreve mais que fala
e se coça quando a "pena"
diz que a pena de quem cala
é não crer na própria cena...
 
Quem escreve só, na sala,
ou na copa, tão pequena,
e se sente um mestre-sala
com a vida que lhe acena...
 
Pode ser um escritor,
um notável sensitivo,
poetinha ou prosador,
 
que passou no próprio crivo
toda a vida multicor,
que descreve a quem é vivo.
 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Relatos de Viagens

                                


                                                                                Eloah Margoni

   Sim, sabia que o hotel, em Genebra, para onde iríamos, próximo `a moderna e organizada estação de trens, embora mesmo sendo hotel de turistas, ficava no Paquis, bairro onde há duas ou três ruas de prostituição que lá, aliás, não tem qualquer restrição legal. Foi o hotel mais caro e o pior de toda a viagem, diga-se.   Tinha, por outro lado, conhecimento da localização deste, mas minha mente fantasiosa “glamurizava” o lugar. Imaginava calçadas limpíssimas e bonitas, vitrines com luzes coloridas e efeitos especiais, onde mulheres fariam performances eróticas, muito trabalhadas. Ideias holiwoodianas. Nada disso era!  Calçadas comuns e sujas, muitas pontas de cigarros no chão, africanos ali e aqui faziam certa algazarra. Homens brancos, com aspecto algo marginal, transitavam por lá. Um africano encostou de modo um tanto rude e proposital na minha perna ao passar por mim; fora isso, não fomos incomodados por ninguém. As mulheres em si eram tipos comuns, de diferentes alturas, cores de cabelos e nacionalidades, com idades diversas.
   Assim, tendo deixado para trás a deslumbrante Riviera italiana, a qual fez -me do coração frangalhos de tanta beleza, com sol, montes verdejantes, plenos de bosques e muito boa organização das cidadezinhas, as quais pareciam ter sido montadas para cenários, tive a impressão de que Genebra, local de negócios, não era aquilo tudo... O quanto me enganei! Descobri uma cidade cosmopolita, vibrante, cheia de arte, cultura, música de boa qualidade e alegria, embora pequena; também com transportes públicos gratuitos e sem poluições. Tudo isso e mais, para além do paraíso fiscal.
  Verdade, deixáramos para trás Gênova, na Ligúria, Itália, onde as pessoas são realmente gentis, simpáticas, acolhedoras; onde fazia mais calor.
   Vimos bem, em Gênova, (o que eu já sabia) que os italianos não são mesmo gordos. Nada de matronas ou obesos, nada de barrigas... Mulheres vaidosas, que gostam de usar colares atraentes e têm cabelos longos com frequência, abundantes, ondeados e crespos muitas vezes, os quais elas não fazem questão de alisar ou de enlourecer, como as brasileiras. Ao menos como as do nosso Estado. Lindas mulheres aquelas! Os homens, com expressivos genes para calvície, mostram-na amiúde, muitas vezes desde cedo, mas são bonitos, elegantes, em forma, faladores, gesticuladores e sensuais.
   Lá em Gênova, os senegaleses, geralmente jovens negros que sobreviveram no mar, andam em grupos, vendem tranqueiras chinesas junto ao porto, onde costumeiramente são encontrados. Coitados! procurando a sobrevivência.  São marginais ali, mas não nos sentimos ameaçados andando de um lado a outro da cidade que, com setecentos mil habitantes, chega a ser calma, com ares de cidade pequena. Transportes públicos abundantes e de boa qualidade contribuem muito para tal.
    Além disso, encontramos por todas as terras onde caminhamos aquela preciosidade que cá não existe: silêncio ou muito pouco ruído.
   A viagem de trem de Gênova a Genebra, Suíça, tirou-nos da cama de madrugada. Sonolência muita, mas sono proibido. Nem pensar em passar dormindo pelos Alpes, ainda mais no verão! Duas coisas direi; primeira, não gosto dos Andes com sua aridez mortal, e sorrio para os Alpes. Segunda, o lago formado pela águas limpas do degelo é superlativo. Por mais de uma hora corremos às sua margem (o trem indo a cento e setenta, cento e oitenta quilômetros por hora) até Genebra, onde entra triunfante, com transparência comovedora.
   O que lá vi induzira-me a pensar na água. Em todos os países costumeiramente é assim, se quiser saciar a sede, precisa comprar água mineral ou pedir em algum estabelecimento um copo de água encanada. Aqui, de péssima qualidade, sabemos. Em Genebra as bicas de água limpa e potável, com excelente sabor estão por toda a cidade. Floridas, artísticas, decoradas.  Água pura, para toda gente. É um prazer ancestral e animal ver as biquinhas e beber delas.
    Pianos postos em toda parte, ao ar livre, vimos onde pianistas competentes tocavam e muitos aplaudiam.  Simpáticos cantores e corais presenteavam a população a toda hora, num canto ou noutro, com canções alegres. Sem barulhos, sem alto falantes.
     Sobre a bonita Luxemburgo, digo que nos surpreendeu a topografia da cidade, muito incomum. Alguns caminhos que fizemos deram-nos ideia de entrarmos em locais mágicos, de descobrir portas; foi um achar alamedas secretas, cruzar riachos encantados, alcançar patamares com hortas e flores, que também sensibilizava-nos de verdade.
     E os dias tão longos, escurecendo quase as 22:00h... Dormia-se pouco. E como seria diferente?

    Essa mistura de imagens, flashes e acontecimentos ficam registrados na mente e os levamos conosco ao longo da vida. Que bom!

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Um amigo diz "olá"...


(20 de julho, Dia do Amigo)
Olivaldo Júnior
 

Um amigo diz "Olá", 
e me envolvo no retrós
do algodão que me dará
o universo e sua noz.
 
Um amigo diz "Olá",
e me encontro sendo nós,
não o eu que morrerá
neste canto, em minha voz.
 
Longe desse terno amigo,
tudo é perto da lonjura
que me faz estar comigo,
 
com a impávida secura
de meus lábios sem o figo
da amizade, da ternura

quarta-feira, 15 de julho de 2015

domingo, 12 de julho de 2015

Lançamento do livro Saga de Palavras 2015



Autoras do livro 
Autografando
Cassio Negri vice presidente da Academia Piracicabana de Letras

Vendedoras de livros




















 João Athayde falando pelo CLIP


domingo, 5 de julho de 2015

Convite - Lançamento do livro Saga de Palavras

O livro foi patrocinado pela Oggi papéis e será vendido no dia do lançamento por $20 reais.
A renda será revertida ao Recanto dos Livros - Lar dos Velhinhos de Piracicaba

sábado, 4 de julho de 2015

SACERDÓCIO E POESIA



M. Nazareth Furlan P. de Camargo

Ao padre Edvaldo de Paula Nascimento em seu aniversário de ordenação sacerdotal, em 18/06/2015
“Se eu fosse um padre, nos meus sermões eu citaria os poetas, rezaria seus versos, os mais belos, porque a poesia purifica a alma... e um belo poema sempre leva a Deus”. Mário Quintana

Por ser um padre é que a cada homilia
Eu rezo versos, poemas  declamo,
Destilo beleza por tudo que amo
E acendo almas em dor e alegria.

E a cada verso ardente, em sintonia,
Todo o sentir orante no qual clamo
A presença do belo que proclamo,
Deus é presença no meu dia a dia.

Poemas, contos, crônicas orando,
Rezando histórias... Santa inspiração!
Deus, beleza eterna, eu vou semeando,

Que ser padre é ter sensibilidade:
Deixar rolar o pranto em compaixão,

Gerar sorrisos de felicidade.

terça-feira, 30 de junho de 2015

De todo...


Alfredo Cyrino

De todo lo que quise
y no me fue dado ser,
podría y no lo quise,
procuré sin encontrar,
atiné sin esperar,
pretendía y no lo realicé,
causé sin pretender.

De todo tuve,
del bien y del mal,
del merecido y no recibido,
del inmerecido y sobrevenido,
del furioso clamor no comprendido.

De todos los que
amé, apacigüé, amparé, herí,
no me aceptaron como así nací,
(mientras sólo deseé comprensión
y siquiera la hallé en mi corazón)
simplemente, sin adiós, partiré,
alma entristecida,
no la serené.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

ENIGMA


Dirce Ramos de Lima

     Morreu de nada!
     Caiu na calçada,
       simplesmente,
       assustando toda gente!
   O falecido,
       era um jovem bonito,
       que parecia,
       saudável, vigoroso,
       bem sucedido.
   Num instante falava ao celular,
        no outro,
        já tinha partido!
   Assombro geral!
  Agora é só noticia na TV, no jornal
      e especulações diversas
      tentando explicar o fato consumado:
  " Deus faz tudo certo,
  nós é que entendemos errado!"

sábado, 20 de junho de 2015

A CABRA MORREU, EIS A SENHA!


Luzia Stocco

-Sim, respondi, acho que posso, agora que estamos em 2042, falar sobre aquilo. -Aquilo que ficara em meu passado, ao menos eu imaginava, vem hoje como uma bala de canhão à minha lenta memória. Um repórter alto e atrapalhado, postado em pé à minha frente, pôs-se a gravar, usando um aparelhinho, bem menor que os gravadores de antigamente. “Senhor Jacobino, pois o senhor era vegetariano? Sei que já faz muito tempo, mas conte-me os detalhes, por favor!”, pediu-me ele, quase a implorar. Minha boca, fina e úmida, parecia querer morder as palavras. Minha voz fraca acompanhava meu olhar apagado, fruto do trabalho do próprio tempo, que, às vezes é amigo, outras tantas, inimigo. Iniciei a narração sentando-me lentamente, coisa que também faria o repórter, com agilidade:                                       
Estava eu, vidrado em meu computador na sala de casa, e Anaãn, meu filho adolescente, em seu quarto, diante do notebook, jogávamos “merfe”, um jogo on line que envolvia quatro jogadores. Cismei, de repente, que devia olhar meus e-mails e olhei. Antes não tivesse olhado. Por que tínhamos que olhar as mensagens a cada hora, quando estávamos com o computador ligado? Vaidade ou simples curiosidade? Acho que queremos saber se alguém se preocupou conosco, ou melhor, necessitamos de atenção! Eis a grande busca da humanidade!  Um recado curto “mostre quem és, que eu me mostro a ti!” Curto e seco, o recado completou-se, num segundo e-mail: “ao pé da Grande Mãe, tu te revelarás! Vá para o Monte Fúlgido, leve os outros três!” Fui verificar novamente o remetente, nem sinal do nome.  Saí do jogo e desliguei o aparelho, assustei-me com Bingo, nosso pequeno cachorro, quase invisível a mim nos últimos tempos, ia pra lá e prá cá. Ainda confuso, apanhei minhas coisas de acampamento. Anaãn, eufórico, pegou sua mochila com o kit completo. Eu, ele e os dois outros jogadores, Jubri e Romão, na reserva de Fúlgido, a 630 km da cidade. Nenhum bilhete à Mara, minha ex-esposa.
Um jato relativamente silencioso nos deixara próximos à montanha e partira. Fomos caminhando, sentindo a quietude dos outros e da atmosfera que nos envolvia. À medida que adentrávamos, pude perceber a selva a minha frente, ao meu lado e atrás de mim com seus ruídos que aumentavam de intensidade para em seguida aquietarem-se. 
Sabe, meu caro repórter, 2012 quase findando, não fora um bom ano para mim.  Eu e Mara nos separáramos, nem sabíamos por quê. Talvez eu não a entendesse ou vice-versa. Sentia falta da companhia dela, não sei se ela lamentava a ausência de um homem enfadonho, beirando aos 55 anos. - Concluí que o entrevistador não estava muito interessado na minha vida particular, queria ouvir a conclusão da história e não mexia um só músculo. E foi ele quem pediu que eu detalhasse, embora  soubesse a que fatos ele queria enfatizar. Porém, sendo eu agora, três décadas depois, um simples idoso, creio ter algumas regalias como a de poder minuciar as façanhas daquela aventura.
Então, um zumbido, ainda de mim desconhecido, chegava-me aos ouvidos e meu olhar se deteve numa árvore alta, suas folhas como longos cílios macios, em tons verde e gelo, lembravam a cabeça de um cão peludinho. “Até parece o Bingo”, disse eu a Anaãn, quase a sentir saudades ou compunção pelo cão repelido. Romão lançou um olhar duvidoso, ainda não acreditava que fora convencido a participar dessa loucura. Estava prestes a conferir seu bilhete de loteria que jogara antes de partir. Sim, naquela época ainda havia esses jogos medíocres. Ele agasalhou-se com sua jaqueta marrom e pronunciou:
- O que tanto olha essas árvores, Jacobino?
- Curioso...
- Não vejo nada de curioso nelas, são apenas monótonas! – replicou ele. –E vamos adiante, óh my God! Que essa brincadeira tenha fim!
Digo-lhe que Romão, meio século vivido, não era homem que conhecia dificuldades. As coisas, para ele, eram acompanhadas pela suave brisa da boa sorte. Desde pequeno, assim vivia Romão. Não via e não sentia aquilo que os humanos geralmente sentem, os percalços e as expectativas de um porvir. Proprietário de um frigorífico, nada sabia da loucura, esta companheira solitária, a mesma que, em certas ocasiões, tira-nos da solidão e nos convida a seguir.  Jubri e Anaãn iam adiante, fixados no celular, não sei se por vício ou pela preocupação com uma futura mensagem, uma pista que não tardou a chegar: “o que parece, não é!”
Nesta noite nos acomodamos em nossos sacos de dormir, comemos o mínimo. Com duas horas de repouso preferimos caminhar aproveitando a sinalização das estrelas e, ah! que céu claro, tão claro eu há muito não enxergava, desde que mudáramos do sítio, ainda criança. Meu filho, deitado, com as mãos sob o pescoço, chamou-me junto a si, extasiado:
-Pai, deite-se aqui e relaxe. Aquele deve ser o caminho de Santiago, né? Olha essa claridade, parece até que acenderam as chamas estelares! – Seus olhos pretos e joviais reluziram e eu pude ver dentro deles uma vida e uma beleza que não notara até então. Sorri, satisfeito, quase a esquecer-me o que viera fazer ali. Afinal, a quê viera mesmo? Outra vez, aquele zumbido...voltei o olhar aos demais, nenhum sinal de estranhamento. Preferi calar-me, embora tentado a alardear, pensei nos benefícios obtidos com o silêncio nos últimos anos. Quantas brigas evitadas, quantas mágoas esquecidas e agora eu aqui, com meu filho, sem a menor ideia de quanto tempo não ficava assim, junto a ele, sem nada a fazer.
Foi a única noite a que nos guiamos pelo cruzeiro do sul e constelação de escorpião. Nas seguintes, céu nublado, breu total. “Cadê a bússola, Anaãn?” “Sinto muito, mas a esqueci na mesa da cozinha” “alguém se lembrou de trazê-la?” Olhares e suspiros de desculpas. Uma pontada de medo avançou sobre mim naquele instante, interrompido por um toque no celular de Romão: “a cabra morreu, eis a senha secreta, guarde, pois precisará dela. Caminhe. O cabrito sobreviveu”.
Estávamos cada vez mais confusos. Nossas provisões se esgotando. Na terceira noite uma lua cheia nos surpreendeu iluminando a trilha e voltou a ocultar-se. Observei que, nalgumas árvores, em seus troncos e galhos haviam pelos curtos ou longos em forma de folhas. É mágico e eu as via cada vez mais parecidas com o ser humano, talvez até mais especiais que nós. Seriam elas pessoas disfarçadas? Eu procurava pela Grande Mãe, a grande árvore! A escuridão e a vegetação fechada nos amedrontava. Seguíamos em fila, calados, creio ter ouvido um zunzum de oração. Minha boca secara, lambi os lábios, como era costume, e apertei-o, sem perceber, também costume. Um líquido morno umedeceu meu lábio inferior, olhei à mão que levara à boca, uma pequena mancha vermelha mostrou-me um besouro branco esquisito, agora esmagado pelos meus lábios. Limpei com o lenço.  De repente, surgiu a nossa frente um pequeno cachorro de pelagem branca, foi caminhando acelerado e silencioso a nos mostrar o caminho. Seguimo-lo e o medo cedeu lugar ao alívio. Meia hora, passado esse trecho, assim como ele apareceu, desapareceu!
- Coisa sinistra, meu pai!!
-É só um cachorrinho, Anãan, não se preocupe!
-Jacobino, você sabe que não é apenas um cachorrinho, não é? Indagou Romão, com olhos arregalados.
Nada respondi. Fomos subindo por uma estrada íngreme, eu não ouvia a respiração de Romão embora todos ofegantes, seu porte magro bem o ajudava. Recomposto, achei conveniente falar:
- A dúvida é, muitas vezes, parceira da sensatez e há mistérios que ocupam um lugar privilegiado nas acepções míticas. Não massacre a dúvida, pois pode ser ela uma aliada da sabedoria.
- Romão, o cachorro é amigo do homem, esqueceu-se?, disse Jubri, estamos cansados, e sob pressão nosso inconsciente prega-nos peças, apenas isso! relaxe, homem! Tentando ser agradável ou camuflando o próprio medo, senti que o mais sereno e confiante, entre os quatro, era Anãan. – Tudo isso deve ser alguma pegadinha, vamos aproveitar a chance de escapar do stress urbano e nos divertir, não foi para isso que viemos?! Minhas férias se findam no domingo. – Ouvindo Jubri, preferi novamente calar-me sobre o estranho inseto que eu mordera.
– Viva a aventura, gritei eu, mas não ouvi nenhum eco. Quando paramos novamente para beliscar algo e descansar, abaixei-me e cavei a terra roxa com as mãos, senti sua temperatura morna. Enfiei a mão, escurecida pela terra, num dos bolsos, apalpei uma semente e a inseri no buraco. A manhã viera como um consolo. Um belo pau-brasil brotaria como uma dádiva divina e seu topo  acolheria os ninhos de diversas aves.  A semente foi-me dada por meu filho mais velho que estuda fora e mora em república, “pai, ache um lugar legal e plante pra mim, depois você me avisa se nasceu!”, porém eu nunca soube se a semente brotou.
-Ei, Jubri! Nenhuma outra mensagem? – Indaga Romão, obtendo reposta negativa. – E você, Anãan, alguma dica em seu celular?
-Nada. Estou aguardando, mas temo que a bateria está por um fiooo...Ei! esperem!! Está chegando algo! Que sinistro! Pai, Romão, Jubri, vejam essa! Vocês não vão acreditar! – Paramos de caminhar, percebi que éramos impulsionados por nossos pés e pernas, sem desejo, sem raciocínio. Somente no quarto dia veio-me tal percepção. Peregrinos, saímos em busca de algo que talvez não quiséssemos saber. Sei que, a partir daí, passei a estranhar o comportamento natural dos três. Romão se amansara com um conformismo imediato. Jubri, com seu sorriso faceiro e sempre esperto, agora em letargia. Alguma coisa estaria terrivelmente errada.
“Continuem caminhando. Cheguem ao alto da Grandona. O que avistará será queimado. O açúcar, transmutado...mantenham segredo”. A quarta mensagem. Não entendi o que poderia haver de sinistro nessa mensagem, como Anaãn bazofiara. Os três continuavam conectados ao mundo lá fora, não sei como. Parecia que ninguém queria discutir o assunto, fugíamos de suposições e qualquer hipótese denotaria uma quebra do segredo ou da magia que emanava do lugar e da nossa singular situação. Tampouco a redução do alimento parecia preocupá-los.  Não conseguiam enviar mensagens ao remetente misterioso, nosso carrasco, ou quem sabe, salvador. Observei Jubri concentrado em algum jogo no celular, descansava suas costas num tronco, parecia alheio àquela nova realidade. Em seus 35 anos, prevalecia uma beleza nobre, a tez escura realçava  com suas vestes claras, um sorriso acolhedor. Naqueles dias eu o via cada vez mais compenetrado no universo virtual e confesso que estranhei a conexão quase perfeita desses aparelhos, apesar das montanhas.  
O cachorrinho voltou a aparecer e a nos acompanhar dia a dia. Já não havia lua cheia, nem estrelas. Prosseguíamos perdidos ou por intuição. Somente ele aparecia, de quando em quando, com algum alimento na boca.
- Pai!! Gritou Anãan, vocês não estão vendo? Pelo amor de Deus, este é o mesmo trecho que passamos nas últimas noites. – Passou as mãos pelos cachos sujos de seu cabelo e abaixou a cabeça, foi em direção ao cão, tentou tocá-lo: e é no mesmo lugar que o cachorro aparece, semmmpreee... Cambaleou e caiu desmaiado, no instante em que o cão desapareceu ao ser tocado pela mão, agora pálida. Assustados, topamos uma árvore, que de tão grandiosa, assombrava-nos. Acudimo-lo com a lanterna de Jubri e o carregamos até ela. Confuso, mas ainda lúcido, o garoto logo se recuperou com o pouco d’água que sobrara. Animais silvestres e pássaros quase não os víamos, agora.
Habilmente, afinal já fora escoteiro, meu filho subiu à Grandona - sabíamos que era aquela árvore -, como nos disse a mensagem. Seu tronco, de casca preta e úmida, abrigava em seu corpo galhos e troncos de outras espécies. Abaixo, um buraco grande, próximo à raiz, parecendo uma vagina aberta, na qual Anaãn quase caiu dentro; ao lado deste, um tronco retorcido, que em relevo parecia uma criança nascendo ali. Algumas partes do tronco estavam descascadas, mostrando sua carne branca, enrugada. Muito velha. Seria a Grande Vó ou a Grande Mãe?! Figura arquetípica!?
- Gente! É um canavial!!! – lá do alto advertiu Anaãn, agarrando-se aos tortuosos galhos.       -Um canavial? Droga! Exclama Jubri, desanimado pelo fim da bateria do seu celular. – O que
faz um canavial aqui?
- Não há ninguém para cuidar dele, disse Romão, enquanto nos aproximávamos das canas.     - Quem plantou, plantou e só volta pra cortar, sete meses depois; tentei usar minha racionalidade, que já era ínfima. Chamei meu filho e estiquei os braços trazendo-o de volta ao chão, lancei uma olhadela e captei a pouca expressão de Romão e a neutralidade de Jubri. A fome nos abatia, as guloseimas escasseavam. Uma pequena reserva para a volta. Umedeci minha boca, ressecada pela ansiedade e falta d’ água. Nenhum ribeirão ou lago, a não ser alguns cocos que raramente encontrávamos. A esperança de encontrar o enigma nos alimentava. “O que avistará será queimado, o açúcar transmutado!” Eureka, pensei.
Armamos todo o esquema para a queima das canas, pois acreditei ser o que a louca mensagem pedia. Ativei minha memória e o conhecimento adquirido na infância, quando acompanhava minha mãe à roça, tornou possível essa operação. Labaredas estralavam dando a impressão de que atingiria o céu, avermelhado como pimenta, num calor dantesco. Suores escorriam pelas nossas peles ressecadas, misturando-se às lágrimas.
- Meu Deus! Vai pegar fogo no mundo! Exclamou Rubri, afastando-se rapidamente, assustado. A letargia se fora.
-Não vai não, gritei-lhe, na tentativa de acalmá-los. - A brisa suavizou!! As chamas estão diminuindo e perdendo a força. Olhem as canas e sintam o cheiro! Ah! Que delícia, é melado puro, como mel, vejam! – Lambi o meu dedo indicador e, por um momento, suavizei meus pânicos, relembrando a minha infância, paralisado agora por um grito de pavor rasgando a garganta de Anaãn.
Apontava seu dedo para um vulto no meio das canas pretejadas, envolto nas cinzas. Eu não podia acreditar. Nosso cachorrinho mágico devorado pelas cinzas. Colocamos seus restos sob uma pequena árvore, cuja forma apelidamo-la de melancia, em formato de sombrinha, carregada por melancias minúsculas. Um espetáculo a venerar a alma do cachorro ou do anjo.
Qual o significado daquilo? Indagamos, sem respostas. Vi Romão desolado, ombros caídos, manchas de carvão escureciam seu rosto, braços e mãos. Notei em Anaãn um abatimento e em Jubri um tremor no olho direito não pronunciado anteriormente. As árvores ao redor sufocavam e eu podia sentir a respiração ofegante de cada uma delas, inclusive dos arbustos.
-Elas não usam roupas apropriadas e tampouco máscaras, pai! – a voz afundada de meu filho completou meus pensamentos. Visualizei suas roupas rotas e ele coçava seus braços e pernas.
 Pela primeira vez, se esqueceram de seus sofisticados aparelhos. O meu, do mais simples e necessário, jogara-o no fundo da mochila e lá ficara a descansar. Quando Romão e o meu garoto se deram conta, as telas todas apagadas, obviamente, pensei eu, as baterias... já eram!
Anaãn apanhou meu celular, incrivelmente funcional, no momento em que entrara uma mensagem, a única e, quem saberia senão a última? “A cabra não morreu, senha errada, a cobra morreu. O que parece não é. Tu te revelarás”.
Não compreendia essa história de cabra. Teriam se confundido na hora de digitar? Alguma coisa ali possuía significado? Talvez só para mim. As mensagens pareciam endereçadas somente a mim. E qual a finalidade da senha? Afinal, quem eram eles, ou seria ele? Ela? Poderia ter sido uma cabra ou cabrito queimado e não o cão, talvez.
Romão e Jubri saiam à caça e nada, enquanto tentávamos fazer o caminho de volta. Inutilmente. Ninguém encontrava a saída. A fome nos apertou de vez. Romão feriu-se ao cair num buraco, socorrido e não se recuperando, logo faleceu.  
 Sentado à sombra da Grande Mãe, uma luz atinou-me. Jubri caçava migalhas, eu e Anaãn éramos vegetarianos. Antes que nossa mente paralisasse e sucumbíssemos ali, no coração do Monte, fiz a única opção que me sobrou, moço. Você acredita em mim, então? – Deslizando minhas mãos úmidas por meu cabelo branco indaguei ao jovem repórter, que, silenciosamente, não menos tenso, me escutava há horas. Subitamente, interpelou-me, uma única vez:
- Sr Jacobino, o senhor não se arrepende? E o seu filho, não se opôs?
- Anaãn não tinha escolha. Só temos a agradecer à alma de Romão e ao seu corpo, incrivelmente saboroso naqueles últimos dias fatídicos. Se não fosse essa atitude, não teríamos força para retornar à nossa casa e jamais veria meus netos e bisnetos e nem me reconciliaria com Mara, se eu estou aqui a lhe contar, neste ano de 2042... Ah! agradeço a confiança e a discrição de Jubri.
- Mas o senhor não era vegetariano? – O repórter repetiu a pergunta, impulsionado pela incredulidade, inerente a sua natureza profissional, emendou outra, desligando o minúsculo aparelho que gravava.  – Ele não era seu amigo.
- Era e sou vegetariano por amor aos animais, não está incluída aí, a categoria humana, meu jovem! Eu mal os conhecia, durante a viagem sim, de fato, tornamo-nos amigos! Descobri quem eu sou, a essência e as limitações. E olhe, o que parece não é.