Evair
Sousa
Tudo
começou com um simples toque de um sininho.
Um som
pequeno, delicado, quase tímido. Mas bastou aquele toque para que, aos poucos,
os adultos que estavam sentados naquela roda começassem a dar lugar às crianças
que ainda vivem dentro deles.
E foi
assim que começamos Caminhos em Palavras.
Eu olhava
para aquela roda e já não enxergava somente adultos. Ali estava a criança
pequena, a criança adolescente e também essa mistura bonita que carregamos pela
vida: a criança que fomos com o adulto que nos tornamos. Não precisávamos de
muita coisa. Papel, caneta, lápis de cor e disposição para caminhar pelas
próprias lembranças.
Começamos
escrevendo sobre a criança que fomos. Depois, desenhamos caminhos, revisitamos
lugares, pessoas, brincadeiras, cheiros, sons e momentos que talvez estivessem
há muito tempo guardados em algum cantinho da memória.
E foi
bonito demais ver o que aconteceu. As palavras começaram a aparecer. Surgiram
poemas. Crônicas. Contos. Relatos. Memórias. E também desenhos.
Porque
teve criança que não quis falar com palavras. Preferiu desenhar. E estava tudo
bem. Afinal, existem histórias que a boca não consegue contar, mas que as mãos
encontram um jeito de dizer.
Teve
também a criança namoradeira, que arrancou risadas e trouxe suas lembranças
para a roda. Teve criança que gostava de bola, de bolinha de gude, de
passa-anel e das brincadeiras de roda. Teve criança que encontrou companhia nos
gibis, nos jornais e nos livros. Que aprendeu a conhecer o mundo pelas páginas,
pelas manchetes e pelas histórias.
E,
enquanto cada pessoa compartilhava um pedacinho da sua infância, eu pensava no
quanto aquelas crianças cresceram.
A criança
que brincava, hoje ensina. A criança que lia, hoje escreve. A criança que
escutava histórias, hoje conta histórias. A criança que observava o mundo, hoje
cuida de outras pessoas.
Cada uma
seguiu o seu caminho. Tornou-se professor, escritor, contador de histórias,
médico, dona de casa... tornou-se tanta coisa.
Mas,
naquela roda, por alguns instantes, os títulos, as profissões e as
responsabilidades ficaram do lado de fora. Ali éramos novamente crianças. E talvez seja isso que mais tenha me
emocionado.
Perceber
que a infância não desaparece quando crescemos. Ela vai deixando rastros pelo
caminho. Está nas nossas escolhas, naquilo que fazemos, na maneira como olhamos
para o mundo e até na pessoa que nos tornamos.
Para mim,
Caminhos em Palavras é isso.
É voltar
pelo caminho das nossas próprias palavras para descobrir de onde viemos. É
olhar para o adulto de hoje e reconhecer nele um pouco daquela criança de
ontem. É entender que algumas crianças cresceram para ensinar, outras para
escrever, outras para cuidar, outras para contar histórias... E algumas
simplesmente decidiram continuar sendo eternas crianças, mesmo depois de
adultas.
Eu gosto
de pensar que existe uma criança morando dentro de cada um de nós. Às vezes ela
fica quietinha. Às vezes se esconde atrás das responsabilidades da vida adulta.
Mas basta
uma lembrança, uma brincadeira, uma história, uma palavra...ou o simples toque
de um sininho...e ela encontra o caminho de volta.
Naquela
noite, o sininho tocou. E a infância voltou....









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