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Reunião na Biblioteca

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Quando o sininho tocou, a infância voltou

Evair Sousa

 

Tudo começou com um simples toque de um sininho.

Um som pequeno, delicado, quase tímido. Mas bastou aquele toque para que, aos poucos, os adultos que estavam sentados naquela roda começassem a dar lugar às crianças que ainda vivem dentro deles.

E foi assim que começamos Caminhos em Palavras.

Eu olhava para aquela roda e já não enxergava somente adultos. Ali estava a criança pequena, a criança adolescente e também essa mistura bonita que carregamos pela vida: a criança que fomos com o adulto que nos tornamos. Não precisávamos de muita coisa. Papel, caneta, lápis de cor e disposição para caminhar pelas próprias lembranças.

Começamos escrevendo sobre a criança que fomos. Depois, desenhamos caminhos, revisitamos lugares, pessoas, brincadeiras, cheiros, sons e momentos que talvez estivessem há muito tempo guardados em algum cantinho da memória.

E foi bonito demais ver o que aconteceu. As palavras começaram a aparecer. Surgiram poemas. Crônicas. Contos. Relatos. Memórias. E também desenhos.

Porque teve criança que não quis falar com palavras. Preferiu desenhar. E estava tudo bem. Afinal, existem histórias que a boca não consegue contar, mas que as mãos encontram um jeito de dizer.

Teve também a criança namoradeira, que arrancou risadas e trouxe suas lembranças para a roda. Teve criança que gostava de bola, de bolinha de gude, de passa-anel e das brincadeiras de roda. Teve criança que encontrou companhia nos gibis, nos jornais e nos livros. Que aprendeu a conhecer o mundo pelas páginas, pelas manchetes e pelas histórias.

E, enquanto cada pessoa compartilhava um pedacinho da sua infância, eu pensava no quanto aquelas crianças cresceram.

A criança que brincava, hoje ensina. A criança que lia, hoje escreve. A criança que escutava histórias, hoje conta histórias. A criança que observava o mundo, hoje cuida de outras pessoas.

Cada uma seguiu o seu caminho. Tornou-se professor, escritor, contador de histórias, médico, dona de casa... tornou-se tanta coisa.

Mas, naquela roda, por alguns instantes, os títulos, as profissões e as responsabilidades ficaram do lado de fora. Ali éramos novamente crianças.  E talvez seja isso que mais tenha me emocionado.

Perceber que a infância não desaparece quando crescemos. Ela vai deixando rastros pelo caminho. Está nas nossas escolhas, naquilo que fazemos, na maneira como olhamos para o mundo e até na pessoa que nos tornamos.

Para mim, Caminhos em Palavras é isso.

É voltar pelo caminho das nossas próprias palavras para descobrir de onde viemos. É olhar para o adulto de hoje e reconhecer nele um pouco daquela criança de ontem. É entender que algumas crianças cresceram para ensinar, outras para escrever, outras para cuidar, outras para contar histórias... E algumas simplesmente decidiram continuar sendo eternas crianças, mesmo depois de adultas.

Eu gosto de pensar que existe uma criança morando dentro de cada um de nós. Às vezes ela fica quietinha. Às vezes se esconde atrás das responsabilidades da vida adulta.

Mas basta uma lembrança, uma brincadeira, uma história, uma palavra...ou o simples toque de um sininho...e ela encontra o caminho de volta.

Naquela noite, o sininho tocou. E a infância voltou....




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