As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

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Com o escritor Ignacio Loyola Brandão

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Reunião na Biblioteca

sexta-feira, 17 de julho de 2026

POETISAS QUE SE DESTACARAM EM PIRACICABA (In Memoriam)

 

Raquel Delvaje

 

              Piracicaba recebeu o apelido de "Florença Brasileira" e também "Ateneu Paulista", devido à sua rica herança artística, efervescência cultural e por ter sido o berço e refúgio de grandes nomes das artes. O título faz referência à cidade italiana de Florença, um dos maiores berços culturais do mundo. O principal motivo dessa comparação é o grande número de artistas plásticos, escritores, poetas, pensadores, desenhistas, cartunistas, músicos, cantores, atores, contadores de histórias que emergem nessa terra. O apelido foi eternizado no livro Piracicaba, a Florença Brasileira do jornalista e escritor Cecílio Elias Netto, que documenta a riqueza das artes piracicabanas.

              A cidade destacou-se no cenário nacional desde cedo. O renomado pintor Almeida Júnior, um dos maiores nomes da pintura brasileira, viveu e produziu obras marcantes no município. Outros artistas locais, como Alfredo Volpi e também as poetisas:

Marina Tricânico , Maria Cecília Machado Bonachella, Dulce Ana da Silva Fernandez e Virginia Pratta Gregolin, todas “in memoriam”.  Vou citar um poema de cada, que dentre tantos outros, fizeram delas grandes poetisas. Elas nasceram e/ou se destacaram em Piracicaba com suas obras, reforçando o título de berço das artes, que muito honra nossa cidade.

                                                                                (foto álbum de formatura Sud Mennucci colorizada por Ivana Negri)

MARINA TRICÂNICO

AQUELA MESA...

Aquela escrivaninha onde eu sonhava,
Aquela mesa amada e pequenina.
Era só nela em que me refugiava
Para compor meus versos de menina.

 

E, debruçada sobre ela, eu ficava
Envolta pela noite peregrina.
Cheia de sonho, ingênua, acreditava
Na cigana que lera a minha sina...

 

Ah! Se eu pudesse achar aquela mesa,
— Minha ternura— tenho bem certeza,
Ao começo da vida voltaria...

E chorando qual tímida criança,
Eu dela cobraria uma esperança,
E a volta dos meus sonhos, pediria...

 

 

MARIA CECÍLIA MACHADO BONACHELLA


DECISÃO

 

Não vou mais escrever, é minha escolha.

Hei de deixar os meus papéis em branco.

- tirem da minha frente – agora! – a folha

Ou eu mesma a rasgo, ou então, a arranco.

 

Qual garrafa ao mar tendo presa a rolha

Ou caramujo enrolado, eu me tranco.

Esta mágoa não mais meu peito molha

Estou sendo sincera, o gesto é franco.

 

Já nem mais quero rimas, ser poetisa;

O verso se despede e agoniza

Sem remorso. É o que a alma determina.

 

Não tem lugar no peito, nada inspira.

Não, nada existe: amor, ódio ou ira.

Apenas se extinguiu, secou a mina.

 

DULCE ANA DA SILVA FERNANDEZ

 

Quando?

 

Já não sei

Quando sou:

A mulher vaidosa,

Mãe carinhosa,

Vovó coruja,

Esposa-amante,

Ou uma simples poetisa.

 

Já não me importa saber

Qual delas eu sou,

As vantagens de ter mais

De oitenta anos de idade,

É poder ser todas

Ao mesmo tempo.

 

É não ter medo

De num triste dia nublado,

Ouvir cantos gregorianos,

Olhar ao espelho

E não enxergar mais,

Nenhuma delas.

 

VIRGINIA PRATTA GREGOLIN

 

PREMEDITAÇÃO

 

Se tudo fosse premeditação,

Nada aconteceria por acaso,

Nós não teríamos tanta intuição

Para elaborar o nosso próprio vaso.

 

Fazer valer nossa predileção

No cultivo da flor, se for o caso.

Quem premedita terá o seu quinhão,

Felicidade sem nenhum atraso!

 

Vai longe o pensamento comandando,

Do coração a rédea, já sem freios,

Como as ondas do mar se vão rolando.

 

Se tantas causas justificam os meios,

200 anos da Festa do Divino de Piracicaba


Elisabete Jurema Bortolin

Minha Experiência Vivida na 197ª Festa do Divino Espirito Santo de Piracicaba

 O significado deste encontro é o de relembrar que no começo da povoação de Vila Nova da Constituição, nos idos de 1700, depois Piracicaba, eram constantes as enchentes e as maleitas. Por isso, os devotos do Divino nos séculos passados, invocavam a sua proteção contra esses males. Em certa ocasião, os Devotos pediram ao Divino Espírito Santo que naquele ano não houvesse nem enchente, nem maleita na cidade. E em função disso, passariam a pedir esmolas, comida, remédios aos moradores da pequena povoação de Vila Nova da Constituição, para enviar aos moradores mais distantes da cidade, cujo acesso a esses benefícios era muito mais difícil. Então os “irmãos do Rio de Cima”, atual rua do Porto, faziam fogueiras grandes, para avisar os “irmãos do Rio de Baixo”, que iriam levar comidas e remédios aos mais necessitados. Daí a origem deste encontro que dura muitos anos. E os fogos de artificio que fazem parte da sua história.

Os fogos de hoje, mesmo que sem estampidos, são para lembrar as fogueiras do passado. Lembrando que foi o então prefeito Viegas Muniz que instituiu o encontro dos barcos no Rio Piracicaba, pela primeira vez, na festa de 1826.

Quando a Bandeira escolhe seus guardiões

Ao lado do professor Adolpho Queiroz, passamos a ser festeiros do Divino. E, sem que eu pudesse imaginar, iniciava-se uma das mais profundas peregrinações da minha própria vida.

Foi a Bandeira quem me ensinou.

Levamos a bandeira a 70 lugares que conduziu meus passos por ruas antigas, bairros, igrejas, casas simples, estabelecimentos comerciais e lugares onde a fé permanecia silenciosa, mas viva. Em cada porta aberta, um olhar emocionado. Em cada abraço, uma história. Em cada oração, a certeza de que o Espírito Santo continua encontrando morada onde existe esperança.

Neste ano, a grande atração do leilão foi uma Imagem de Nossa Senhora Aparecida, doada pelo cantor Daniel, aliás José Daniel Camilo, que saiu de Brotas para encantar o Brasil, que foi o maior arremate já conhecido na história da festa. Superando, em muito, os lances dados para a compra das leitoas e outras prendas ofertadas.

O encontro dos barcos

A experiência de ter ido no Barco dos Irmãos do Rio de Cima, para encontrarmo-nos com os barcos dos remadores, representando os Irmãos de Baixo, foi inesquecível.

Quando embarquei levando a Bandeira-Mãe, compreendi que algumas experiências não cabem nas palavras.

O Rio Piracicaba parecia guardar, em suas águas, a memória de quase duzentos anos de fé. Das pontes, das margens e das embarcações surgiam aplausos, orações, lágrimas e sorrisos. A cidade inteira parecia respirar no mesmo compasso.

No barco seguiam três bandeiras. A tradição dizia que apenas a Bandeira-Mãe deveria navegar. Naquele dia, porém, duas outras a acompanhavam.

Enquanto as observava balançando ao vento, uma compreensão silenciosa tomou conta de mim. Não procurei explicações. Apenas senti.

Ali estavam, para meu coração, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

A Trindade navegava sobre as águas do velho Piracicaba, restando apenas uma paz profunda.

No ritmo da Congada

Após a missa da passagem da bandeira para o próximo casal festeiro, acontece a Congada. Ver as senhorinhas e senhorzinhos vestidos com traje oficial da festa. Roupa Branca, com fitas vermelhas, gravatas cheias de medalhinhas, boina branca com o símbolo da Irmandade, sapatos brancos e meias brancas. Um cuidado nas vestes que demonstram o carinho, o amor pela festa de fé e tradição.

Nos passos compassados dos congadeiros, nos bastões marcando o ritmo e, sobretudo, na alegria serena estampada no rosto de homens e mulheres que mantêm viva uma tradição secular.

Participei junto com o pessoal quando foi aberta a roda para todos participarem. Ritmo suave, gostoso, batida forte e firme.

Ser festeira do Divino foi, para mim, muito mais do que uma honra. Foi uma convocação da própria história de Piracicaba para que eu pudesse compreender, enfim, que a fé também se escreve também se canta e também se navega.







Desde então, a Festa do Divino deixou de ser um acontecimento do calendário.