As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

SEGUIDORES

MEMBROS DO GOLP

MEMBROS DO GOLP
FOTO DE ALGUNS MEMBROS DO GOLP

GOLP

GOLP
Com o escritor Ignacio Loyola Brandão

GOLP

GOLP
Reunião na Biblioteca
Mostrando postagens com marcador Escritores amigos - Milton Martins. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escritores amigos - Milton Martins. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de novembro de 2012

O que você está lendo?



Escritor e advogado Milton Martins

Estou lendo “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda, edição da Companhia das Letras de 2004, com 220 páginas (a 1ª edição é de 1936).
Trata-se de uma obra que exige concentração mais apurada na leitura de tal modo que se obtenha o preciso sentido dos conceitos emitidos pelo autor. Creio mesmo que terei que fazer uma segunda leitura do livro – que ainda estou lendo -, como preciso fazer de “Os Sertões” de Euclides – compromisso que estou em débito.
A referência às raízes do Brasil, significa que o autor voltou aos tempos da colonização portuguesa e bom que se diga que não é ele crítico na medida em que afirma que não é (sempre) possível subestimar a “grandeza dos esforços” de Portugal na exploração das novas terras, embora não nega que tudo se fez “com desleixo e certo abandono”.
No livro ainda se descobre que nas terras paulistas a língua falada era, predominantemente, a indígena segundo, entre outras fontes citadas pelo autor, as observações do padre Antonio Vieira: “É certo que as famílias dos portugueses e índios de São Paulo, estão tão ligadas hoje umas às outras, que as mulheres e os filhos se criam mística e domesticamente, e a língua que as ditas famílias se fala é a dos índios, e a portuguesa a vão os meninos aprender à escola.”
Há um sentido crítico à “cordialidade” que sempre prevaleceu por aqui e até hoje visitantes de outros países ressaltam essa característica brasileira que nem sempre seria saudável naquilo que se chamam relações impessoais, isto é, a do Estado político. A observação é minha trazendo esse aspecto para o presente: o denominado mensalão não tem algo da permanência do “estado cordial”?
Bem, paro por aqui. Há mais a ler, entender e desvendar na obra. Por isso me obrigo, lida da primeira vez, daqui a um tempo relê-la.

domingo, 23 de maio de 2010

Vegetariano Enrustido


VEGETARIANO ENRUSTIDO: AS RECEITAS
Milton Martins

Você torce pelo touro todo ferido com aqueles espadins, odiando o toureiro com aquela roupinha ridícula? Ai, o touro acerta o toureiro e você grita como se fosse um gol do seu time num momento de decisão? Espera ai. E a violência que você rejeita filosoficamente?- Bem a violência gera a violência, especialmente quando há atos brutais de covardia, como se dá com o touro acuado - esses toureiros efeminados só merecem chifradas mesmo.Mau sinal. Ai você considera um negócio até desonesto os rodeios, pela brutalização dos animais e um bando de idiotas aqueles montadores? Que podem se arrebentar no chão com os saltos do touro sofrendo pelas amarras na sua genitália? E você pensa alto: - Tomara que se arrebentem, sabe.Sinal de “perigo”. Você é um forte candidato ao vegetarianismo. Mas, saiba, você pode pensar ou tentar sem chegar a tanto. Porque o caminho é árduo. Mais fácil deixar de fumar mesmo que você nunca tenha fumado.Começa assim:Rejeita um bife de vez em quando, pensando no sofrimento da vaca, fala para o garçom passar reto com os espetos, se enche de salada, no queijinho assado e guarnições e disfarça.Pergunta que ainda não vai calar:- Você não está comendo carne? Esta picanha sangrenta está uma delícia.Você mente:- Sabe, hoje não estou me sentindo bem. Meu médico me recomendou não comer nada gorduroso.Com o tempo você abole a carne vermelha e seguramente terá que explicar porque você assim decidiu e deverá estar preparado para responder os motivos:Religioso? Filosófico? Regime especial? O quê, o quê, hem?Você já começa a ser o diferente nos almoços de trabalho e sociais.Nem uns hambúrgueres no McDonalds? Ah, tentação, com aquelas fritas sequinhas e um copo imenso de guaraná. Difícil, hem.No churrasco com os amigos você fará “churrasco” de pão e molhinho. Conseguirá (mesmo) rejeitar a linguicinha e o coraçãozinho de frango no espeto?Epa, mas o coraçãozinho é de frango, carne branca. Acho que vou avançar...- Será que não vai mais comer nem frango, nem nada, você se questiona?E responde:- Sei não, acho que não vou, até porque a “produção” é também de imensa crueldade.E a partir daí não tem jeito. Você se assume, quase vegetariano, não radical, porque não rejeita um peixe (já pensou o “filhote” assado, tentação!), uns nacos de bacalhau, uns frutos do mar, uns camarões...Até que um dia no mercado você encara os olhos de peixe morto te assediando. Ah, não o peixe não!E devagar você começa a se questionar. Afinal, o peixe não é de carne? Mas tão saborosa, tão cheia de vitaminas! E vagarosamente começa a rejeitar o peixe:- Será possível? Com vou explicar isso em casa? E nas minhas viagens, vou comer o quê?A resposta vem espontânea:- Avance nas saladas, no grão-de-bico, na soja temperada. Massa, meu amigo, mas cuidado com a barriga! As pizzas estão por aí, em qualquer canto tentando de dia e de noite.Pronto, agora você é consumidor de brócolis, couves, abobrinhas refogadas e a milanesa, pimentões, quiabos e jilós, quibes e estrogonofe de composto (carne) de soja...e por aí vai! E frutas em profusão.Que mudança, hem? Ai, nos coquetéis você se obriga a perguntar ao garçom qual o recheio da empadinha com jeito apetitoso:- É de palmito?- Palmito e frango, responde exultante o garçom ávido por presenciar a gula coletiva. Você rejeita a empadinha porque botou na cabeça que frango desfiado cheira pena molhada. Você pode degustar uns canapés de conteúdo não identificado. Feche os olhos e arrisque. Ou fique só no guaraná e na coca-cola...Renúncias são renúncias.E se prepare. Você faz uma visita a um velho amigo e em sua homenagem ele prepara língua ao molho pardo. Você faz tudo para não jogar o estômago no prato e dá uma desculpa a mais esfarrapada possível e só fica no arroz branco e no tomate da salada. A esposa do seu amigo, constrangida, sugere fritar uns ovos, uma omelete. Não, no ovo você ainda não chegou e não quer nem pensar! Você aceita, toma uns goles de vinho e tudo acaba bem. Todos alegres, contando causos e piadas. Exageros e gafes com os efeitos do vinho avançando.Ainda bem, ainda bem. Eta dificuldade!Com o tempo esses percalços deixarão de ocorrer. Não estranhe se você deixar de ser convidado para aqueles grandes encontros e reuniões regados a churrasco e linguicinhas. E chope, é claro.Todos os seus amigos, seus familiares, descobrem que você é um chato.Mas um chato feliz que torce pelo touro, sempre, sem crises de consciência.Talvez você até entre em estudos filosóficos sobre o enigma da existência dos animais, o amor e o respeito que merecem. Aí você atingiu o clímax.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O leitãozinho - Milton Martins

O leitãozinho
Milton Martins

Sempre que ia ao açougue naqueles tempos, já saindo da meninice, me dava um aperto no peito aqueles ganchos nos quais eram pendurados pedaços de cadáver de porco e boi.
Sempre no mesmo horário de domingo, frequentemente, um chinês dono de pastelaria próxima, aproveitava o moedor do açougue para preparar o recheio dos pasteis. Os filetes da carne moída e das pelancas que se misturavam caiam numa bacia imunda, meio amassada, contendo nas reentrâncias resíduos de outras moagens.Os pedaços de porco mais me impressionavam porque havia alguns anos assistira ao abate de um leitãozinho que circulava meio livre pelo quintal. Lá estava, presente que meu pai recebera, nem sei bem porque e de onde.Chegou o dia de ser abatido.
O vizinho afeito à matança desses animais se prontificara a não só abater o bicho já grandinho como retalhá-lo em pedaços para serem consumidos. O Natal seria comemorado dali a uns dias.
Numa manhã de domingo tal se consumou. O homem, já velho, curvado, nariz avantajado com crateras lunares, olhos avermelhados, sem expressão, de chapéu de feltro batido e desbotado, escondendo seus cabelos grisalhos, apropriou-se de uma faca enorme, agarrou sem dificuldades o porco porque habituado à presença de todos, segurou-o pelas costas apertado-o no seu peito com o braço esquerdo e com a mão direita desferiu o golpe abaixo de sua pata dianteira em direção ao coração.
A facada não atingira o coração do bicho. Gritando desesperado, pressentindo a traição e a morte iminente, aqueles olhos vermelhos procuravam por todos aqueles em sua volta em quem confiara e recebera carinho, de mim especialmente, se debatendo não demorou, momentos depois, a perecer num segundo golpe, agora certeiro.
Seus olhos morreram fixados nos meus.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

COMO OUSAS?
Milton Martins

Mas, como chegara aos 70 anos?
Pois, não foi ontem de manhã que assistiu o surgimento da bossa nova, mais tarde a Jovem Guarda com o ainda hoje "rei" Roberto Carlos, já meio monótono.
E os namoros, os bailes, essas coisas?
Tudo passou de repente, embora ainda sentisse o perfume da noite, da alegria dos tempos, alguns acordes ainda chegavam aos seus ouvidos, sabe lá de onde. Do éter? Ora!
- Como é bonita a Deyse, diziam seus admiradores no colégio, muitos.
O tempo foi passando e ela se casou. O marido seria guindado tempos depois a um elevado cargo executivo numa multinacional. Sua vida foi muito fácil, muitas viagens ao exterior. Sabia que os executivos da empresa a admiravam. Não poucas vezes flagrou alguns meio boquiabertos a examinando. Aquela morena, de cabelos soltos e olhos verdes...
Teve três filhos: um professor, de vida simples, mas o mais culto, um engenheiro executivo de multinacional que enriqueceu e um médico que clinicava na Itália. Tinha orgulho de dizer de seu filho médico na Itália. Tinha facilidade de ir para lá. Sempre que ia, chegava até Assis e visitava o túmulo de São Francisco. Ficava ali, naquela meia luz, absorvendo as boas vibrações e se emocionando com as pessoas piedosas que ali oravam. Como ela. Saia dali sempre renovada.
Já pelos seus 40 anos resolveu trabalhar num núcleo de saúde infantil como voluntária, ajudando um médico, pouco mais jovem parecia, com sua barba espessa, bem contornada no rosto. Bonito? Era, reconhecia Deyse.
Teve muita convivência com ele, pelo menos duas vezes por semana. Por meses. Um dia, enquanto separava ela remédios entregues, o médico entrou, postou-se ao seu lado e, baixando a cabeça encabulado, disse quase sussurrando:
- Dona Deyse, estou apaixonado pela senhora. Eu amo a senhora!
Paixão é difícil de não confidenciar. Atônita, conseguiu responder:
- Eu também, doutor.
O médico se aproximou e trocaram um leve beijo, próximo dos lábios. Deyse caiu em si, seu rosto explodiu vermelho, saiu apressada e disse, já no jardim:
- Como ousas? Como ousas?
Nunca mais voltou ao núcleo assistencial. Pior para as crianças de tão dedicada que era.
Hoje, viúva, mirando-se no espelho, pouco ligando para as poucas rugas, estava conservada, lembrando-se de sua vida serena, realizada. Num dado momento, acariciou seu próprio rosto, bem ali onde o médico lhe beijara. Sentira o perfume de sua loção, de novo. Enrubesceu e emocionada, disse alto:
- Como ousas?
Fugiu do espelho que a encarava com rigor...

domingo, 11 de outubro de 2009

Esmeralda sem rosto
Milton Martins

A primeira futura ex-namorada. Em nome dela, em sua homenagem, num domingo chuvoso de paixão, perdido no tempo, formulara alguns versos com rima pobre:"Como são fortes, candentesOs primeiros amores,ArdentesA primeira namoradaDúvida amargaAmada".
Toda essa relação apaixonada fora tão tímida, havia muito recato em se aproximar da possível futura namorada, naqueles idos. Uma torcida para que ela passasse na mesma rua após as aulas, no mesmo horário, um encontro silencioso e ansioso.
Encontros forçados, à espreita numa esquina qualquer, uma paixão ardente. Inesquecível.
A imagem dela na bicicleta, descolorida, meio enferrujada, sem rosto, um vulto, de branco. A rua cinzenta, vento gelado, o sobrado humilde desbotado, com muro baixo. Alguns gerânios vermelhos nos vãos e rosas vermelhas e amarelas no canto do jardim. Um buquê torcido no vento.
Esmeralda. Lembranças. Tudo passou de repente. Só o amor sem rosto ficou.
Amor ou lembranças que se perderam no tempo, não sei bem! Um pouco dos dois. Há desses instantes que não se perdem. Ficam porque tímidos, são instantes idos.
Fazia justa associação: uma espécie de La Esmeralda , a cigana, vulto deslumbrante de Victor Hugo no “Corcunda de Notre Dame”. Também sem rosto, deslumbrante, porém.