As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

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sábado, 31 de outubro de 2009

Homenagem ao escritor e poeta Adriano Nogueira e comemoração dos 20 anos do Jornal Literário Linguagem Viva



Em comemoração aos 20 anos de circulação ininterrupta do Jornal Literário Linguagem Viva, encartado mensalmente na Tribuna Piracicabana, Rosani Abul Adal, editora do jornal, promoveu juntamente com os grupos literários Clip, Golp e Academia Piracicabana de Letras, um evento no Sesc/Piracicaba para homenagear o amigo Adriano, editor fundador do LV, falecido em 2004. O evento contou com apresença maciça de amigos, parentes de Adriano, escritores e poetas, numa tarde muito agradável.

Rosani, Ivana, Silvia Oliveira, Irineu e Chico Mello

Ivana Negri e Rosani Abul Adal

Antonio Henrique Cocenza e Maria Madalena Tricânico


Lurdinha Sodero Martins, uma amiga e Ruth Assunção


As presenças de Lidia Sendin e Ana Marly Jacobino


Rosani agradecendo as homenagens e a presença de todos

João Athayde, Carmen Pilotto, Ruth Assunção, Lidia Sendin , Wilma Gorgulho, Ivana Negri, Leda Coletti e Esther Vacchi Passos

Chico Mello falando uma pouco da convivência que manteve por décadas com o amigo Adriano Nogueira


Professor Cocenza homenageando o amigo Adriano Nogueira


João Athayde, Chico Mello e Irineu Volpato


MEU GATO
Ruth Carvalho Lima de Assunção

Sem raça, sem pedigree, nascido na rua, feioso, maltratado e chorão.
Mudou de status, é outro, lavado, escovado, cheiroso, dengoso como ele só.
Me beija, me arranha, me enfurece, me tira do sério, me confunde e se estabelece.
Desfiou minha cortina, arranhou o meu sofá, sumiu com o pé de meia, e depois bem de mansinho vai deitar em meus lençóis.
Muito esperto, muito inteligente, vem logo me agradar. O malabarista do meu gato atira-se em mim a pedir mais afeição.
Ele sabe como me levar. Sucumbo aos primeiros apelos e meu ego acariciado entrega-se a mais amor e dedicação.
Ele é o rei. Soberano, dá as ordens, aconchega-se nas almofadas, ronca e dorme a tarde toda. Depois aquele ritual de espichar-se, virar-se, lamber os pelos, fazendo sua higiene diária, dar umas voltinhas e retornar ao sono interrompido.
Sua qualidade de vida é excelente. Pelo jeito freqüentou uma academia e um SPA, sabe muito bem que dormir é muito importante.
Se fosse possível viver como um gato...
Não é qualquer ração que ele come. Tem as suas opções. E tem opinião. Se não for aquela, ele prefere ficar sem comer, quem diria, depois de ter passado tanta fome.
Aquele magricelo, pelo ralo e curto, sempre em cólicas, agora um gatinho mesclado, focinho e patinhas cor de carne, pelos longos e macios, um rabão de fazer inveja, anda empertigado, bonachão e metido. Nunca foi ao Egito, mas se sente divinizado.
Docilmente foi se acostumando aos meus costumes e obedecendo aos meus
caprichos.
Mas alto lá, é dócil, mas também tem o seu geniosinho, é como gente, não mexa com ele.
Entendi melhor como ele é, quando outro dia passei-lhe um sabão, pois estava afiando as unhas em meu tapete.
Dedo em riste, ralhei com ele, que imediatamente pôs-se em posição
ataque e me encarou, dando-me uma resposta.
Recuei, não tive dúvida, ele estava determinado. Não estava para brincadeiras.
Os seus sentidos, tato, visão e audição são excelentes, e fazem dele um exímio caçador. Volta e meia está ele brincando, isto é, aproveitando-se da fragilidade de um ratinho, até que, enfastiado, de um golpe, acaba com a vida do indefeso.
Já notei que seu olfato não é dos melhores, isto é, é péssimo. Diferente do cão que tem o olfato bem desenvolvido, meu gato não sobreviveria se dependesse desse sentido.
Ao cair da tarde, quando o rubor do sol empalidece e desmaia, estou só, sem companhia.
- Cadê o Josué?
Será que ainda não me acostumei com as suas escapadas...
Já se esgueirou pela porta da cozinha indo percorrer a vizinhança, os sótãos, andar pelos telhados, vasculhar a rua onde moramos e o mais importante, fazer os seus contatos.
No meio das trevas suas pupilas verdes são faróis, dilatam-se, dando-lhe uma boa visão para poder encontrar as suas gatinhas preferidas.
Passo a ouvir os seus lamentos que atravessam os muros e os quintais.
Não foge dos confrontos, e pelos seus amores volta sempre para casa com as orelhas machucadas.
Esse é o Josué, meu gato angorá!
Ele é meu?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

7o Prêmio Escriba de Contos
Premiação
(clique na imagem para vê-la em tamanho ampliado)

DIA DAS BRUXAS


Ludovico da Silva

Quando determinados acontecimentos se registram com freqüência é comum se responsabilizar as Bruxas. Principalmente quando são ocorrências desagradáveis. Então, dizem que as Bruxas estão por aí, soltas, fazendo das suas.
Coitadas das Bruxas. Elas é que pagam o pato. Pior que isso, é que se elegem a mulher como a representante dessa figura folclórica, com roupa negra e esvoaçante, nariz adunco e uma vassoura como veículo de locomoção aérea. Depois, carrega uma série de apelidos, para denegrir ainda mais esse simpático ser.
Mas a bruxa surgiu de uma festa, em tempo em que nenhum de nós havia nascido, isto é, bem antes de Cristo. Culpa de uma tradição dos povos celtas - lembram-se dos bancos escolares?
Antes de Finados, seres fantásticos se libertavam e se reuniam para uma festa. Com certeza, beberam tanto que ficaram aéreos, estão voando até hoje e dão aquelas gargalhadas assustadoras.
Com o passar do tempo, parece que as Bruxas estão perdendo terreno, caindo em descrença. Até crianças se transformam em bruxinhas, para brincadeiras ingênuas. Mas a tradição continua. É por isso que, apesar de tudo, se comemora hoje o
dia das Bruxas.

Halloween
Ivana Maria França de Negri

Nunca acreditara em bruxaria, entes fantásticos ou fantasmas. Zombava até quando alguém fazia qualquer menção ao sobrenatural, magia ou coisa parecida. Foi àquela festa com a idéia de que iria apenas divertir-se. Vestiu a fantasia de cetim negro, o chapéu pontudo de abas largas e a saia com fartas camadas de tule lilás. Os sapatinhos de fivela combinavam perfeitamente com o resto da fantasia. Passou o cajal preto fortemente sob os olhos, sombreando-os com profundas olheiras e por último, fez o arremate final com batom cor violeta. Gostou do resultado ao mirar-se no espelho oval do seu quarto. Estava aterrorizantemente bela.
Na festa conheceu um lindo “vampiro”, perfeito cavalheiro, alto, atlético, em trajes negros e vestindo uma capa de um tom escarlate bem forte. Sobressaiam-se os óbvios dentes caninos muito alvos, que pareciam tão reais... Achou-os até atraentes e charmosos. Mas o que a encantou de verdade foram os olhos. Eram grandes, negros e expressivos.
Dançaram a noite inteirinha e por incrível que pareça, não se cansou. Só queria aproveitar aqueles momentos mágicos. Ele quase não conversava e também pouco sorria, mas uma atração inexplicável a fazia ficar ali, como que hipnotizada e presa ao sedutor, que a segurava de maneira sensual, apertando-a contra o peito. Parecia flutuar no salão ao som da música envolvente e suave.
Os outros convidados da reunião já estavam indo embora e a madrugada se findava. Os primeiros raios de sol surgiram tímidos, mas cheios de fulgor. O rapaz retirou-se por instantes e ela ficou aguardando enquanto tomava um café forte que alguém oferecia no final da noitada, pois todos estavam exaustos. Como o moço estava se demorando muito, resolveu procurá-lo. Buscou-o em todos os recintos, mas não o encontrou em lugar algum. Parecia até que havia desaparecido como num passe de mágica. Muito estranho.
Caminhou até a janela para tomar um pouco de ar e viu o vulto de um imenso morcego sobrevoando o local, bem próximo ao parapeito. Por uma fração de segundo encarou o bicho de frente. E o que lhe chamou mais a atenção foram os olhos: grandes, neg
ros e expressivos...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O pé de alface
Dirce Ramos de Lima

A mulher fechou atrás de si a porta de vidro e caminhou alguns metros antes de alcançar o portão.
Na frente da casa havia o odor fético da grama regada por cães imundos; ao longo da avenida o detrito verde-escuro de animais pastando formava um rastro mal cheiroso.
A mulher apoiou pesadamente as mãos nas grades de ferro e viu o ônibus passar.
Sentiu uma vontade enorme de ir com ele, de fugir daquela casa grande e vazia. Pensava nos amigos e parentes que encontraria descendo as ruas. Mas, aquele era seu lar!
Ali nasceria seu filho; ali retornaria seu esposo. Ela aprenderia a amar o casarão isolado.
Pensou então no seu almoço. O arroz branco já estava cozido na panela. Nada mais havia!
O onibus lhe indicara, ao passar, que " era hora de fazer a refeição".
Mas ela esperava, esperava um milagre!
Talvez algum parente viesse visitá-la trazendo uma sacola cheia de legumes,ovos ou algum pedaço de carne!
Nisso passou uma carroça. Trazia cestos e mais cestos de verduras.
O caboclo quase se deteve para oferecer a mercadoria, mas diante do olhar indiferente e adverso da mulher, seguiu.
Foi então que ele caiu: o pé de alface!
Ficou ali jogado no chão: verdinho,macio , apetitoso!
A mulher pensou em abrir depressa o portão e agarrá-lo! Não para avisar o verdureiro, que já se distanciava, ou para remove-lo simplesmente da via publica Ela quis para si, para comê-lo.
Pensou em trazer para casa e, depois de lavar delicadamente cada folha na água fria, depositá-lo na travessa de porcelana. Regar com sal, azeite e vinagre!
Como lhe parecia gostoso o almoço agora: arroz e salada de alface!
Quase foi mas, se deteve.
E,se alguém estivesse observando? Algum vizinho afoito ou transeunte ocasional? Que diriam ao vê-la assim,quase roubando, catando do chão a sobra perdida?
Que diriam os que a vissem sair assim daquela casa de grandes janelas de vidro e cortinas de tafetá? Que diriam ao vê-la assim de vestido branco , imaculado e chinelinhas de seda japonesa, descer às sarjetas?
Que diriam eles se soubessem que seu esposo, que voltava sempre das viagens com os braços cheios de presentes exóticos, nunca trazia dinheiro suficiente para pagar as próprias dividas?
Humilhada e envergonhada pelos próprios pensamentos ela voltou e trancou-se na casa.
Pouco depois, devagar e sozinha fazia sua refeição.
Nesse dia não comeu arroz e alface. Almoçou arroz e lágrimas!
E, o pé de alface? Acabou esmagado pelas rodas de um caminhão....

Definindo a Saudade
Maria Iraci Pinto

Saudade é um perfume de flor, misturado ao cheiro de alguém que está longe.
É o som de uma música que ecoa na lembrança junto a uma voz que só nosso coração ouve.
É$ a presença constante de um olhar, um gesto, um sorriso e de um corpo tatuado em nossa pele e em nossa mente.
Saudade é o que sinto de você, meu amor, sempre tão onipresente em minhas horas de solidão.
Definição de saudade, para mim, é a sua ausência em meus dias.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O MUNDO
Giovanni Guidi

Deus, num surto de criação, resolveu fazer uma bola branca de pentágonos e hexágonos cosidos entre si.
Olhando em volta, viu que tudo era branco. Ficou descontente com a alvaiade de sua esfera e resolveu pintá-la.

Traçou contornos grossos de um desenho abstrato, sem sentido, para que os homens tivessem trabalho quando copiá-la.
Do tronco da árvore da vida e do conhecimento retirou a inspiração da cor de seus traços.
Pingou gotas desta tinta óleo marrom na sua palheta e pincelou-as na sua segunda grande invenção preenchendo aquilo que se formara.
Depois de um tempo secaram em camadas marrons.
Algumas protuberâncias saiam e Deus não se importou; era arte moderna que os homens ainda descobririam.
Estava descontente porque ainda havia branco. Da água que banhava o Seu jardim, retirou uma tinta aquosa pincelando em aquarela azul o espaço faltante.
Esta tinta escorreu por entre as crostas da tinta óleo e ali permaneceu.
Ela nunca mais secou, permanecendo sempre aguada e agitada.
Deus, que segurou a base da esfera com a mão, não quis pintá-la, deixando-a branca;
estava cansado, pensou em descansar, mas sua obra ainda estava inacabada.
Resolveu colocar ali todas as espécies que criara, inclusive sua miniatura feita de barro.
A bola ficara mais colorida e Ele assoprou para dar vida às Suas criações, e ela começou a girar, girar, girar. Aproveitando o embalo, a lançou no espaço com outras bolas
a dançar a música do cosmos, orquestrada por Ele, o Único que consegue ouvi-la.

São Longuinho Estressado
Olga Martins

Quem o conhece não se espanta. Quem se espanta ainda não ouviu um terço das teorias mais incríveis elaboradas por esse homem. Assim é meu amigo Gláucio. Cada dia uma novidade e um desfolhar de gargalhadas.
Toca o telefone:
-Você não vem não?
-Daqui a pouco.
-Está ocupado?
-Mais ou menos. Estou estressando São Longuinho.
-Como é?
-Perdi a chave do carro. Fiquei mais de meia hora feito louco procurando. Revirei tudo quanto é lugar. O sangue subindo ...
Risadas do outro lado da linha.
-Escute, você não tem chave reserva ?
-Filho de Deus, se não acho a chave titular como vou saber onde está a reserva? -Mas e a história de São Longuinho?
- Pois é, fiquei nervoso porque não consegui encontrar. Deixei o serviço para São Longuinho. Ele que se estresse e encontre.
-Vai ficar esperando a chave cair na sua cabeça?
-Que seja! Enquanto ele se estressa no meu lugar, vou ficar aqui sentadão na boa vendo televisão. Já arranquei o sapato. Vou relaxar.
-Ninguém merece.
Mais tarde toca o telefone na outra casa..
-Achei. Não falei que o santo se virava?
-Onde estava?
-No sofá...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Ausência
Denise Soffner Arantes


Hoje o dia amanheceu nublado! Está frio...
E em um bate-papo com uma pessoa toquei no nome de vocês.
Vocês que já não fazem mais parte do meu mundo real, apenas do sobrenatural.
Milhares de cenas voltam à tona em meus pensamentos.
Poderia ter sido melhor, mais compreensiva, mas eu era uma criança. Ainda sou, às vezes, e sempre vou ser um pouco. Por isso perdoem os meus erros, e considerem o meu amor.
Saudade dói, como se arrancasse um pedaço de mim! Como se uma foice estivesse sendo cravada em meu peito!
Lágrimas rolam nesse momento. Cadê vocês? Se eu chamar vocês virão?
Se eu subir no mais alto dos morros e gritar, vocês me ouvirão?
A família está dividida, cada um mora em um lugar, mas quando juntam todos...
.. quanta alegria! Quantas risadas, momentos maravilhosos.
Abrem-se sorrisos em todos os rostos.
Sorrisos que são sinceros, que têm a presença de vocês!
O mais simples passeio ao shopping, com o carro apertado com cinco, seis ou sete mulheres/meninas se torna indescritível.
Quando chega a hora de cada um retornar a sua rotina, a hora de partir, da despedida, lágrimas rolam. Não queríamos nos separar.
Aí vocês vêm, sem que nós percebamos e nos lembram que a gente tem de se separar, para que haja próximos encontros como este.
Encontros de alegria, risos, choros, momentos em que vocês se fazem vivos em nossos corações.
Hoje vocês são pássaros. Livres! Estão na presença do maior ídolo do mundo.
Mas a saudade que eu sinto... ah a saudade que eu sinto...
Não tenho palavras!

domingo, 25 de outubro de 2009

PROVAS DE AMOR

Provas de Amor
Leda Coletti

Na trajetória da vida, já tive muitas provas de amor. E estas nem sempre foram de amigos humanos, mas sobretudo de animais.
Bem pequena, nos meus quatro anos, morando na zona rural, fui presenteada com várias lebres. Encantei-me por uma de cor cinza, de olhos muito vivos, que vinha comer em minhas mãos, as verduras e legumes colhidos na horta, ao lado da casa.
Já tinha nove anos, quando apareceu em nossa casa, um gato amarelo com listras marrons. Por influência de uma poesia que eu declamava, batizei-o por Cetim. Ele me acompanhava o dia inteiro e inclusive à noite. Quantas vezes, ao acordar, lá estava ele dormindo, todo enrolado e quietinho, ao meu lado!
Também tive o amor-relâmpago de um pato. Já era adulta, professora e passando as férias, na fazenda com meus pais. A paixão foi recíproca. Era só eu sair e me dirigir ao pequeno lago, e o patão já me acompanhava! Conversava com ele e como resposta ele emitia sons, mexendo a cabeça, sempre alvoroçado. Digo ter sido paixão esse curto relacionamento, pois no último dia de nosso convívio, o danado me deu tamanho beliscão, deixando um dos meus dedos machucado.
Cachorros, tivemos muitos, mas um que marcou foi o Dunga. Seu olhar tão terno, sua obediência exemplar para com toda família, fizeram-no inesquecível. Morreu de velhice.
Nosso último bichinho de estimação foi um gato nas cores branco e preto, que pela sua inteligência aguçada, mais parecia gente que animal irracional. Conseguiu amansar os dois cachorros do local, e ficar dono do pedaço. Era uma festa vê-los brincar juntos. Para entrar em casa, anunciava sua chegada, com um miado especial, dando um salto para abrir a maçaneta da porta e, para sair, empurrava-a com as patinhas. Era muito dengoso e toda família disputava oferecer-lhe colo para sua soneca diária. Mas, como tudo que é bom dura pouco, ele se foi de forma misteriosa.
Agora, só tenho para me alegrar, a passarada que faz ninhos nas árvores e terraço da casa da fazenda. Fico horas absorta em observar colibris, bem-te-vis, sanhaços e até as maritacas, que de vez em quando me assustam andando no forro da casa, nas madrugadas. E como os amo, meus lindos passarinhos!

A Deusa dos Mares

A Deusa dos Mares
Ludovico da Silva

Sem se dar conta de que a noite estava chegando, ela continuava com o seu olhar ao longe, esperando as despedidas dos últimos raios do sol, que teimavam em se infiltrar pelas sombras das nuvens brancas que enfeitavam o céu. E nem percebeu que a lua abria espaço para o seu passeio noturno.E por quê ela estava ali a contemplar aquelas imagens perdidas na imensidão do céu?Saiu à tarde para um passeio. Sem destino e sem pressa para evitar o inesperado. Queria só recobrar o tempo que ficou atrás. Apenas estar ao capricho do pensamento. Bem distante da realidade que estava vivendo. Empunhava uma varinha mágica que batia despreocupada à sombra andando ao seu lado, guiando os seus passos, marcados por sonhos e fantasias.Só ela a carregar aquela angústia, sem ter alguém para desabafar o que sentia. Muitos passavam com olhares curiosos, mas nem os esbarrões descuidados a desviavam da meditação profunda em que se encontrava.O imprevisto a levou a pisar mansamente a areia branca da praia deserta. O mar penetrava barulhento pelos seus ouvidos, no rumor das ondas quebradas nos penhascos.Eram poucas as gaivotas que lhe faziam companhia, no silêncio do ocaso da tarde. Uma penumbra entre o sol que se despedia e a lua que se anunciava.A noite chegou, carregando consigo a tristeza que tornava a solidão mais forte, na imagem daqueles olhares perdidos no infinito escuro.Uma sonolência estranha se abateu sobre aquela alma, esquecida no vazio da noite, tropeçando descuidada na imaginação, como uma sonâmbula seduzida nos caminhos da fantasia.Um vento brando a despertou dos devaneios, para desfrutar de toda a graça da lua à sua frente, com a suavidade do seu clarão banhando-lhe o rosto inquieto e adoçando-lhe a amargura.Foi assim que ela se sentiu estimulada para uma nova vida, esquecendo a tristeza de um abandono cruel. Só ela e a lua gozando de toda felicidade.

Texto classificado em primeiro lugar no Concurso Primavera de Poesia e Prosa – 1997 -promoção do Grupo Poetas do espaço Cultural de Santos, São Paulo.

sábado, 24 de outubro de 2009

Franciscanamente

Franciscanamente
Eloah Margoni

"O que te mata é o que te move" (frase esotérica)

Sinto-me privilegiada e infeliz ao mesmo tempo, por causa da grande sintonia que, desde criança, tenho com a natureza e com a diversidade da vida na Terra. A infelicidade causada por tal paixão advém de razões bem conhecidas e óbvias, alheias aos meus desejos, sonhos e entendimento racional. A alegria e o bem estar por outro lado, devo explicá-los, para que seja possível para aqueles que não possuem esses sentimentos por Gaia tão enraizados como o são em mim, compreenderem que tal sensibilidade traz não só muito sofrimento mas, afortunadamente, também manchas de oásis e de encantamento em meio à aridez adversa, cortante e estéril do universo humano.
As tragédias do tosco Homo sapiens comovem-me também e relativamente, por outro lado; a omissão social não é hábito que cultivasse em nenhum momento da vida. Minha profissão inclusive não me permitiria isso. Preocupação especialmente com os infantes...Porém, esta espécie de bicho a qual pertenço não está no centro nem do universo nem de meu espírito. Ali esteve por algum período não tão longo (no centro do meu espírito quero dizer)... Já nem está, e no universo sempre foi faísca.
Posso me distrair enormemente com os lagartos que ficam, nas manhãs de sol, parados nas pedras e correm da gente quando nossos passos se aproximam. Apenas ver um besourinho milimétrico de intensa e brilhante cor bordô, que nunca conhecera antes, bem ali parado no muro do meu jardim, é melhor do que um presente de Natal! A família de pássaros “quero-quero”, mãe vigilante, atentíssima e quatro filhotes agitados, zanzando de lá pra cá, qual frangos em miniatura no parque que atravesso diariamente, vem a calhar. Não preciso de espectadores humanos em muitos dos meus momentos. Bem- vindos sejam leitores iguais a mim, ou a caminho!
Posso parar, e paro, para passar o dedo delicadamente sobre trinta joaninhas irmãs, de casca lustrosa, morando juntas sob os cogumelos "orelhas de pau" da árvore morta. As câmeras municipais de vigilância devem achar esquisito que eu fale tanto com a coruja que fica no mourão. Ou não...câmeras de segurança não têm de pensar nada. Nuvens cúmulos-nimbos em sua maleabilidade e fluidez podem distrair-me por horas, mais do que computador! Uma grande pedra acolhedora e aquecida pelo sol, sobre a qual nos deitamos num dia mais ameno é deliciosa... E os troncos das árvores! Desenhos que são vivos, caminhos, trilhas sinuosas e insinuantes, tons e mais tons, cores tiradas de outras cores.
São tantas as contemplações, os sons naturais e os olores da terra capazes de afugentar qualquer solidão ou autopiedade em meu peito, que dá pra rir como os loucos, sozinha, e suspirar, e rir de novo e sentir-me acompanhada. Por outro lado, isso tudo não me parece, para o intelecto, coisa de grande juízo ou sensatez, de bom equilíbrio mental. Só posso explicá-lo aceitando que, com o tempo, me afastei de minha espécie... Se a alma do homem for lilás ou branca, a minha será cor de mel ou esverdeada. Enfim, diferente. Se for redonda, encompridei por enquanto. E cá entre nós, isso traz a qualquer um imenso, inenarrável alívio!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

“Carpe Diem”

“Carpe Diem”
Ivana Maria França de Negri

Esta expressão, que tem origem no latim, quer dizer mais ou menos isto: “colha o dia”. Diz Rubem Alves: “É como se a vida fosse um fruto maduro para ser degustado, pois no dia seguinte estará podre”.
Se o passado não existe, pois já se foi, e o futuro é uma incógnita, porque ainda não chegou, então, o melhor mesmo é aproveitar o presente, que é a única realidade que temos, o aqui, o agora, o imediato, o palpável.
Não se pode economizar a vida para gastá-la amanhã porque o amanhã pode não chegar. O tempo, esse ingrato, está sempre fugindo de nós, nunca se chega ao futuro, ele está sempre mais à frente. E, nessa ilusão, muitos passam a maior parte da vida poupando para ter no futuro e se esquecem de viver o presente. Um dia caem na real e lamentam o tempo desperdiçado, não aproveitado, e que não volta mais.
Economizamos conversas com pessoas queridas, pois não temos tempo, poupamos sorrisos, agrados e elogios que nada nos custariam. Deixamos para amanhã a reunião com amigos, o passeio com filhos pequenos ou netos, a viagem tão aguardada, o projeto do livro, vamos postergando os sonhos, investindo num futuro que nem sabemos se chegará. As crianças crescem depressa, os amigos se vão e as oportunidades são abortadas.
Há que se viver o presente, como se fosse mesmo um presente. Um presente de Deus, mais um dia para aproveitar da melhor maneira possível.
Num dos lindos poemas de Dirceu oferecidos do exílio à sua amada Marília, Tomás Antonio Gonzaga dizia: “Que havemos de esperar, Marília bela?/ que vão passando os florescentes dias? /As glórias que vêm tarde já vêm frias,/ e pode, enfim, mudar-se a nossa estrela./ Ah! não, minha Marília,/ aproveite o tempo,/ antes que faça o estrago de roubar ao corpo as forças,/ e ao semblante a graça!”.
O professor Keating, personagem de Robin Williams no filme A Sociedade dos Poetas Mortos, diz em certa cena antológica: “- Carpe, carpe diem, colham o dia garotos, tornem extraordinárias as suas vidas."
Não desperdicemos as horas com coisas inúteis. Cada minuto é precioso e único.
Na antiguidade o sol era o único relógio para contagemn do tempo. Era só observar sua sombra em relação ao horizonte. Mais tarde, o trabalho de cronometrar o tempo foi delegado às ampulhetas, conhecidas como relógios de areia. Cada grãozinho, uma fração de tempo, até que Galileu associou o princípio do pêndulo aos relógios, e os minutos e segundos começaram a ser contados. E o tic-tac começou a orquestrar o tempo da humanidade tornando-nos escravos das horas.
Não importa como se conte a passagem do tempo. Ele voa... Dizem até que nem existe! O tempo não passa, é estático, nós é que passamos.
Filosofias e sofismas à parte, conclui-se que a vida é o que acontece agora. O resto é ilusã
o.

Tanto Vaga-Lume

Tanto Vaga-Lume
Olga Martins

Só me lembro da correria doida da molecada. Mal voltavam da escola e a noitinha começava a roçar as horas, aparecia lá no final da rua um tremeluzir enlouquecido.Verdadeira constelação .
Rua sem asfalto. Rua sem modernidade dos postes iluminados. (Nem precisava que o céu vinha nos visitar algumas vezes.)
Era rua porque se chamava assim, mas lá pra baixo perto do morrão era um mar de mato.
Os anjinhos sem asas disparavam de suas casas-nuvem carregando potinhos para fazer lampião.
Estrelinha acendia aqui, piscava lá , mudando de lugar a todo instante como se o próprio céu se movesse . Pegava-se uma estrelinha e mais outra e outra mais e parecia interminável a multiplicação delas.
Era um tempo assim à toa, de algazarra luminosa, cheia de planos individuais em que cada um imaginava o que faria com aquele brilho todo. Talvez por uma espécie de compaixão não me lembro do destino das fagulhas vivas capturadas..
De volta para casa, depois do banho, do prato de comida, da conversa ligeira , enquanto os olhos não se despregavam da novela das oito, as estrelinhas viraram fogueirinha na memória.

MEDITANDO

MEDITANDO
Ruth Carvalho Lima de Assunção

Ninguém foge às suas raízes. A força enigmática e brutal dos impulsos de uma raça, do grupo familiar, do DNA exercem sobre o indivíduo o tacão de suas origens.
Muito embora o ambiente torça em diversos setores a individualidade dos seres humanos, estes continuam dependentes de sua ancestralidade. Como escapar desse comprometimento secular que nos prende, nos enlaça e não nos deixa usufruir de outras opções?
É no campo emocional, intelectual e espiritual que nossas diferenças se manifestam, mas em destaque, os dotes físicos tão evidentes.
Ser humano, uno e indivisível, com todas suas diferenças e semelhanças têm agora um grande desafio à frente, um desafio que o levará à paz ou à guerra, à vida ou à morte.
A sustentabilidade do planeta continua, em ritmo acelerado, a cair na degradação, entrando num funil sem perspectivas.
Mas o momento exige uma postura inteligente, onde semelhanças e diferenças se unam a fim de salvar este nosso lar que está em processo de destruição.
Esta grande dádiva que nos foi dada gratuitamente pelo onipotente criador para nos deleitarmos com sua grandiosidade e beleza não pode desaparecer em função da negligência e ambição do ser humano.
Há muito já deveríamos estar cientes de nossa fragilidade, de nossa impotência , mas também de nossa força em torno de um ideal, no caminho da paz e união.
É desolador pensarmos que nossa poesia, nossos sonhos e fantasias se diluirão perante o espetáculo destruído de uma natureza morta, sem rios, sem montanhas, sem atrativos.
Semelhanças e diferenças deverão se confraternizar para num esforço comum unirem seus esforços em prol desta causa que envolve VIDA.

Lembranças de Casamento

Lembranças de Casamento
Ludovico da Silva

Não são poucos os casais que guardam nos tempos de convívio objetos recebidos como lembranças de seu matrimônio. Trata-se de uma data que fica marcada pelos restos dos anos, aqueles que têm a felicidade de uma convivência sadia, de compreensão mútua, superando os percalços naturais de uma vida em comum que pode superar décadas.Que casal não tem um álbum de fotografias que registra aqueles momentos de rara emoção! Sobretudo a noiva, sempre a mais bonita de todas, nos passos lentos, distribuindo sorrisos para os olhares que se multiplicam tantos são os convidados à sua espera, enquanto o noivo nas escadarias do altar transpira um sentimento de felicidade. Que noiva esquece os sons da marcha nupcial que soa suave pelos quatro cantos da igreja e fogem pelas brechas das portas e janelas e se perdem nos ares levada pelos ventos de bons augúrios? É bem verdade que as fotos, sempre bem guardadas, acabam por provocar uma saudade que não evita algumas lágrimas escorregarem silenciosas pelo rosto, às vezes, coroado pelos efeitos dos tempos. São registros saudosos, freqüentemente lembrados na presença dos filhos que completam a felicidade dos pais ao longo dos anos.As fotos do casamento marcam um momento muito particular que também fica perpetuado na memória do casal. Mas há outros motivos e fatos para serem relembrados num tempo futuro.No retorno às atividades normais, o casal tem que dar um jeito nos presentes recebidos por ocasião das bodas. É preciso colocar tudo em ordem. Cada um no seu lugar, separando os chamados “trens” de cozinha que serão usados diariamente. Pratos, panelas, jogos de xícaras, talheres e outros. Naturalmente, somados aos recebidos pela noiva no chá de cozinha, como guardanapos, toalhas, materiais e objetos de limpeza. São os chamados materiais de consumo, pois o estoque terá que ser reposto na medida das necessidades.Por outro lado, há que se dar um tratamento especial aos presentes duráveis. Jogos de cristal, chá e café que se destacam com fios de ouro em suas bordas terão um lugar em móvel apropriado. Objetos de arte, como quadros e pratos pintados com toda delicadeza por um parente próximo, terão uma atenção particular e, em razão do seu valor sentimental, colocados em local bem seguro.É uma pena, mas, embora todo o cuidado seja dado a esses objetos, é bem provável que durante a limpeza, necessária de tempo em tempo, alguns deles sofram uma queda e se despedacem no chão, principalmente com maridos descuidados, que normalmente dão uma mãozinha à consorte nessas oportunidades. Mesmo com compreensão mútua do casal, é um momento de tristeza.Mas o tempo passa tão depressa e quando o casal se assusta já comemorou bodas de prata, de ouro e até diamante. A família, grande ou pequena, está criada. Cada filho tomou rumo na vida e daí não resta mais nada ao velho casal, senão passar um filme de todo esse tempo decorrido. Aí é que vêm as lembranças de casamento. Fotos e presentes trazem recordações que nunca se esquecem. O casal troca olhares e sempre algumas lágrimas quentes teimam em escorrer pelo rosto. Nessa hora, só mesmo um abraço bem apertado que a emoção provoca por uma vida de convivência feliz.

Instantâneos da Natureza

Instantâneos da Natureza
Leda Coletti

A orquestra dos trovões e faíscas elétricas, ora atingia sons graves e lentos, ora agudos e rápidos. As artistas nuvens se preparavam para entrar em cena. Ansiosas, davam os últimos retoques, fazendo alongamento e já ensaiando passos mais impetuosos, movimentando seus trajes cinzentos, os quais em alguns momentos ficavam azuis escuros, quase negros. E o esperado momento aconteceu. A cortina do céu se abriu e elas exibiram a mais bela dança, a chuva, que refrescou toda terra.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

COMO OUSAS?
Milton Martins

Mas, como chegara aos 70 anos?
Pois, não foi ontem de manhã que assistiu o surgimento da bossa nova, mais tarde a Jovem Guarda com o ainda hoje "rei" Roberto Carlos, já meio monótono.
E os namoros, os bailes, essas coisas?
Tudo passou de repente, embora ainda sentisse o perfume da noite, da alegria dos tempos, alguns acordes ainda chegavam aos seus ouvidos, sabe lá de onde. Do éter? Ora!
- Como é bonita a Deyse, diziam seus admiradores no colégio, muitos.
O tempo foi passando e ela se casou. O marido seria guindado tempos depois a um elevado cargo executivo numa multinacional. Sua vida foi muito fácil, muitas viagens ao exterior. Sabia que os executivos da empresa a admiravam. Não poucas vezes flagrou alguns meio boquiabertos a examinando. Aquela morena, de cabelos soltos e olhos verdes...
Teve três filhos: um professor, de vida simples, mas o mais culto, um engenheiro executivo de multinacional que enriqueceu e um médico que clinicava na Itália. Tinha orgulho de dizer de seu filho médico na Itália. Tinha facilidade de ir para lá. Sempre que ia, chegava até Assis e visitava o túmulo de São Francisco. Ficava ali, naquela meia luz, absorvendo as boas vibrações e se emocionando com as pessoas piedosas que ali oravam. Como ela. Saia dali sempre renovada.
Já pelos seus 40 anos resolveu trabalhar num núcleo de saúde infantil como voluntária, ajudando um médico, pouco mais jovem parecia, com sua barba espessa, bem contornada no rosto. Bonito? Era, reconhecia Deyse.
Teve muita convivência com ele, pelo menos duas vezes por semana. Por meses. Um dia, enquanto separava ela remédios entregues, o médico entrou, postou-se ao seu lado e, baixando a cabeça encabulado, disse quase sussurrando:
- Dona Deyse, estou apaixonado pela senhora. Eu amo a senhora!
Paixão é difícil de não confidenciar. Atônita, conseguiu responder:
- Eu também, doutor.
O médico se aproximou e trocaram um leve beijo, próximo dos lábios. Deyse caiu em si, seu rosto explodiu vermelho, saiu apressada e disse, já no jardim:
- Como ousas? Como ousas?
Nunca mais voltou ao núcleo assistencial. Pior para as crianças de tão dedicada que era.
Hoje, viúva, mirando-se no espelho, pouco ligando para as poucas rugas, estava conservada, lembrando-se de sua vida serena, realizada. Num dado momento, acariciou seu próprio rosto, bem ali onde o médico lhe beijara. Sentira o perfume de sua loção, de novo. Enrubesceu e emocionada, disse alto:
- Como ousas?
Fugiu do espelho que a encarava com rigor...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Convite

O Jornal Literário Linguagem Viva comemora 20 anos de circulação e convida para um evento no Sesc/Piracicaba quando o escritor Adriano Nogueira, um dos seus editores, falecido em junho de 2004, será homenageado.

http://www.linguagemviva.com.br/

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Maçã do Amor
Leda Coletti


Já observaram como a maçã é uma fruta bonita? Além de saborosa, geralmente é de cor vermelho-sangue. Nunca havia atentado para os seus diversos atributos. Talvez por condicionamentos antigos, pois na infância aprendi que por causa de a terem comido sem autorização divina, Eva e Adão perderam e nos fizeram perder o paraíso.(naquela época não existia sentido figurado para nosso raciocínio infantil); depois nas histórias de fadas e rainhas, sempre havia uma bruxa má, que oferecia maçã envenenada às inocentes vítimas, geralmente lindas princesinhas.
Hoje me pus a notá-la com mais detalhes e associá-la á maçã do amor atual.Em dias de quermesses e festas escolares costuma-se prepará-la com anilina e açúcar. As crianças com a boca ligeiramente avermelhadas demonstram prazer imenso ao degustar os sabores doce-acres.
Porém, não foi essa maçã incrementada com novos ingredientes que me fez evocar a infância, mas sim aquela desejada em cada ida à cidade, juntamente com o picolé de groselha. Fico a pensar: ambos vermelhos, minha cor predileta. Talvez seja esta a propulsora da grande energia, que emana de meus atos.Pois foi isto que senti ao oferecer de presente uma delas ao companheiro, sentado ao meu lado, na oficina de literatura.Também, com grande calor humano a recebi de outro colega e, ao olhar nos seus olhos vi o quanto é bom estar em paz com a vida, e com os que nos rodeiam.

VIVÊNCIA
Eunice ZemVerdi

O dia amanhecera sem que ela sequer houvesse dormido.
Noite insone, cheia de inquietação, seguida de profunda apatia.
Como sonâmbula, saíra do quarto alcançando a porta rumo ao nada.
Olhos perdidos, distantes, caminhava agora, lentamente, sem que nada a pudesse deter.
Assim, nem percebeu que o sol já ia alto, quase meio dia.
Absorta e só com seus pensamentos, passos lentos e cadentes, parecia alheia ao encanto daquela bela manhã ensolarada.
À sua volta, tudo era tão exuberante, contrastando com o vazio daquele olhar sem brilho.
De repente, à sua frente, um espetáculo de rara beleza: logo adiante, bem no topo de uma pequena montanha, descortinava-se em meio às árvores e flores, os últimos raios de sol, que horas antes, aquecera-lhe o corpo.
Agora, os pássaros em bandos, cantando, voltavam aos ninhos para, em silêncio, reverenciar a noite que já se aproximava.
Só então, aquela mulher despertou da apatia que por horas a dominara. Olhou para frente, para trás e para os lados e constatou o quão distante estivera e do quanto aquela visão lhe era importante. Contemplou todas as cenas daquele belo dia, como se fosse o primeiro do resto de todos os seus dias.
Pela primeira vez, sentiu a necessidade de se juntar àquele magnífico cenário do qual, percebera, fazia parte.
Desnudou seu corpo de todas as amarras que até então lhe serviam de clausura e soltou as emoções represadas em seu peito. Com toda graça de seus movimentos, pôs-se a correr, a cantar e a dançar, feliz, como criança plena de encantamento.
A noite chegara. A beleza da lua e das estrelas invadiram aquela alma carente de emoção. Hora de voltar! Hora de viver!
Aquele dia fora, definitivamente, o marco inicial de uma nova etapa de sua vida.
De volta para casa, a passos lentos, agora a vida passara a ter um significado maior para ela. Aprendera muito com aquele contato, aquela integração com a natureza. Até a solidão, que tanto a castigara, agora era a sua maior companheira.

O gato que tudo sabe
Olga Martins

-Sente-se e fique à vontade.
-Obrigada.
Mas enquanto agradecia nem poderia imaginar que difícil tarefa seria essa. Não naquele dia.
Depois de algum tempo, a gente se acostuma com as frases feitas e elas sopram tão naturais com uma simples fungada no nariz, ou um suspiro casual.
A conversa correu naturalmente naquele dia. Senta. Levanta. Senta de novo. Um pequeno auxílio aqui, uma gargalhada acolá. Domingo transcorrendo como domingo.
Um jornal e uma poltrona depois do café. Ótimo!Mas o que fazer com aqueles olhos?Penetrantes, insistentes olhos felinos. Junto ao pé da poltrona, patas juntas e cauda estanque. Levanta e abaixa o jornal e ele ali.
Ela adora os gatos que faz em tecido, obra de seu artesanato delicado. Adora a plasticidade felina, suas curvas, sua sutileza, mas do bicho propriamente dito não pode dizer o mesmo. Há algo de inquietante e desconfiável nos gatos. Abaixou o jornal novamente. Não conseguia se concentrar, pois sabia que os olhos a perscrutavam. E ali estavam eles, implacáveis e constrangedores. Por que motivo ele se fixava nela daquela maneira? Olhou em volta. Teria se apropriado do espaço do gatinho?Afinal ela era a estranha no pedaço.
Voltou a pousar os olhos nas manchetes, mas ainda sentia-se invadida, desnudada. O incômodo a asfixiava como se alguém tivesse descoberto um segredo recôndito. Resolveu levantar-se e sair de fininho sem chamar a atenção de ninguém, nem mesmo do gato. Virou-lhe as costas, supondo que o bichano se instalaria no calor da poltrona. Seguiu com passos leves para a cozinha. Um copo de água. Um copo de água talvez trouxesse alívio para esses minutos desconfortáveis.
Que estaria pensando esse pequeno ser?O que ele sabia sobre ela?Por que ele a incomodava tanto?Fechou os olhos em intranqüilos segundos, enquanto caminhava e quase suspirou, então notou que o bichano seguia seus passos. O coração afligiu-se e fez força para não demonstrar o incompreensível drama que vivia ali.
Tomou a água e voltou para a poltrona com uma agitação barulhenta que ecoava nos labirintos de seus pensamentos. Por fora, a televisão, cadeiras, samambaias e almofadas pareciam rir daquela ridícula situação somente as pessoas continuavam alheias.
Foi então que no limite e desejando preservar o que julgava ser sua única propriedade legitimamente privada que apelou:
-Vamos fazer o seguinte?Eu fico aqui, lendo meu jornal e você procura um outro lugar para ficar.Eu não incomodo você e você não me incomoda.Pode ser?
O gatinho já adivinhara esse desejo, mas agora que ouvia em alto e bom português, dobrou-se sobre seu dorso, lambeu umas três vezes a cauda, deu meia volta e concordou. Sem olhar para trás entrou pelo corredor carregando os segredos dela.

domingo, 18 de outubro de 2009

18 de Outubro - Dia do Médico

Médicos não são deuses, são humanos
Ivana Maria França de Negri

Fico muito triste quando as pessoas, estressadas por um mau atendimento, generalizam uma classe de profissionais inteira nivelando-a pelos piores parâmetros. Na idéia delas, o médico é uma pessoa sem escrúpulos e gananciosa que só pensa em ganhar dinheiro e não está nem aí com o paciente.
O médico, como qualquer outro profissional, precisa sustentar a família e ganhar o mínimo necessário para sobreviver, mas o atual sistema de saúde o obriga a ter dois ou mais empregos, a dar plantões seguidos para ganhar esse mínimo para uma vida decente.
Médicos precisam ir trabalhar mesmo doentes, com febre, com todos os problemas que qualquer profissional tem. Só que os outros poder ir a uma consulta atestando a falta do trabalho por motivo justo. Médico dificilmente tira férias e nem pode ter um final de semana sossegado para brincar com os filhos. Muito menos pode faltar do serviço por justa causa sob pena de ter seu nome em letras garrafais nas manchetes dos jornais como o grande vilão.
Já foi o tempo em que um médico ganhava muito bem. O sistema de saúde falho é o grande vilão. A demanda de consultas, cirurgias e procedimentos aumenta a cada dia, mas o número de profissionais contratados continua o mesmo. O médico atende mais do que sua capacidade física pode aguentar e acaba se estressando. Mas médico tem direito de se estressar e de se cansar? O médico é humano como qualquer profissional e não um deus.
Alguém tem idéia de quanto o SUS paga por uma consulta? Por uma cirurgia? Não desmerecendo os médicos veterinários que são profissionais que merecem respeito, numa cirurgia de vesícula num ser humano, que sempre envolve responsabilidade e perícia, o médico ganha menos da metade do que recebe o veterinário numa castração de cachorro. Isso é correto? Nos exames complexos de ultrassom e raio-X, o médico acaba tendo que pagar do próprio bolso para prestar atendimento ao SUS pois tem despesas com filme, contraste, impressão e manutenção de aparelhos sofisticados e adquiridos em dólar. O médico praticamente paga para atender pacientes do SUS.
Plantões aos sábados e domingos comprometem o descanso e lazer (até Deus descansou no sétimo dia) ou mesmo o almoço em família, e o bip continua chamando até de noite e de madrugada para as emergências. Médico não pode sair, descansar, brincar com os filhos, mas ninguém se preocupa com a vida dele, todos só querem ser bem atendidos seja em que dia ou horário for. Como mãe, muitas vezes fiquei angustiada ao ver meu filho trabalhar doente e sem poder se alimentar como deveria. E como esposa, também acompanho por décadas a maratona diária e exaustiva do meu marido.
O que muita gente nem fica sabendo, é que pacientes marcam as consultas e depois simplesmente não aparecem. Mas quando o médico é o faltoso, seu nome sai em letras garrafais em todos os jornais.
Se uma pessoa é bem atendida, se o médico deu um jeito de marcar um horário especial para ela, abrindo mão da hora do almoço, ela nunca se lembra de agradecer, pois acha que é obrigação. Mas ai dele se chegar atrasado!
Sei que existem Médicos e médicos, e como em todas as classes de profissionais, há pessoas de boa ou má índole. O que não se pode é generalizar.
Comemora-se em 18 de outubro o dia desses profissionais que dedicam sua vida a melhorar a vida do próximo, mas que nem sempre são reconhecidos.

Dia do Médico - Homenagem

DUPLA PERSONALIDADE?!
(homenagem ao Dr. Cassio Negri, que descobri ser a inspiração do meu filho Guilherme)

Ana Marly de Oliveira Jacobino


A jovem senhora sofre na sua primeira gravidez. Complicação com a placenta leva ao sangramento. Além do repouso a contragosto, a ida ao médico obstetra vira rotina. O obstetra pede uma ultrassonografia. Foi ao consultório perto da sua casa. Dr. Cássio a atendeu e mostrou na pequena televisão o coração do nenê batendo. Sonhadora!Divagou durante o exame. Contou ao médico que o nenê olhou para ela e sorriu! O Dr. Cássio, explicou da impossibilidade do fato. Ela teimou, teimou,... e saiu convencida do riso do seu filhinho. No dia do parto, novas complicações. Outra vez, o Dr. Cássio, e a sua ultrassonografia. O nenê estava sentado. O parto foi um verdadeiro fuá. Correria no hospital Depois de longas horas o nenê nasceu. O pai, quando o viu exclamou: “Nossa! Parece o E.T.” Gustavo cresceu e começou a balbuciar as primeiras palavras. “Gugu..., Gugu” Os adultos ao redor completam: “Gustavo, Gustavo!” Aniversário de dois anos a tia pergunta: “Como o nenê chama?” E o nenê responde para todos, que ficam sem entender: “Cássio”. Os anos passam é Gustavo não é Gustavo, mas Cássio. Conjecturas são feitas pela família, amigos, vizinhos...: marca de relógio; vidas passadas, reencarnação; problemas psíquicos...! A mãe desnorteada saiu do interior paulista para levar a criança em um especialista em São Paulo. Exames e mais exames e o diagnóstico: “O menino é normal”. Feliz da vida vai ao Terminal Tietê para a viagem de volta. Percebe que não levou nenhum documento do menino. Na porta do ônibus o senhor do Juizado de Menores pergunta: “Como chama a criança?” E a mãe responde: ”Gustavo”. E o homem para o menino: “Como é que o nenê bonitinho se chama?” “Cássio”! E a confusão se instalou, pois, a mãe precisou provar que Cássio é Gustavo e Gustavo não é Cássio!

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Feira de Trocas

Feira de trocas
Carmen M.S.F. Pilotto

- Observando uma espécie “em extinção” em seu cotidiano -

Da sacola de lona amarela saltam itens dos mais diversos: alicates, fitas-pirata, enfeites de gosto duvidoso, cintos de napa e outros artigos de procedência incerta. Ajeita o pano de retalhos cerzidos cuidadosamente e sobre o algodão colorido distribui simetricamente suas mercadorias com o cuidado de um montador de uma fina loja de cristais. A seguir, chama os colegas de ofício e oferece café de uma garrafa térmica com cor indefinida, puída pelo tempo de uso ou pela limpeza esmerada. Segue seu dia barganhando variedades sem perder o sorriso ou a beleza estética da humanidade exacerbada.
Cada vez mais se percebe que a elegância cabe em qualquer esquina da vida, muitas vezes falta em ambientes refinados e em outras transborda nas ruas banhando de ternura os transeuntes...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Homenagem a uma “Eterna Educadora”
Leda Coletti

É um quarto de um dos pavilhões do Lar dos Velhinhos. Mais parece um salão, com quatro compartimentos, sem separação de paredes. Cada idoso tem sua cama (iguais na forma, mas diferentes nos arranjos). Quase todos possuem uma cômoda, onde colocam em cima, caixas de remédios, a garrafa de água, e imagens coloridas de santos. Na da nossa conhecida, Dona. Laura, além de haver todos esses adereços, destacava-se um porta-retrato médio, com moldura escura e frisos dourados, onde apareciam dois lindos garotos, exibindo trajes de festa. Pelas roupas da moda dos anos 60, deduzimos serem seus filhos, quando crianças.
Passa o dia inteiro embalando o grande boneco de louça, seu amigo inseparável. É comovedor vê-la abraçada ao belo brinquedo e sorrir para ele. Temos a impressão que balbucia algo, quando o acaricia. Está com mal de Alzheimer e desde que chegou ao Lar, há algum tempo, não mais conversa. Sua memória está comprometida. Nem mesmo sua companheira de pavilhão, que pacientemente lhe dá comida na boca, a faz desviar-se dos seus devaneios. Ela só tem olhos para o seu encantador “menino”.
Contaram-me que além de mãe, foi professora. Entendi tudo. Deve ter sido “aquela maravilhosa educadora,”, na verdadeira acepção da palavra! Os pontos de referência: a foto dos dois garotos, o ninar o boneco, são evidências desse dignificante mister. Soube que ganhou uma linda boneca de porcelana, de um dos filhos que veio visitá-la dias atrás, mas a recusou.
Naquela tarde, ao sair do Lar dos Velhinhos, vi D.Laura sentada num dos bancos do jardim de entrada. Despedi-me, mas ela não manifestou qualquer reação. Continuava a sorrir para o seu bebê. E, embora soubesse que este sorriso não era para mim, emocionei-me, pois senti nele o grande calor humano, ainda mais, após saber que foi educadora dedicada e amorosa. Vislumbrei nele, o amor eterno pelas crianças.
Uma semana após minha visita ao Lar dos Velhinhos, li no Jornal da cidade a nota de falecimento de D. Laura.
Mais alguns dias são passados. Retornando àquela instituição, deparei-me com o boneco de D.Laura, na estante da sala de televisão, onde os velhinhos se reúnem diariamente. Não contive a lágrima silenciosa que rolou pela minha face. Foi meu gesto de reverência e tributo sincero, a uma grande mulher, a uma exemplar educadora.

Dia do Professor

Um alô carinhoso para o colega Professor
Leda Coletti

Hoje é dia do professor, palavra que por coincidência rima com labor e dor. É assim que na época atual, a maioria dos professores se sente: um trabalhador sofredor. De um modo geral, trabalha com alunos, infelizmente uma grande parte, filhos de famílias mal estruturadas, que o vêem como responsável dos atos das crianças e adolescentes. Estes por sua vez, sem a base familiar emocional equilibrada, não correspondem aos estímulos recebidos na escola. Se ao menos esta fosse em tempo integral, haveria mais possibilidades de se desenvolver bons hábitos e melhor aprendizagem nos aspectos físicos, sociais e intelectuais. Isso realmente aconteceria se os nossos governos priorizassem a verdadeira Educação, e remunerasse de modo digno os professores.
Ao caro mestre, que sempre teve o ideal de formar (e não apenas informar), só posso dizer: não desanime no seu mister. Sua missão é nobre, mas cheia de dificuldades; é uma das mais sublimes, quando vivida com amor. Pessoalmente me orgulho de ter sido mestra e trabalhado na área da Educação. Tive a felicidade de exercer minha função, numa época (a partir da 6ª década do século passado) em que as transformações sociais não eram tantas e o professor era mais respeitado pelos alunos e famílias. Felizmente ainda há uma boa parte destes, que reconhecem o seu valor e o apóiam.
Todos nós tivemos vários mestres que colaboraram na nossa formação pessoal. A eles, e aos atuais mestres quero carinhosamente cumprimentá-los. Muito obrigada, por vocês existirem!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Dona VidaMarisa Bueloni
Chega-se a uma altura do bom combate em que começam os questionamentos. A pergunta que mais fazemos à Dona Vida é: por quê? Dona Vida é circunspecta, vive calada e tem cara de poucos amigos. A gente dá uns cutucões nela, provoca, acha que está sendo inteligente e ela nem tchum.


Então, começa-se a ir a velórios, a se despedir dos amigos e das pessoas amadas. Gente da nossa geração que Dona Vida vai levando embora e vem aquele nó no peito. Quem será o próximo? Dona Vida não responde, faz que não é com ela. Dissimulada que dá ódio.
Tenho uma bronca crônica de Dona Vida. Não que ela tenha sido muito má. Não foi. Mas houve vezes em que pedi uma ajudinha extra e ela não estendeu a mão. Ficou aquele travo na boca. Contudo, nenhum grande ressentimento. Hoje, conversamos numa boa, somos até amigas.

Dona Vida não me deu um tantão assim de dinheiro. Nem precisava. Ela sabe que eu não ligo. Fui logo avisando: um prato de comida e um canto para morar tá bom demais. Uma época, apaixonada por São Francisco, fiz voto de pobreza. Ela veio sorrateira e me disse: “Olha lá, hein? É sério?”. Confesso que balancei. Voltei atrás. Lá veio ela, de novo, toda sarcástica: “Acho bom. Fica na tua”.

Uma vez, Dona Vida me convidou para dar uma volta numa curva suspeita. Não fui, claro. Declinei do convite. Ela se ofendeu, cara. “E aí, sua fedelha, me ignorando?”. Não, Dona Vida, que é isso? Só achei que não era coisa para mim. No final, ela me deu os parabéns. Pode?
Dona Vida adora me ver num hospital. Esperneio, discuto, não adianta. Ela vem de mansinho, me faz vestir aquela peça verde-clara que amarra nas costas e me acompanha ao centro cirúrgico. Olho para ela, com lágrimas nos olhos. Penetra-me na veia junto com a anestesia e me sopra no ouvido: “Vai dar tudo certo”. Fechos os olhos, me entrego, confio nela.
Houve um tempo que Dona Vida me colocou numa encruzilhada. Entre a cruz e a espada, como se diz. Foram décadas de um corpo-a-corpo daqueles. Mas esta luta eu venci. Ah, venci. Tenho um baita orgulho de poder dizer: eu-ven-ci!!!

Dona Vida me ajudou. Muito. Ensinou-me a ser temente a Deus, a respeitar e amar o próximo, a ter princípios, a andar direito. Sobretudo: a me contentar com o que eu tenho. Foi a melhor lição. Ela vive me repetindo isso: “Feliz de quem aprende!”.
Bom, quem não aprende com Dona Vida, não aprende com mais ninguém. Dizem que ela é a melhor escola. Há uma porção de almas por aí que nunca pegaram num livro e enchem o peito para dizer que estudaram com ela. Dona Vida não tem propriamente um diploma para dar. Mas isso não impede ninguém de se formar.

E os amores, Dona Vida? As paixões? Por que a senhora age como age? Que é isso, santo Deus? Não pode ser menos intempestiva e mais ponderada? Até eu tenho mais juízo! Assim não há fôlego que aguente, minha cara. Tá bom, tá bom. Vá mais devagar, que tento acompanhá-la.

Vinha eu cansada pelo caminho. Você cansado pelo caminho vinha. Eu tinha a alma cheia de sonhos. Você a alma cheia de sonhos tinha. É, Dona Vida!... Você junta, depois separa, a seu bel prazer. E nós ficamos ali, à beira da tumba, olhando para o vazio, sem entender nada...
Ah, Dona Vida, por que você é assim tão misteriosa? Tire este véu da face. “Que queres tu de mim?” – sei de cor todos os boleros e sambas-canções aos quais fui apresentada pelo seu gosto musical. E até os cantei. Mas não fiz carreira. A senhora não me levou a sério. Lembra?
Dona Vida é sábia. Tem lá seus rompantes esquisitos. A gente joga com a maior disciplina e toma cartão amarelo sem parar. Às vezes, não se entra em campo e é preciso ficar no banco de reservas, quietinho. Quem não ficou? E olha, o árbitro da partida é assim com Dona Vida, tomam chopinho juntos toda sexta-feira. Não adianta passar a lábia nele. O homem é fera.
Briguei feio com ela, uma vez. Xinguei Dona Vida dos piores nomes. Acabei com ela. Arrependida, fui à igreja pedir perdão. Um Anjo loiro de longas asas veio sentar-se ao meu lado. Contei tudo a ele, que insultei Dona Vida, que perdi a cabeça. Ele alisou meus cabelos e disse, me consolando: “Todos perdem”.

Quer saber de uma coisa, Dona Vida? Chegamos juntas até aqui. Ponto pacífico. Vim chifrando os barrancos, mas sem a marvada pinga. A senhora é de uma sabedoria a toda prova. Eu sou aquela aluninha ingênua, de olhos arregalados, curiosa – ainda! – e prestes a aprender a lição final. Não embace, ensine logo, por favor! Estou louca para conhecer este segredo, descobrir o seu sentido.

Dona Vida recua, recolhe-se aos seus aposentos. Alega precisar de um tempo para se recompor. Tem seus humores. Ela é quem manda, sempre. Paciência. Dona Vida detesta e-mail, msn, essas coisas. Não tem conversa. Com ela é tudo ao vivo. Aguardo.

SONHO DE CONSUMO
Carmen M.S.F. Pilotto

- A Estação da Paulista foi sabiamente revitalizada. Com jardins estruturados, permite que os usuários possam usufruir de momentos de esporte, lazer e interação familiar. Os funcionários estrategicamente dispostos zelam cuidadosamente pelo bem público. A iluminação permite um convívio harmonioso e saudável. Todas as classes sociais estão presentes, trata-se de mais um espaço coletivo que resgata a valorização do cidadão piracicabano -

Eram duas senhorinhas de frágil compleição. Trajadas franciscanamente, sem preocupação em portar vestes esportivas, apresentavam camisa, saia e rasteirinhas. Os birotes, arquitetonicamente arranjados, de uma maciez alva e rala denotaram uma idade já avançada. Mas a agilidade dos movimentos e a cumplicidade das prosas iluminavam a pista dos caminhantes. Em um pôr-do-sol alaranjado, integravam um cenário de simplicidade voluntária, que poderia servir de citação em qualquer artigo científico sobre desapego material. Olhavam-se e no reflexo de suas almas sorriam risos da mais pura felicidade. Tive inveja delas, daquela leveza de recortar um momento e esvair-se na fluidez de uma ausência voluntária. A fonte, repentinamente, jorrou águas aos borbotões, como se saudasse um convívio harmonioso. As flores, de amarelo aveludado, formaram molduras douradas nos pisos simetricamente assentados.
Ao fundo, um teatro de fantoches, artistas entoam ternamente: “Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado”. Música perfeita para uma cena esteticamente inesquecível...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

ILUSÃO


Cassio Camilo Almeida de Negri

Maria tinha lindíssimo rosto, olhos azuis, corpo escultural, desejada por todos os rapazes da sua cidade.
E o tempo passou...
Tão linda, um dia se casou com o mais perfeito dos rapazes, o mais rico, o mais educado, o mais-mais..
E o tempo passou...
Vieram os filhos, tão lindos, inteligentes, perfeitos.
E o tempo passou...
Tinha a melhor casa da cidade, verdadeiro palácio, e também um lindo carro, o mais belo da cidade. Viajava pelo mundo em primeira classe, conhecera todos os países.
E o tempo passou...
O marido apaixonado, só tinha olhos para ela.
E o tempo passou...
Os filhos cresceram, todos formados nas melhores escolas, sempre os primeiros da classe.
E o tempo passou...
Os cabelos platinaram, ela os tingiu. As rugas vieram e ela fez muitas plásticas.
A barriga cresceu, fez lipoaspiração. As verrugas começaram a aparecer junto às manchas de pele. Foi ao melhor dermatologista para atenuá-las.
E o tempo passou...
O seio caiu, colocou próteses de silicone. A gengiva retraiu, os dentes amarelaram, o dentista corrigiu.
E o tempo passou...
O marido morreu, ela chorou. O caixão fechou, ela quis ir junto, mas na hora “H” desistiu. E sofreu muito ficando sozinha.
Chorou, chorou, mas o tempo continuou, e como sempre, passou...
Seu dia chegou, o tempo parou, a ilusão acabou...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

EU E A POESIA
Lino Vittti

Meus primeiros versos, escritos a medo, pois o seminário religioso não admitia alunos poetas porque a poesia de nada servia para a vida sacerdotal, foram de cunho religioso e dedicados a Nossa Senhora. Não os guardei, mas lembro perfeitamente que agradaram a um clérigo poeta vindo de outra congregação de religiosos para a dos Padres Estigmatinos, e que vaticinou-me: o senhor vai ser um poeta de verdade.
Profecia cumprida. Há mais de 60 anos assumi o grato dever de poetar, publicando meus sonetos e poemas nos jornais, revistas e semanários da terra piracicabana, cuja conseqüência foi a edição de 7 livros de poesia e contos, distribuídos aos milheiros ao povo de Piracicaba e, ao que sei, aprovados por ele, tanto que a Academia Piracicabana de Letras me honrou com o significativo título de “Príncipe dos Poetas Piracicabanos”. Guardo-o com carinho, com alegria, como troféu e prêmio maravilhoso aos meus longos e felizes anos dedicados à arte escrita e rimada dos Bilacs, dos Raimundos Correia, dos Guilhermes de Almeida, dos Gustavos Teixeira, dos Franciscos Lagreca, das Marinas Tricânicos e de outros mais que dignificam a poesia desta, chamada que foi, de Atenas Paulista.
O professor universitário de literatura de São Paulo, Hildebrando de André, meu companheiro de seminário no Colégio Santa Cruz de Rio Claro, em correspondência trocada entre nós, afirmou sempre que Piracicaba era uma terra privilegiada, uma terra de poetas verdadeiros, um santuário de poesia – dizia ele – que tem a graça de contar com a cooperação feliz dos seus jornais matutinos, semanários, ou revistas, aqueles oferecendo semanalmente uma página de sua edição à poesia dos seus poetas, como podemos ver na sexta-feira, em A Tribuna e aos sábados no Jornal de Piracicaba, a cargo dos escritores Ivana Maria F. de Negri e Ludovico Silva.
Poucos têm a felicidade de ver seus poemas e ou sonetos publicados durante seis décadas para mais, por isso me julgo honrado pelos nossos jornais, dignificado pelos leitores da minha terra, realizado na arte dos versos, estrofes e rimas, graças à compreensão dos diretores, editores, paginadores, distribuidores, leitores e todos quantos trabalham para nos entregar a cada manhã, um nobre jornal como o Jornal de Piracicaba, a Tribuna de Piracicaba e o semanário Folha Cidade, todos acolhedores incontestes de minhas elucubrações poéticas de mais de 60 anos.
E diante de tão flagrante acolhida, diante do respeito que em Piracicaba a Poesia merece, diante da proliferação da arte que dignificou poetas como Dante, Shakespeare, Victor Hugo, Olavo Bilac, Gustavo Teixeira, Vicente de Carvalho, Guilherme de Almeida, Camões, e uma infinidade de nomes gloriosos e reais poetas, eu me curvo em dar graças a Deus, Poeta Criador do Universo, do Homem e do Amor, por haver premiado o mundo de Poesia e Poetas, e agradecer igualmente aos poetas do mundo e do universo por terem aprendido a Poesia de Deus, e por lhe darem continuidade até a consumação dos séculos, com tanta dedicação e tanto carinho como merece essa graça de Deus.
A Poesia é a história dos povos, escrita em estrofes, em versos, em baladas, em sonetos, em poemas, em rimas. Numa linguagem sublimada, figurada, sintetizada, onde falam mais a alma e o coração do que as datas, os fatos, as personalidades, a ciência. Ser poeta é ser beija-flor: sugar o mel da vida, ao librar das asas sempre no espaço e sem tocar o desencanto do solo. É sonhar que se é angelical e não ser nunca envolvido pelo pó. Ser beija-flor, cujos beijos pousam sobre qualquer tipo de flor, sem olhar para a cor, sem olhar para as alturas em que ela bebe a luz do sol, buscando sempre o dulçor melífluo que se esconde no âmago de cada uma delas. Ser poeta é isso: buscar sempre o que é belo, cantar sempre as harmonias das coisas e da vida, ter os pés na terra, mas o olhar nas alturas do infinito. Poesia há de ser alegre, pois se for triste não será poesia, será dor.
São mais de 60 anos que poetizo. São mais de 60 anos que me sinto feliz, pois a minha poesia rendeu frutos, foi lida, foi julgada, foi amada. Haja vista que se tempos atrás os poetas eram raros como os diamantes, hoje eles florescem como seara e a poesia deles espalha um perfume de beleza, de sonhos, de encantamento.
Graças a Deus, a picada que tentei abrir está transformada em caminho florido.

Buganvílias
Marisa Bueloni

As bênçãos de Deus caem sobre nós como buganvílias roxas. Buganvílias são as populares “primaveras”. Mas não custa nada dar a elas o ar culto da erudição, encontrado nos dicionários da vida. Melhor ainda quando se tem o ‘Aurélio” instalado no computador. As definições surgem como avezinhas livres e rápidas. Aí a coisa vai de vento em popa. E é justamente o vento que faz as buganvílias se depenarem no tempo.

Buganvílias são conhecidas também como “trepadeira lenhosa, da família das nictagináceas”. A Bougainvillea spectabilis apresenta “flores insignificantes, mas incluídas em magnas brácteas membranáceas, inseridas três a três, e de cores fortes: alvas, róseas, vermelhas ou roxas. Não produz fruto.” São sinônimos: buganvília, cansarina, primavera três-marias e, no plural, sempre-lustrosas.

Pronto. Eis a bela função de um dicionário instalado no computador. Qualquer um vira inteligente com uma informação deste naipe; qualquer fugido da escola consegue imprimir ao texto um verniz de sabedoria e cultura, se pode contar com a ajuda daquele que já foi chamado de “pai dos burros”. Eu sempre refutei esta versão vergonhosa para “pai dos interessados”. Dos interessados em aprender e ampliar seu vocabulário.

Como será o vocabulário das buganvílias? Sobretudo das que tingem os nossos olhos? Já viram aquelas roxas, misturadas às rosas e brancas, que escorrem dos muros das casinhas graciosas e aparentemente solitárias, ou que espetam aos ares os seus galhos floridos, sussurrando versos pelos alpendres e varandas?

E quando às buganvílias se juntam as flores tímidas da folhagem conhecida como “lágrimas-de-Cristo”, tudo se explica na perfeição de quem as plantou juntas, para crescerem irmãs. Se uma tira a força da outra, pode não ser verdade, pois ambas florescem bonitas e viçosas e dão flores a não mais poder. Cachos carregados das “lágrimas” me fazem ver o Senhor carregando a cruz e derramando pingos de sangue pela via-sacra de pedregulhos.

Estas trepadeiras lenhosas tem o hábito de soltar flores e folhas e nos obrigam a varrer o chão. Mas embelezam, como certas coisas que existem apenas para embelezar o mundo e pelas quais deveríamos ser gratos. Algumas pessoas são assim. Vivem para tornar tudo mais belo, gracioso e gentil a sua volta. São delicadas, usam perfume, sabem dizer “obrigado”, “com licença” e “por favor”. Vestem-se com discrição e simplicidade. Elas próprias são a jóia da vestimenta, a alma da elegância e do comedimento. Parecem ter saído de um livro de Gloria Kalil. E por isso não vão a um velório de vermelho?

As buganvílias possuem a humildade de serem “flores insignificantes” na interpretação do filólogo, do dicionarista que talvez nunca tenha visto uma só florinha das cansarinas, das primaveras roxas. Nenhuma flor é insignificante, meu Deus! Eu sou insignificante, mas uma flor não é. Flores são gentilezas de Deus para encantar nosso, às vezes, árido caminho de lutas e dores. A insignificância está mais para a aridez do mundo do que para petalazinhas frágeis e desprotegidas.

Era uma vez um menino que brincava de guerra. E do seu tanque disparou uma flor. Nada de tiros. Somente flores. Ainda que insignificantes, as buganvílias são torpedos explosivos, coloridos, que se desfazem ao sabor do vento e enfeitam calçadas soluçantes. Quem for capaz de ouvir o gemido de uma calçada que soluça, toda vez que recebe a flor “insignificante” em seu colo, compreendeu o sentido da vida.

domingo, 11 de outubro de 2009

TEMPOS DE CRIANÇA


Ludovico da Silva

Quem não traz consigo lembranças agradáveis dos tempos de criança! As meninas com as brincadeiras de roda, bonecas, amarelinha, passa anel, peteca, pata-choca, pula corda, bom barqueiro e os meninos com os jogos de bolinha gude, pião, carrinho de rolimã, rolar dentro de pneus, empinar pipa e outros entretenimentos para passar o tempo. Brincadeiras inocentes até entre meninas e meninos. Brinquedos feitos pelos próprios meninos. Que tempos saudosos que a memória nunca apaga! Talvez seja até por isso que pais e avós gostam de viver os tempos de criança, carregando os filhos de cavalinho nas costas e imitando corcovos, bem como brincando dentro de casa de esconde-esconde pega-pega, “tanda”, forca e tanto quanto mais que dão uma canseira danada. E as crianças riem dos esforços e pedem mais.Hoje as brincadeiras são outras. As crianças preferem desenhos animados exibidos pela televisão ou passar o tempo com vídeo game e jogos de computadores. São épocas diferentes.Não adianta fazer comparações. Os tempos são outros. Antigamente, as crianças não tinham as facilidades encontradas hoje, com tudo colocado à sua disposição, mas havia outras opções para se divertir.Pode ser saudosismo, mas gosto de voltar um pouco no tempo. Eu fabricava caminhõezinhos, pregando uma lata vazia de marmelada Colombo em tábua de caixa de sabão de vinte e sete pedaços. As rodas eram de latas de graxa de sapato e os eixos de galhos de árvores bem roliços. A cabine do motorista era obra criativa de pedaços de madeira. Com isso, eu ficava horas me divertindo no quintal de minha casa, carregando materiais dos mais diversos tipos.E como conversar ao telefone? Fácil. Um pedaço bem comprido de barbante ligado nas extremidades por duas latas pequenas de extrato de tomate Elefante. Nem sempre era audível, mas eu falava mais alto e o amigo respondia do outro lado e se ouvia tudo muito bem, não fosse pelas linhas telefônicas improvisadas pelo próprio som que o vento trazia. E a gente se divertia matando o tempo com conversa fiada ou combinando traquinagens inocentes, como nadar no rio por perto ou apanhar frutas nos pomares vizinhos.Para os jogos de futebol, praticado nos campos reservados a pastagens de animais, quando não em terrenos irregulares, de terra batida, as bolas eram feitas de meias em desuso, esburacadas nos dedos e calcanhares, de tamanho dessas usadas em tênis pelos profissionais da atualidade. Os gols eram demarcados com tijolos ou mesmo bonés e roupas dos atletas envolvidos nos jogos. Não havia necessidade da área do pênalti e nem impedimentos eram considerados. O que valia mesmo eram os gols marcados e a consagração dos artilheiros, nos abraços e incentivo das torcidas.A pipa ou papagaio não era do tipo que hoje tem os mais diferentes tamanhos e desenhos. No meu tempo era feita de papel de seda, colorido, colado com grude de água e trigo em armação de vareta de bambu e a cauda com o mesmo material, mas em elos de diversos tamanhos. Nas linhas eram colocadas mensagens que se perdiam nos ares. O empinar das pipas fustigava acirrada luta entre os concorrentes, por que algumas não subiam e davam as chamadas cabeçadas e caíam no chão.Bem, se os tempos são outros não há como mudar, tampouco como fugir. As brincadeiras das crianças têm sua época. É a vida que passa e as recordações se transformam em saudade, que a memória registra para sempre.

Erotização Infantil

Erotização infantil
Ivana Maria França de Negri

Recebi via internet cópia de um livro didático adotado por escolas alemãs para a educação infantil. Por apresentar muitas ilustrações e pouco texto, creio que se destina a crianças bem pequenas. A pobre cegonha, antes tão festejada, ficou completamente desacreditada. Creio até que depois desta, foi definitivamente aposentada.
O livro mostra explicitamente de onde vêm os bebês, ou melhor, como são “fabricados”. Até aí, nada demais, pois as danças “da garrafinha”, “do enfiadinho”, entre outras, estão aí, sem censura alguma, na televisão e em qualquer horário do dia, e as“mulheres frutas”, expostas como carnes num açougue, prontas para serem consumidas, induzindo garotas de tenra idade a imitá-las.
O mais triste de tudo isso é que sequestraram a inocência e a fantasia das crianças.
O encanto de crescer é o despertar, o “descobrir”, mas agora tudo já vem pronto e fácil, como as insossas comidas congeladas e as frutas amadurecidas à força.
A criança passou a ser um robozinho, um mini adulto com responsabilidades demais, sem tempo para ser criança, para as fantasias e descobertas infantis.
Não sou de citar passagens bíblicas, mas me veio à mente um texto do livro Eclesiastes: “Tudo tem seu tempo na face da Terra”... E a infância é o tempo de brincar.
As crianças de hoje não podem sair de casa por medo de sequestros e assaltos. Então ficam na companhia das babás eletrônicas, televisão, joguinhos e internet, assimilando muito lixo mental.
Pular fases é prejudicial. Agora, querem acabar também com a fase mágica das descobertas. Tudo já vem explicado, direto, e a realidade é apresentada nua e crua. As crianças são maturadas à força e a vida perde muito do seu encanto.
Não se deve apressar as coisas. Explicar apenas o que a criança pergunta, não ir muito além. Tudo tem que vir no tempo certo, naturalmente, gradativamente, amadurecendo sem traumas.
Vejo garotas de pouca idade já se comportando como adultas, usando roupas inadequadas para a idade, desfilando como modelos e submetendo-se à ditadura da moda, dos regimes drásticos, tornando-se muitas vezes anoréxicas e bulímicas.
Aumentam assustadoramente os casos de pedofilia, uma aberração monstruosa que deve ter algo a ver com toda essa erotização infantil.
Deixemos as crianças serem crianças e brincarem como crianças. Tem muito tempo pela frente para que se tornem adultas. Dar muitas explicações antes da hora pode chocá-las ou erotizá-las, dependendo do temperamento de cada uma.
Papai Noel, coelhinho da Páscoa, fadas, duendes, era tudo tão mágico... Mas agora todos estão aposentados junto com a dona Cegonha. A fantasia acabou. Sinal dos novos tempos. Não sei se depois de toda essa “mecanização” do ser humano ainda resta espaço para o amor, laços familiares, virtudes, valores morais e espirituais.
O mundo está mudando e é preciso aceitar o novo. Mas tenho cá minhas dúvidas se as mudanças são para melhor ou pior...

Esmeralda sem rosto
Milton Martins

A primeira futura ex-namorada. Em nome dela, em sua homenagem, num domingo chuvoso de paixão, perdido no tempo, formulara alguns versos com rima pobre:"Como são fortes, candentesOs primeiros amores,ArdentesA primeira namoradaDúvida amargaAmada".
Toda essa relação apaixonada fora tão tímida, havia muito recato em se aproximar da possível futura namorada, naqueles idos. Uma torcida para que ela passasse na mesma rua após as aulas, no mesmo horário, um encontro silencioso e ansioso.
Encontros forçados, à espreita numa esquina qualquer, uma paixão ardente. Inesquecível.
A imagem dela na bicicleta, descolorida, meio enferrujada, sem rosto, um vulto, de branco. A rua cinzenta, vento gelado, o sobrado humilde desbotado, com muro baixo. Alguns gerânios vermelhos nos vãos e rosas vermelhas e amarelas no canto do jardim. Um buquê torcido no vento.
Esmeralda. Lembranças. Tudo passou de repente. Só o amor sem rosto ficou.
Amor ou lembranças que se perderam no tempo, não sei bem! Um pouco dos dois. Há desses instantes que não se perdem. Ficam porque tímidos, são instantes idos.
Fazia justa associação: uma espécie de La Esmeralda , a cigana, vulto deslumbrante de Victor Hugo no “Corcunda de Notre Dame”. Também sem rosto, deslumbrante, porém.