As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

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Reunião na Biblioteca

sábado, 8 de outubro de 2011

Prosa & Verso 08/10/2011

(clique p/ ampliar)

Espaço Poesia - Irineu Volpato


é nos olhos das crianças onde moram
os espantos verdadeiros

(Irineu Volpato)



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Crianças e outras crianças


Eloah Margoni

O sofrimento do ser humano não poderia deixar de me sensibilizar, em tudo e por tudo. Admito, porém, que não o faz com exclusividade. Quis a genética, um tipo de tendência inata ou algum sopro específico, que eu me pegasse olhando ao redor, num giro de 360 graus, o qual assim mesmo, sei, é quase cego. No entanto, em toda minha vida, especialmente na de trabalho, sempre me tocaram as situações das crianças, pois tão indefesas são elas! como o são as plantas e os bichos, tão à mercê de tudo, guardando em si mesmas o potencial humano para o mal e para o bem, para destruir ou para criar e ajudar a moderar a destruição! Percebi, também, com angústia, que há modos incríveis de negligenciá-las, maltratá-las, torturá-las, entristecê-las, de matá-las, de roubar-lhes tudo; isso sem contar as que, mimadas em excesso, também e de certa forma, perdem o que de melhor possuem; ficam destruídas. Sei, inclusive, que não fiz tanto pelos infantes que passaram por mim, pois muitíssimos mais passariam ainda... Isso, o cuidado, exige luta muito contínua, bem como batalhas políticas, sociais, e também “corpo a corpo” ferrenho, como Dra Zilda Arns o fez.
Quando ainda estudante de medicina, no Estado do Rio de Janeiro, freqüentava hospitais, até precários, em alas de várias especialidades. Uma das coisas impressionantes para mim, na pediatria, eram as crianças internadas com obstrução intestinal por bolos de ascaris (lombrigas). A dor intensa que elas sentiam, os choros, o risco de morte, a sensação específica que se tem à palpação abdominal (é como apertar “massa de pão”), e depois, com os medicamentos corretos (para se evitar cirurgia), a expulsão via intestinal daqueles assustadores vermes vivos, enovelados faziam tudo bem dramático. Então as crianças saiam, tinham alta hospitalar, voltavam para seus lares sem qualquer suporte ou apoio digno de nota para trazer mudanças realmente positivas às suas saúdes.
Também, naquela época e lugar, no hospital, as crianças desnutridas com marasmo, exibiam espetáculo patético e imoral. Jogadas nos berços, pele e ossos, ali eram muito bem alimentadas e acompanhadas nas enfermarias, onde permaneciam por semanas. Crianças assim não se mexem, pois não podem gastar aquilo que não têm: energia. Apenas apresentam-nos seus olhos fundos, inexpressivos. Mas ao melhorarem de maneira significativa, vão se tornando crianças de verdade, começam a querer brincar, a rir. Rirem era o sinal também para alta hospitalar! Mas estrutura que mudasse suas condições de verdade, não víamos.Francamente, não sei exatamente se isso se alterou mesmo por lá atualmente, ou não.
Aqui, numa das regiões mais ricas do Estado do São Paulo, e do Brasil portanto, nos anos que trabalhei no Programa de Saúde da Família, vi também outros tipos de maus tratos: violências verbais às crianças, bebês expostos ao calor terrível, ao sol causticante, sem qualquer proteção,nas piores horas do dia, levados em carrinhos aos cultos evangélicos, onde um “pastor” berra, com alto falante, exorcismos. Mães dando goles de cerveja a criancinhas, deixando-as sujas, imundas, alimentando-as mal, de modo que ficam anêmicas e com outros tipos de desnutrição. Também diversas formas de abusos e abandonos. Um caso de desnutrição quase como aqueles do passado eu vi, por nossas bandas. Neste, conseguimos abrigar o bebê, com ajuda do Conselho Tutelar. Dois dias depois fui visitar a criança na instituição que funciona como abrigo, mas descobri que é mais fácil colocarem-se celulares em presídios de segurança máxima, do que um médico com intenções dignas visitar o bebê que ajudou a proteger.
Aprendi boas coisas também, com o competente assistente social Antonio Carlos Danelon. Ensinou-nos a muitos, a trabalhar em grupos, em rede. Assim, acabamos por descobrir que há famílias que se mantêm, propositadamente, em condições de imundície, de abandono, de autonegligência, para terem acesso mais fácil a cestas básicas e a verbas governamentais de auxílio. Isso, para “impressionarem” os distribuidores das concessões.
As tristes condições do ser humano nos deixam infelizes, especialmente a das crianças, mas também as das aves, dos roedores, dos mamíferos de pequeno, médio e grande portes, as de outros bichos,bem como as das árvores e das florestas, que são mais agredidas, injustiçadas e mais inocentes, a bem da verdade, do que a espécie humana.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Vira-lata


Cassio Camilo Almeida de Negri

Chamam-me de cão vadio, mas, na verdade, sou somente sem dono, não tenho emprego, patrão, casa, quase nada , a não ser minha alminha.
Andei o dia inteiro pelas ruas procurando algo para encher o estômago.
Rasguei sacos de lixo procurando comida, restos de pizza, ossos de frango, qualquer coisa que satisfaça quando a barriga ronca.
Infelizmente hoje, a coisa está difícil, pois não sei quem teve a ideia de colocar os lixos em um suporte alto para eu não alcançar. Além disso, a concorrência é grande e tem até alguns humanos que também fuçam o lixo à procura de restos, ficando eu a ver navios, sobrando-me os restos dos restos.
Quando tem papel higiênico misturado, geralmente alguns humanos não comem (alguns não ligam) mas eu me não importo, já que na nossa espécie é normal cheirarmos uns aos outros, pois é assim que nos cumprimentamos e nos conhecemos. Os humanos têm outros costumes, como dar as mãos ou dar beijinhos.
Agora na época do frio, estou sofrendo um pouco. Outro dia, ao fuçar um lixo,um humano fêmea, ficou me esperando escondido atrás do muro de sua casa onde eu costumava comer quase todo dia, pois seu lixo era rico para mim e para comer tinha que rasgar o plástico, o lixo ficando espalhado e como não tenho mãos, não podia junta-lo novamente.
Estava feliz pois tinha um belo osso usado para me atrair. De repente,senti algo me queimando.
Ela jogou-me uma panela cheia de água fervendo.Sai correndo e ganindo, mas por algumas noites não consegui dormir de dor, e percebi que havia ficado cego de um olho que explodiu com o calor. Gani devido a dor lancinante por vários dias e noites, pois em minhas costas peladas e no olho vazado se criaram bernes até que se tornaram moscas adultas e foram embora. Enquanto isso, o bálsamo da natureza fez com que as feridas se curassem .
Hoje, a dor passou, tudo cicatrizou, mas continuo caolho e o pelo das minhas costas nunca mais cresceu, fiquei parcialmente pelado.
Agora mesmo, encolhido neste cantinho, passo muito frio sem eles.
Mesmo assim,luto pela minha vidinha, até quando me chamarem lá em cima, pois ela é preciosa e não devo desperdiçá-la. Meu consolo é que tudo isso porque passo são experiências úteis para minha ascensão no evoluir da vida.
Apesar de tudo por que passo, tem outros irmãozinhos em pior situação que a minha, são os bois, porcos e aves, pois além do sofrimento, não tem esperanças nem liberdade.
Eu, ainda posso ter a esperança de encontrar um humano com compaixão, que me acolha em sua casa.
Os outros meus irmãozinhos não, pois são criados para a morte. Eles tem um grande sofrimento nas granjas, confinados, bicos cortados, castrados e desesperam-se ao caminhar no corredor da morte nos matadouros, querendo sair dali, mas empurrados á frente por meio de bastões que dão choque elétricos.
Triste fim sofrido o deles, criados para encher a barriga dos humanos .
Eu, mais feliz, tenho até sociedades protetoras que me dão guarida, eles , nada pois até alguns membros dessas sociedades, ainda não perceberam o sofrimento dessas criaturinhas e eles próprios se deliciam com seus cadáveres, incentivando assim esses holocaustos.
Eu aqui no meu cantinho, passando frio e fome, cheio de cicatrizes causadas pelos humanos, sou mais feliz.
Bem, agora vou dormir um pouco para esquecer tanto sofrimento. Boa noite.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CRISE CONTEMPORÂNEA


Leda Coletti

Dizem os antigos que para cada coisa há um preço; também para cada ato, uma consequência. É clássica a lição do retorno, ou seja, se você atira a bola para a parede ela volta com igual ou até maior intensidade para você. Estamos vivendo uma época em que esse fato acontece a cada minuto.
A mídia, com fins publicitários, tende a propagar mais os negativos, como a violência testemunhada por meio de guerras, quer as que envolvem armamentos materiais, quer as de ordem psíquica e emocional. Falando das primeiras, se compararmos as épocas em que aconteceram, veremos que os enfrentamentos entre grupos inimigos, se deram desde lutas corpo a corpo, com instrumentos fabricados informalmente nos períodos primitivos, até outros mais pesados, atingindo a um só tempo muitas pessoas, nos últimos séculos. O que antes eram batalhas travadas em trincheiras formadas distantes das cidades, nos tempos modernos passaram a ser nas grandes metrópoles, atacando e matando populares desprevenidos. Estamos no dia de hoje, relembrando o triste episódio do incêndio-suicida cometido em 2001, por homens bombas, às torres gêmeas do Word Tride Center de Nova York.
Vamos nos deter agora brevemente sobre o outro tipo de violência, o que abrange os mais diversos segmentos da sociedade e com diferentes e destrutivas manifestações por parte dos homens. São valores humanos priorizados na vida moderna, com forte predominância da filosofia hedonista. Mesmo o homem, muitas vezes desconhecendo esta corrente, por imitação a põe em prática, principalmente quando se coloca como centro de atenção e se esquece dos demais. O consumismo e o prazer na obtenção de bens materiais e muitas vezes até ilícitos, transformam-no em homem- robô. No passado eram na sua maioria, escravos dos homens, seus semelhantes; nos dias atuais também o são de máquinas eletrônicas, que lhes ditam os programas, não permitindo que reflitam e tomem decisões próprias.
Somos de uma geração mais conservadora, talvez por ter caminhado mais devagar, vencendo obstáculos que hoje não mais existem. Notamos as grandes diferenças ocorridas ao longo da metade do século passado. Por exemplo, ( só para situar o tema Educação que foi nossa área de trabalho), quando alunos anotávamos em cadernos nossas pesquisas bibliográficas, enquanto hoje as máquinas de Xerox já nos fornecem as cópias do material. Íamos à biblioteca municipal para organizar trabalhos que dependiam dos conteúdos enciclopédicos; na época atual, os computadores com seus mais diversos programas, colocam os alunos à frente de muitos deles, já prontos.
Os escolares de hoje dominam os botões, os códigos, a linguagem digital, mas têm dificuldade para a escrita manual. Não há mais preocupação com a caligrafia e dificilmente os exercícios matemáticos são efetuados sem o auxílio de máquinas eletrônicas. Se fossemos analisar os avanços, nas diversas áreas de conhecimento ficaríamos discorrendo horas a fio.
Admiramos os avanços que as gerações atuais estão alcançando, mas diante de uma sociedade cada vez mais individualista e violenta indagamos: os progressos tecnológicos contribuirão para tornar o homem do futuro mais solidário e feliz?

sábado, 1 de outubro de 2011

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Oficina ensina a linguagem dos contadores de histórias




Formar multiplicadores potenciais na arte de contar histórias para crianças. Esse é o objetivo da oficina “A arte de contar histórias” que a Companhia As Meninas do Conto realiza neste domingo, dia 9, às 9 horas no Teatro Municipal Dr. Losso Netto.
A oficina é aberta a todos os interessados, independente de possuir ou não iniciação teatral. A linguagem envolverá a conversação através de jogos dramáticos, conscientização corporal, pesquisa de jogos e brincadeiras tradicionais que fazem parte da nossa cultura. Um dos objetivos é definir a figura do contador de histórias, trabalhando a presença, o olhar, a credibilidade, a voz e o corpo.
A partir de uma história narrada, o grupo definirá um “plano de estudo”, ressaltando a importância de análises prévias de histórias, assim como criar um momento de sensibilização com as crianças antes da narração de histórias.
A coordenação da oficina será de Simone Grande, diretora da Cia. As Meninas do Conto. Terá duração de três horas. O programa consiste na realização de exercícios de sensibilização, atenção e concentração como requisitos básicos, a pessoa neutra e o personagem narrador, desdobramento do narrador e a centralização, exercícios com histórias e narração de uma história.
A realização é do Serviço Nacional de Aprendizagem ao Cooperativismo de São Paulo com apoio da Uniodonto Piracicaba, Credsaúde e Teatro Municipal.
Serão disponibilizadas 30 vagas e as informações podem ser obtidas pelo telefone 3424-3730 (Coopep com Eliana) ou pelo e-mail comunicacao@uniodontopiracicaba.com.br

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

EIS-ME



Richard Mathenhauer 
(Pelo Meu Natalício)


Deveria começar como David Copperfield, “Eu Nasci”? Que importa é que nasci! E prova disto, é estar sentado escrevendo o que para muitos nada mais é do que nada. Embora nada seja uma grande coisa, como o meu nascimento foi para mim e para os meus. Primeiro filho homem, primeiro neto homem... Essas coisas. Que importa é que nasci... A – chamemos de química – de meu pai atraiu a de minha mãe e vice-versa, e passados os intróitos e indo para os prosseguimentos, obedecendo a Natureza o espermatozóide mais ligeiro, ansioso sabe lá pelo que, fecundou o óvulo, e o resto todos sabem. Presumo não ter sido o Anjo Gabriel, mas o médico (que poderia chamar-se Gabriel) que anunciou a minha mãe a vida que ela albergava. E passados os meses da gestação, nem mais nem menos, a dor anunciadora como trombetas alardeando a chegada de alguém de significativa importância, “Eis-me!, deveria ter dito se já pudesse dizer algo tão logo saído do útero. “Eis-me, mundo!”, era uma boa frase, porém, mal saído e mal tendo tempo para qualquer esboço de exclamação, admiração ou tempo para cumprimentar os presentes pelo excelente trabalho, veio-me um tapa (dizem que é um tapinha de nada... dizem...) justificado como sendo para que o pequerrucho tome fôlego. E a bem da verdade se há de ter muito fôlego neste Mundo, tantos são os tapas na jornada de nascido.

Deve, quem perde tempo lendo-me, perguntar-se por que cargas d’água estou falando do meu nascimento, posto não ser Ministro, Prefeito, Papa, Pop-star, Jogador de Futebol, etc. É que nesta semana comemoro meus... bem, comemoro mais um ano de nascido desde aquele primeiro tapa. Pensar no nascimento faz-nos pensar na vida presente, na passada, na futura (embora esta não exista em termos reais). E fiquei a pensar na minha, como sói acontecer uma vez por ano desde que, depois de nascido, pude pensar...

Dizem que nasci pesado e grande, fato que comprova que nem sempre o começo sugere o fim. Foi em um 21 de setembro, numa sexta-feira às 9h00. Não sei se chovia, fazia frio, sol, se ventava como ventava quando algo importante acontecia a Ana Terra. Curioso escrever sobre o tempo daquele dia, porque, justamente eu que sou tão dado a observar e a falar do tempo, “sem a responsabilidade de meteorologista”, não perguntei a minha mãe como estava o dia. Provavelmente a coitada estivesse em dores, e fizesse calor senegalesco, frio siberiano ou uma agradável manhã de setembro, isso seria tão irrelevante que nem registro na memória ficou! Da minha parte, assim que nasci, não me interessou o tempo, mesmo porque, depois de um tapa de boas-vindas qualquer interesse fica relegado a segundo ou terceiro plano, e somado ao tapa, o fato de a luz quase me deixar cego, o barulho deixar surdo, ter a pele lesada com tantos toques estranhos e de estranhas texturas...!

Não foi meu pai quem me foi buscar à Maternidade. Conta a lenda que estava a contribuir com as pesquisas etílicas. Delegado à função de conduzir o recente nascido, foi titio Wolfgang (gosto do seu nome, “aquele que caminha com lobo ou como lobo”... enfim). E assim, nascido, buscado e entregue, passados os primeiros dias de beija-mãos, já fui tratando de aprender a me conduzir sozinho para não ter de pegar carona, haja vista que na vida tem-se de andar com as próprias pernas. Então, desenvolvi a técnica peculiar às crianças: engatinhar. Incentivado por mamãe que me botou no chão e bradou: “Vais encontrar o mundo... Coragem para a luta” (mais ou menos como em “O Ateneu”) eu fui. Fruto do tirocínio ia e vinha pelo chão da casa, porém, por cansaço ou por características atávicas, embora não tendo Morato no nome, era-o de sangue - e como bom Morato - gostava de dormir. E dormia debaixo do sofá, debaixo do armário da cozinha, no vão formado pela quina da geladeira e da parede. No princípio houve desespero; seqüestrado não podia ter sido porque não se seqüestra filho de pobre. Poderia ter sido um rapto, uma mulher invejosa de outra cujo filho tinha lindos cabelos negros encaracolados e pele clara e já sabia engatinhar e filosofava... Depois, perceberam que era o sangue. E tornou-se um hábito puxar-me pelas pernas para retirar-me de debaixo de algum móvel. Assim, todos sabiam que silêncio reinante, era sono dominante. Ou... Veja bem como sofre um nascido, sobretudo quando antes dele outro havia chegado. No caso, outra. Minha irmã. Um ano e meio antes de mim, ela sentia-se com aquela típica sensação de que o uso faz a posse. E como a inteligência é uma virtude de família (perdoem-me a falta de modéstia, mas as coisas devem ser ditas conforme são), minha irmãzinha era uma adepta de Charles Darwin, e sentia-se no direito de testar freqüentemente a tal teoria da sobrevivência dos mais fortes. Grosso modo, claro. Então, como dizia lá encima, quando não era o silêncio pelo sono, era por uma banana inteiramente introduzida na minha boca pela maninha cientista que considerava esta minha cavidade que prestava para algumas coisas, como berrar, babar, chorar, emitir uns grunhidos (e num belo dia, dando um bom salto na história, descobriria o Beijo), enfim, que considerava minha boca uma centrífuga, ou Buraco Negro, não hesitava em ir introduzindo tudo o que viesse pela frente. Em decorrência deste seu espírito empírico é que quase mal chegado, quase tive de voltar. Como sucedeu noutra experiência, desta vez com elementos líquidos, verificando quanto tempo um espécime da Ordem Primata, Família Hominidae e Gênero Homo conseguiria ficar sem respirar debaixo d’água: numa lúdica tarde no clube de campo, ela se sentou sobre minhas costas dentro da piscina, e como todo cientista (sobretudo com o gélido sangue alemão) tem um lado disciplinado que sabe esperar pacientemente, esperou pelo resultado, baldadas minhas esperneadas e braçadas. Não fosse uma Alma Cristã passar e notar que o pequeno Sapiens-sapiens já não se debatia mais, não estaria agora contando tais coisas. Claro que não digo que esperava matar-me. Não! Não me passa Caim entupindo a boca de Abel com bananas, nem se sentando sobre as costas do irmão dentro de um ribeirão! Mas, é bom deixar registrado que uma criança pode ser letal.

E os anos se foram passando, uns após outros, e muitos eventos de pequena, média e grande importância ocorreram, uns parentes nascendo, outros morrendo, uns tapas a mais, outras provas de resistência, livre da lupa e do bisturi da irmã, e acabei chegando aqui. Uma quarta-feira de setembro, de clima ameno, com tímidos ensaios de que vai chover como foi muito comum chover em muitos vinte e um de setembro... Mais velho, um bípede já cansado que aprendeu a dormir na cama – embora perdendo aos poucos o típico sono de Morato -, mais inteligente, usando a boca mais para comer que beijar. Presente de mãe desde o princípio em que um presuntivo Gabriel me anunciou... E ainda ausente de pai. Como diria outro nascido que já partiu (sem interferências de irmãs, diga-se de passagem), foi “dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor”: Eis-me!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

PALAVRAS E GESTOS


Ludovico da Silva

É conhecida uma frase popular que define a situação de um cidadão, sobretudo, com respeito à condição financeira: “de mãos abanando”. A pessoa tinha uma situação econômica apreciável e acabou ficando na pior. Perdeu tudo. No carteado, maus negócios ou qualquer outro motivo, relevante ou não. Daí ter ficado de mãos vazias.
Mas as mãos usam de outros meios para transmitir mensagens entre as pessoas, que perdurarão, ao que tudo indica, por toda a vida. Aliás, maneira de agir que não depende de nenhuma tecnologia avançada, nenhum estudo de pesquisadores, porque é uma expressão que decorre de forma natural, espontânea. Nasce com a pessoa e se desenvolve ao passar do tempo, como uma manifestação que surge diante da necessidade de uma explicação pormenorizada. Refiro-me aos gestos, prática utilizada com frequência, uma vez que é muito mais fácil no momento que se faz necessário um detalhamento completo da finalidade proposta.
Nos encontros fortuitos entre as pessoas os gestos são comuns no bate-papo para matar o tempo. Dificilmente deixam de completar uma palavra sem utilizar as mãos, mexer os braços, o corpo e até a cabeça e os olhos para expressar ideias e sentimentos. São gestos que completam uma informação. Funcionam como ligação para entendimento ou esclarecimento de uma situação. Observem quando alguém num ponto qualquer da cidade pede uma informação. Nem precisa ser um visitante. Mesmo alguém que mora na periferia e vai para o centro ou bairro distante isso acontece. Quer saber onde fica uma rua, uma instituição pública ou uma loja comercial. É que a cidade se desenvolve por todos os cantos. O informante fala e com as mãos faz um traçado, contornando ruas, passando por esquinas, para a pessoa chegar onde deseja.
É interessante observar uma pessoa falando ao telefone. A impressão que causa é que ela está à frente de seu interlocutor, olhando no seu semblante, ou até mesmo aguardando qualquer alteração, tanto são os gestos que faz. É claro que esse comportamento ocorre em pensamento que quer indicar e facilitar a compreensão de quem está do outro lado da linha. É feito nesse sentido, ainda que seja apenas uma tentativa de transformar o imaginário em realidade.
Mesmo na conversa frente a frente é comum os interlocutores usarem as mãos na explicação de qualquer assunto. Os gestos esclarecem de maneira bem definida a interpretação que o ouvinte deve ou quer ter.
Colocar laço com nó em um dos dedos da mão para se lembrar de algo a fazer é uma boa recomendação. Mas nem sempre isso funciona ou ajuda. Primeira manifestação da pessoa ao se lembrar de que esqueceu o que devia fazer é exatamente bater com a mão na testa e exclamar: diabos, esqueci!
Entrevistas através de canais da televisão são uma boa amostra na observação de detalhes dessa natureza. Instado a responder a uma pergunta de fácil manifestação, o entrevistado se prolonga por largo espaço de tempo e com a ajuda das mãos tenta esclarecer minuciosamente o assunto em tese. Se necessário, o entrevistador fica apenas na observação ou, caso contrário, intervém delicadamente e “corta” o papo.
O locutor de rádio, solitário no estúdio, não deixa de utilizar esse expediente quando quer mandar um recado ao ouvinte, lendo as anotações publicitárias à sua frente. Da mesma maneira quando deseja curtir um abraço com seu amigo encostado ao balcão de uma lanchonete, saboreando uma bebida gelada, batendo com as mãos às suas próprias costas.
É comum alguém com algum problema pessoal ou de família sair gesticulando no andar pelas ruas da cidade. Nem sempre se trata de algo emocional que toma conta do indivíduo, mas pode ser que ele esteja resolvendo a situação com a sua própria maneira de ver as coisas. Ou, então, para ele, sei lá, nada tenho a ver com isso. E segue em frente.
As mãos servem como ajuda indispensável para um esclarecimento.
Não são só italianos que gesticulam em prosa animada e, para que não pairem dúvidas, sou de descendência italiana. Por isso não tenho do que reclamar. Faço parte.

texto publicado no Jornal de Piracicaba em 27/09/2011

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Lançamento de livro infantil

O escritor e poeta Otacílio César Monteiro convida para o lançamento do seu livro infantil dia 01/10/2011

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Escolas de datilografia



Ludovico da Silva

Houve um tempo em que saber escrever à máquina fazia parte do currículo de todo jovem que almejasse ingressar no mercado de trabalho e que diretamente envolvesse atividades ligadas a escritórios ou empresas com atenção voltadas à administração como um todo. Por isso mesmo, havia não poucas escolas ligadas a instituições de ensino ou mesmo particulares que se dedicavam a essa especialidade, espraiada pela cidade.
Ao que parece, essas escolas não existem mais. Talvez alguma funcionando em residência particular, o que é um pouco difícil. Tudo em razão do advento do computador, tecnologia que revolucionou o sistema de comunicação entre as pessoas e empresas de um modo geral.
Esses detalhes registrados em poucas linhas são em razão da Escola de Datilografia "Moraes Barros", que por muito tempo funcionou na Rua XV de Novembro, entre as Ruas Governador Pedro de Toledo e Boa Morte. Essa escola era dirigida pela senhora Rosa Orlando do Canto, carinhosamente chamada de Dona Rosinha. Uma senhora tão atenciosa quão simpática, que cuidava dos seus alunos com muita dedicação.
Claro que o aluno iniciava o programa completamente alheio a qualquer conhecimento em relação às atividades. Ademais, não adiantava nada ser esperto pensando em olhar o teclado da máquina. Uma papeleta grossa era colocada de maneira que não pudesse visualizar as letras e também para evitar o chamado "catador de milho". Devia sair formado como bom datilógrafo. A orientação da professora começava indicando o uso de cada dedo das mãos nas letras certas e a peça de espaços. Os parágrafos e as margens, bem como a tecla em que se passava das minúsculas para as maiúsculas. No começo se ouvia aquele teque-teque lento. Com o passar do tempo a agilidade dos candidatos tornava o ambiente bastante movimentado, mas que não atrapalhava em nada, pois cada um cuidava do seu trabalho com toda atenção.
O curso tinha como objetivo o ensino prático de correspondência comercial, em cujo texto de apresentação estava escrito que "o conhecimento da língua que se escreve é a condição primária para um correspondente". Assim se aprendia o significado de termos comerciais mais usados no dia a dia, além da feitura de balancetes e de balanço final do ano comercial, bem como inventário do patrimônio.
Cursei a Escola de Datilografia "Moraes Barros". Não tenho de memória a duração do curso, que contava com apreciável número de jovens, mas me lembro de que para receber o atestado de conclusão o interessado precisava passar por uma série de atividades práticas e alcançar determinada porcentagem de toques, registrados em encadernação muito bem feita, com o nome gravado na capa.
Além de aprender a escrever à máquina, o curso ensinava, também, como usar letras e símbolos para produzir desenhos os mais diversos. Essa prática consta do livreto e até o embelezam. Naturalmente, dependia, é claro, da habilidade de cada datilógrafo para tornar as figuras bem caracterizadas. Delas consta uma fileira de soldados em sentido de prontidão, empunhando armas. Uma cabeça de cão e outra de pássaro. Em fios entre postes, dando conta de transmissão de energia elétrica, aparecem passarinhos em descanso. A balança, símbolo da justiça, está bem delineada. Em página destacada aparece uma moldura, para realçar uma obra de arte, moldada com cabeças de criança.
Não é só isso. As letras e os símbolos possibilitavam a formação de outras figuras, tudo dependia da imaginação do datilógrafo.
Está aí um pouco da história da Escola de Datilografia “Moraes Barros”, que por muito tempo funcionou no centro da cidade e que guarda fortes lembranças de quem a cursou.

sábado, 24 de setembro de 2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Ciranda Online - Criança em Versos


A Ciranda online já começou.
Vários poetas já enviaram os seus trabalhos.
Entre nesta Ciranda com a sua trova, quadra, hai-cai, soneto, cordel ou poesia livre.

Tema: Criança (a palavra-tema deverá constar no trabalho literário).
Término Ciranda pelo Brasil e pelo mundo: 25/09/2011.
Apresentação da Ciranda on-line ‘Criança em versos’ com todos os participantes: 12/10/2011 (Dia da Criança).

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