As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

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FOTO DE ALGUNS MEMBROS DO GOLP

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Com o escritor Ignacio Loyola Brandão

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Reunião na Biblioteca

sábado, 7 de novembro de 2015

ADAPTÁVEL *


Lídia Sendin

Moira não conseguia tirar os olhos daquela palavra que parecia saltar entre as outras no texto à sua frente: adaptável. Apenas um minuto atrás ela estava em frente ao espelho soltando os cabelos anelados e escolhendo a roupa que usaria para ir ao aeroporto pegar Álvaro depois de um mês fora do país. O aviso de uma nova mensagem chegando chamou sua atenção e ela voltou-se para a tela ansiosa quando percebeu que era dele a mensagem. Como? Há pouco mais de vinte e quatro horas recebera o aviso de que era essa a última comunicação dele, dando o voo e a hora de chegada.
Não conseguiu terminar de ler, seus pensamentos retrocederam cinco anos e ela se viu diante do “falecido” que lhe dizia, do alto da sua arrogância: “Não quero uma mocinha cheia de sonhos e vontades, quero alguém que seja adaptável ao meu estilo de vida”.
Com quase trinta anos, pensou ter tirado a sorte grande, ia casar com um homem elegante, inteligente e com boa situação financeira, que poderia lhe dar uma vida confortável e o filho que seu relógio biológico estava pedindo. Na época aquelas palavras lhe soaram como elogio, afinal já estava ficando pra titia e suas chances com o sexo oposto estavam se tornando escassas. Pagou o preço de ser adaptável, mas não foi feliz.
Apesar de detestar, cuidava da cozinha, apesar de gostar de dormir cedo, ficava com ele em longos jantares e mesmo tendo pavor de aviões, ia a todas as conferências de negócios pelo mundo afora. Todos os seus sonhos de compartilhar com alguém seu amor pela literatura, pelas caminhadas, filmes românticos e o desejo de ser mãe, acabavam na leitura da página financeira de algum jornal, em andar esbarrando nos garçons dos jantares de negócios, a ver filmes sobre empresários bem sucedidos e visitar algumas vezes os sobrinhos dele. Mas a ganância e a arrogância levaram o marido por caminhos escusos e perigosos, a idade e o coração não aguentaram e ele se foi, deixando pouca saudade e muitas dívidas. Vendeu a casa, os carros e agora sobrevivia escrevendo para jornais e revistas. 
Depois de cinco anos de abençoada solidão, onde só cabiam livros, amigos e viagens, por uma coincidência quase impossível, conheceu Álvaro. Num sábado chuvoso, quando nada podia fazer senão ler ou escrever, que era o que ela estava fazendo, seu computador travou. Desesperada com a possibilidade de perder todo o texto digitado e mesmo sabendo que era pouco provável encontrar alguém num sábado à tarde, ligou para a prestadora de serviços, rogando aos céus que Bruno, seu fiel escudeiro para assuntos de informática, tivesse se atrasado. Um toque, dois, mais um e outro, estava quase desistindo, quando uma voz desconhecida atendeu. Depois de um segundo de indecisão perguntou por Bruno. “Já foi embora”, disse educadamente a voz do outro lado da linha. Moira prendeu a respiração. “Algum problema?”. Um pouco chorosa ela contou o que tinha acontecido. A voz tornou-se atenciosa e precisa, aos poucos foi orientando seus passos até que tudo se resolveu. Depois do alivio e dos agradecimentos ela pediu pra mandar o Bruno na segunda pra ver se tudo estava bem e receber. Mas quem veio foi Álvaro, veio na segunda, saíram na terça, falaram ao telefone na quarta e trocaram e-mails todos os dias. E assim ela soube que Álvaro era o dono, que ficara para preparar um seminário sobre jogos virtuais que aconteceria em breve no Japão.
Foram três meses maravilhosos, com encontros no parque para a corrida, com idas ao cinema e ao teatro e muitas conversas no aconchego dos cafés sobre preferências literárias. Era por ele que ela esperara a vida toda, ele seria o pai do filho desejado e o companheiro amoroso que dividiria com ela o futuro.
Chegou finalmente o dia da partida para o Japão, “Vamos nos falar todos os dias” e assim fizeram: e-mail, MSN, Skype e tudo o que o mundo digital oferecia para aproximar duas pessoas que se amam.
Seus olhos ainda não acreditavam no que lia: “Moira, tenho ótimas notícias, meu projeto foi classificado, os empresários japoneses me querem, vão patrocinar todo meu trabalho, vou finalmente entrar em grande estilo para o mundo digital, participar de reuniões internacionais e jantares memoráveis, comprar a casa dos meus sonhos e um belo carro; vou ter que pagar um pequeno preço, é claro, a médio prazo não poderemos ter filhos, você não poderá escrever com tanta frequência, pois terá muitas obrigações sociais e a viagem de lua de mel vai ser adiada por alguns anos. Mas eu sei que você é mulher suficientemente adaptável para compartilhar tudo isso comigo.”
Moira levou um segundo para se lembrar de sua experiência anterior, outro segundo para levar o cursor até a palavra apagar na tela. Depois apertou a tecla enter, desconectou a Internet, desligou o computador.
Enquanto prendia os cabelos e procurava com os olhos o último livro comprado e não lido calçou o tênis, colocou o boné e foi caminhar no parque à procura de um lugar agradável para ler. Nunca mais queria ser adaptável a nada. Ia ser feliz do seu jeito mesmo.

* Conto classificado em 3º lugar no concurso Buriti 2014

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

LUDO



Adolpho Queiroz

                Admiração e respeito foram dois sentimentos que cultivei ao longo de minha trajetória profissional em Piracicaba – ou fora daí – pelo jornalista Ludovico Silva. Aprendi a conhecer melhor o E.C.XV de Novembro de Piracicaba através da coluna que ele editou durante décadas no Jornal de Piracicaba, intitulada “Q.G do XV”.  Eram pequenas notícias sobe o dia a dia do clube, escritas entre uma folga e outra que tinha nas suas funções mais nobres de servidor da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”.
                Ainda jovem jornalista, naquele periódico, inventei de fazer um suplemento dominical, em formato tabloide, para imitar o velho “Pasquim”. Uma das primeiras encomendas que lhe fiz foi para contar sobre apelidos curiosos de jogadores de futebol. Ele formou uma seleção com nomes estranhos como Formiga e Ratinho na zaga central e um exército de apelidos mal postos nos caneleiros que faziam sucesso à época. Ambos nos divertimos muito com o resultado do trabalho.
                Mais recentemente acompanhava suas investidas literárias na página que ajudou a construir com carinho aqui na Tribuna, ao lado da escritora Ivana Negri. Escrever era um gesto de liberdade para ele, uma forma de respirar das contradições do dia a dia.
                Ajudou-me grandemente durante a construção do último livro de memórias que consegui elaborar aí na cidade, recontando a história e trajetória do jogador Vicente Naval Filho, o Gatão. Foi aos arquivos com o mesmo vigor dos grandes dias de glórias do nosso quinzão. Vizinho de uma das irmãs de Gatão, me deu dicas também sobre a família. Não conseguiu ir ao lançamento, pediu desculpas e nos enviou o filho Renato Scudeller da Silva, meu colega de “Sud Mennucci”, para representá-lo na ocasião.
                Dias depois recebeu-me em sua casa, entre várias xícaras de café, para avaliar o livro e rabiscar autógrafos ao meu lado para seus filhos e pessoas mais queridas, a quem pretendia enviar os exemplares do “Gatão”.
                Fizemos planos para um novo livro sobre o Presidente tremendão, Humberto D ´Abronzo, que engrandeceu o XV com o seu trabalho e fez Piracicaba tornar-se conhecida por causa da sua caninha “Tatuzinho”. Chegou a rabiscar oito páginas sobre o assunto e tinha me enviado recentemente para nortear o nosso trabalho de pesquisa. As dificuldades destes dias impediram-nos, pelo menos por enquanto, a dar prosseguimento ao projeto.
                Apaixonado pelo XV, legou à torcida fanática uma das contribuições mais singulares, com as notas que escrevia diariamente sobre o clube. E na conversa derradeira, entre um sorriso maroto e uma cara meio fechada segredou: “O Ripoli me ligava todos os dias. De umas coisas que eu escrevia ele gostava. De outras me criticava, as vezes me aborrecia, como se eu fosse funcionário dele e não do Jornal. Foi duro manter a minha independência! ”

                Mais do que seriedade e compromisso, num setor do jornalismo onde as paixões prevalecem, Ludovico Silva deixou aos seus leitores e amigos, duas grandes marcas: o seu caráter e a sua dignidade. 

Adolpho Queiroz, é professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie/SP
Texto publicado no jornal A TRIBUNA PIRACICABANA

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Oficina Literária


Na próxima quarta-feira, 4 de novembro, o GOLP oferece mais uma oficina literária, a cargo do professor Cornélio Carvalho, intitulada  “Semiótica”. 
Às 19h30 na Biblioteca Municipal.
Entrada franca e aberta aos interessados em produzir textos.


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Poema para os vivos - Dia de Finados

Perder alguém não é dizer adeus ao pé da sepultura, escura casa desse corpo, igualmente escuro, enigmático. Por isso, nesse Dia de Finados, se você perdeu alguém para o qual não é mais possível telefonar para dizer "Te amo", faça uma prece, mas não uma prece decorada, cheia de frases que escreveram para você repetir. Faça uma prece que, ainda que não saiba, sabe de cor, de coração, porque fala do que lhe vai no peito, na alma de passageiro espírito pelo mundo. Assim, quem já se foi para bem mais longe de onde um simples telefonema pode chegar, saberá que você ainda se lembra dele e o considera importante em sua vida. Seja "vivo".


Olivaldo Júnior

 
Para os vivos que se foram
para o além de nossa terra,
um poema, algum foguete
com palavras.
 
Para os vivos que voltaram
para o céu que nos encerra,
um poema, o meu bilhete
para as almas.
 
Para os vivos que vigoram
na memória em primavera,
um poema, um ramalhete
pelas lágrimas.
 
Para os vivos que soltaram
seus grilhões pela quimera,
um poema, algum deleite,
muitas palmas.

Dia de Todos os Santos (homenagem a Ludovico da Silva)

Uma das agradáveis reuniões do GOLP, na Casa do Médico, tendo Ludovico à frente

Carmen M.S.F. Pilotto

  
A Alma de um escritor é um ambiente sempre conturbado onde emoções afloram vorazes e conturbadas. Lá fora, um dia nublado de todos os Santos. Na TV cultura, um especial sobre a “Bohemian Rhapsody”, com Freddie Mercury, arrasando em uma intensa voz que mistura rock e ópera incidindo sobre nosso humor como algo intenso e abrasador.
Ontem nosso amigo Ludovico da Silva mudou de plano. Um sentimento amargo em nossa rotina nos toma com o aumento das ausências dos queridos escritores que passaram para outro lado. Viajando pelo site do Grupo Oficina Literária de Piracicaba, encontro um lindo texto dele, de 13 de fevereiro de 2010, sobre a Felicidade: “Ao abrir a janela, logo pela manhã, deparei com uma paisagem que prenunciava um dia triste. O céu estava encoberto por nuvens escuras, barrando o sol, que lutava com seus raios fortes, para dar vida à natureza. Uma chuva começou a forçar as pessoas a apressar os passos. As flores, que enfeitavam os jardins, se encolhiam entre os ramos dos arbustos, à procura de abrigo. Pareciam tristes, como o próprio tempo. Fios de água escorriam pela sarjeta, ganhando força ao alcançar a ladeira escorregadia e se perdiam no encontro do rio la embaixo. Mas tudo passou de repente. Então, vi os raios do sol atravessando a chuva mansa, colorindo o céu, com a beleza de um arco-íris. Meus olhos encheram-se de felicidade.”érico rocha
Ludo era assim, todo realidade-cotidiana, relatava as microssensações que o assomavam e escrevia sobre a rotina, imagens, de forma singela e intensa, assim como a vida se apresenta, norteado pela simplicidade e experiência dos momentos vividos e observados.
Escreveu muitos anos no Jornal de Piracicaba a coluna QG do XV como um observador apaixonado por futebol, especialmente de sua terra natal. Coordenou em conjunto com a amiga Ivana Negri a página Prosa &Verso, na Tribuna Piracicabana, divulgando os amigos escritores de Piracicaba.
Foi também um dos fundadores do Grupo Oficina Literária de Piracicaba tendo recebido diversos reconhecimentos por prêmios e dignidades municipais da cultura, especialmente a Medalha de Literatura Profa. Branca Mota de Toledo Sachs.
Contabilista, professor, economista e jornalista tinha um perfil detalhista na literatura que praticava. Sua obra publicada, O diário de um ano bissexto, originou-se de uma pesquisa que relatou por crônicas muito interessantes e de humor com fatos folclóricos do calendário de um ano bissexto, utilizando suas datas mencionadas a partir de registros culturais, cívicos, profissionais, históricos e curiosos.
Como ser humano, marido extremoso, tinha muito afeto por sua família. Com um sorriso tímido, jeito discreto, era dono de um olhar misterioso e melancólico. Não era pessoa de exageradas palavras  mas  trazia sempre um comentário inteligente e bem colocado para toda e qualquer situação, comumente chamado de bom senso e discrição. Seu andar me fazia lembrar Carlos Drummond de Andrade, visto que todos nossos amigos nos remetem para alguém de nossa mente ficcional.
Seriam inúmeros textos que poderíamos citar de nosso amigo Ludo para expressar nosso pesar pela sua passagem, mas nada pode representar melhor do que sua própria frase na crônica Os vãos da vida: “Os invernos da vida entristecem olhares e sulcam as faces. Mas procuro alguém. Olho pelos lados. Canso-me. Tudo em vão. Os amigos sempre vão.”



sábado, 31 de outubro de 2015

Nota de falecimento


Faleceu o fundador do GOLP (Grupo Oficina Literária de Piracicaba) ,  escritor Ludovico da Silva, aos 86 anos.
Natural de Piracicaba, São Paulo. 
Contabilista, Professor, Economista e Jornalista. 
Membro fundador do Grupo Oficina Literária de Piracicaba. 
Contista e cronista. Escrevia para jornais e revistas. 
Participante de diversas antologias. 
Premiado em concursos nacional e internacional. Teve o texto "O Brasil que Cabral não viu", vencedor do I Festival Literário, promovido pela E. S. A. "Luiz de Queiroz", da Universidade de São Paulo, ano 2000, encenado em espaços culturais piracicabanos, em comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil. 
Agraciado com dezenas de medalhas e troféus, entre as quais a primeira Medalha de Literatura "Profa. Branca Motta de Toledo Sachs", no ano de 2006, prêmio instituído pela Secretaria de Ação Cultural da Prefeitura Municipal de Piracicaba.
Um dos coordenadores da página Prosa & Verso, publicada semanalmente pelo jornal A Tribuna Piracicabana, há 15 anos. Autor do livro "Diário de Um Ano Bissexto".
Uma perda irreparável para a literatura e para o grupo que fundou em 1989, há exatos 26 anos.
Nossos sentimentos a toda a família.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Pelos caminhos de Assis



Ivana Maria França de Negri

Ao pé das colinas, num vale florido e silencioso, avista-se a cidadezinha de Assis, com suas casas antigas de paredes de pedras e ruelas de pedregulhos polidos pelos tantos pisares através dos séculos.
A cidade, toda construída em estilo medieval, com torres, castelos, igrejas, nos reporta a imaginar cenas do cotidiano da Idade Média, damas com longos e rodados vestidos e cavaleiros com suas armaduras em seus fogosos corcéis.
As lojas, com lampiões acesos à noite, reforçam mais ainda esse ar medieval.
Sinos badalam a todo momento, em diversos timbres, dos campanários de igrejas, capelas e conventos e bandos de andorinhas esvoaçam, lembrando os sermões de Francisco, que a elas pregava também. O passado vive em seus becos e ruelas, um convite à contemplação, ao silêncio e à meditação.
Segundo consta em escritos remotos, Assis, região da Umbria, província de Perugia, teve suas primeiras edificações erguidas no século VI a.C. No ano 89 a.C, tornou-se município romano e foi quando surgiram os monumentos, muralhas, arcos, templos e obras de arte. Depois da queda do Império Romano, seguiram-se tumultuados períodos e lá pelos idos de 1182, nascia Giovanni di Pietro Bernardone, que anos mais tarde adotou o nome de Francisco.
A cidade respira espiritualidade, tanto nas paisagens, igrejas, capelas, conventos, tudo muito bem preservado, cuidado e florido, encantando os olhos e o coração. Afrescos precisam ser admirados sem pressa, em cada detalhe.
Visitei essa cidade mágica com meu marido, filho, nora, e as três netas mais velhas, Mariana, Talita e Ana Clara. Uma experiência diferente, pois crianças são ávidas por descobrir coisas, fazer perguntas e curtem cada momento, cada descoberta.
No convento de São Damião, onde Santa Clara viveu e morreu, minha neta Ana Clara foi convidada a assinar o livro das Claras e Franciscos - Chiaras e Francescos – do mundo todo que visitam o local. Emocionada, ela fez um desenho e deixou registrado seu nome, idade, cidade e país.
Na Basílica de São Francisco, repousam os restos mortais do santo num nicho de mármore rosado. Na cripta, uma lâmpada votiva tremula, e todo dia 4 de outubro é abastecida com novo óleo para que queime por mais um ano.
As pinturas da parede e do teto são de um discípulo de Giotto. E todas essas maravilhas, fazem os corações pulsarem intensamente, pois o local é impregnado de energias boas e sentimos essa forte vibração dentro de nós.
Pena que ficamos pouco na cidade, o local precisaria de vários dias para ser apreciado em toda a sua beleza e riqueza de detalhes. Presépios com a sagrada família em representações diversas, estão em todos os lugares, pois foi o santinho de Assis que montou o primeiro presépio em argila, instituindo essa tradição natalina.
A Porciúncula, capelinha que foi construída no século IV e depois restaurada por São Francisco, é carregada de boas energias, geradas pelas emoções conjuntas de peregrinos de todas as partes do mundo que por ali passam, oram e pedem graças. Ao seu redor, foi construída a Basílica de Santa Maria dos Anjos. A capela permanece intacta, preservada dentro do templo maior. É o lugar mais sagrado da Ordem Franciscana porque ali morreu Francisco, por isso é um lugar de grande peregrinação.
Assim é o cenário de sonho da cidadezinha de Assis, na Itália.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

DIA DO PROFESSOR (II)


Plinio Montagner

Dia do Professor? Ora, todos os dias são dias do professor. A vida toda. É como dia das mães. Se você sabe fazer uma listinha de compras, preencher uma nota fiscal, ler uma placa na rodovia, uma revistinha, um jornal, uma receita, é porque passou pelas mãos de um professor.
Somos o que somos graças aos nossos mestres. Pai, mãe, educador, pedagogo, são outros tipos de mestres. Professor é diferente; este fica dentro de uma sala de aula, ensina e ajuda o aluno a aprender.
Mas o salário... Oh! Como dizia o querido comediante Chico Anísio. E mais, mencionando uma frase do jornalista Alexandre Garcia: “O governo só não paga menos que o mínimo porque não pode”. Ou seja: porque a lei impede.
O raciocínio dos políticos funciona assim: se melhores salários equivalem a professores mais qualificados, se avaliações sérias significam promoção dos melhores, se alunos bons vão ser cidadãos pensantes, e se cidadãos esclarecidos incomodam o funcionamento da máquina da corrupção... então: salário de fome.
Os governos não querem professor ganhando bem nem alunos bons nem escolas boas porque: quanto mais mediocridades, mais facilidades para enganar os eleitores menos esclarecidos.
O salário dos professores da rede pública é tão aviltante que às vezes os mestres ficam embaraçados ao preencher um formulário e escrever que são professores. Dizem que são Pedagogos, Orientadores, Educadores...
Apanhar dos alunos já é um fato normal. Não é um acinte? Mas, e se for o professor que ameaça (só ameaça) dar um tapa no delinquente que o agride? A reação da sociedade é diferente. Aparece a Polícia, jornalistas, os pais, a Associação de Pais e Mestres - até o Datena.
Hoje os professores entram na sala e os alunos bocejam e zoam. Se não mudam de profissão é porque são masoquistas e gostam do que fazem ou, talvez, porque não sabem fazer outra coisa.
Sobre esse tema a escritora Lya Luft, Revista Veja, edição 2342, manifestou-se: “Caso um professor seja mais severo e exigente com a classe ou com um aluno, com certeza será processado pelos pais. Sala de aula é para trabalhar; pátio é para brincar”.
A nulidade da ação firme dos pais - educação de berço - é a maior vilã na relação professor/aluno/aprendizagem. Alunos, filhos de pais instruídos e enérgicos, são bons, obedientes, pacíficos, cumprem seus deveres e obrigações e respeitam seus professores.
O sistema de cotas e outros recursos que garantem assentos nas universidades enfraquecem a disciplina e a motivação para aprender.

A extensão do paradoxo assusta. O trabalho dos mestres é o gene principal da formação de homens; contudo é preterido pelos governos, fatos estes bem relatados por Maquiavel: “Povo que não pensa facilita a vida dos governantes corruptos e inimigos da nação”. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Ser poeta (20 de outubro – Dia do Poeta)


Olivaldo Júnior

        Um dia, quando eu menos esperava, passou um anjo de óculos e... Zum! me fez poeta, bateu asas e voou. De lá para cá, primeiro a lápis, depois à máquina e, mais recentemente, a teclado, deixo vir milhões de versos à luz de todos, porque a Poesia quer largar os livros, saltar dos sites e pular na boca e nos ouvidos de quem mais precisa. Eu sei que preciso escrever, mas há muitos que também precisam. E você?
        Sexta-feira, à noite, conheci um jovem que tem feito das palavras sua forma de resistência às drogas. É um jovem muito humano, que se preocupa com o próximo e, através de suas letras, quer fazer um novo mundo para os outros e para si. “O importante é a mensagem”, disse ele. E é verdade. Muitas vezes, ficamos presos à métrica, à forma dos versos, o que é muito legal e vale muito, mas não é só isso. Ser poeta é só isso?
        Não, ser poeta é bem mais que saber fazer uma trova, escrever um soneto, botar os pingos nos “is” e querer dominar todas as técnicas de escrita. Ser poeta é falar em público um poema, seu ou de alguém, pois o que vale, ao fim das contas, é o contato com as pessoas que querem do poeta o que ele tem de melhor: sua visão de mundo. Em que mundo você vive? O que tem feito de sua vida? Não sei, mas o anjo poeta sabe.
        Ontem estive em uma companhia teatral daqui, a Parafernália. Houve música, dança, teatro e, é claro, poesia, que ninguém é de ferro! Num belo ambiente, bem lírico, o público se emocionou e pôde sentir a energia que a Arte nos dá. Energia que o senhor sentado à mesa comigo tem sentido, iniciando sua carreira teatral depois dos sessenta anos e se dando a chance de brilhar. Ser poeta é iluminar, mesmo apagado, o viver.

        Dia 20 de outubro é o Dia do Poeta, data criada em 16 de novembro de 1999, durante a XXX Conferência Geral da UNESCO. Mas, assim como todas as datas comemorativas, o Dia do Poeta acontece todos os dias, quando alguém se senta e, seja num papel, seja numa tela, ambos em branco, deixam marcas, muitas pistas para um mundo em que todos podem estar, o da Poesia. Que venha o anjo de óculos! Amém.

domingo, 18 de outubro de 2015

Contos de mulheres sábias e uma análise


Raquel Silvestre Medeiros *

Li o livro O Violino cigano e outros contos de mulheres sábias na Sala de Leitura, com a Luzia, que é professora e mediadora de leitura lá, e percebi que em todos os seus contos a mulher é realmente a principal personagem, como, por exemplo o conto “Mais inteligente que o rei” que apresenta uma situação onde as mulheres são representadas como  espertas, inteligentes, fortes na queda e realmente sábias. Diferente dos outros contos populares dos livros que lemos, este fala bastante sobre as mulheres, como são e eram, e como nós somos diferentes das personagens femininas  da maioria desses contos de fadas.
Na maioria dos contos que já vi, eles diriam que os homens são cavaleiros, fortes, espertos e bonitos, e as mulheres são frágeis, bonitas, fracas e indefesas, mas neste livro é o contrário, pois mostra os personagens masculinos como fracos, desesperados e preocupados. Para chegar ao ponto em que quero discutir, o fato é que poucos escritores ou escritoras divulgam livros cuja mulher é a heroína, porém Regina Machado, escritora que organizou estas histórias populares vindas de outras épocas e de  outros países e regiões diferentes, inclusive do Brasil, foi inspirada para realizar este livro e para que diminua  esta indiferença em relação aos feitos das mulheres.
Esta história mexeu com a minha cabeça e eu mudei a minha mente, por exemplo, eu achava que, como nos contos o homem é o mais forte e esperto, assim era, mas penso hoje que na verdade uma parte dos escritores apenas faz a história por sua imaginação e que, quase todas as coisas que são imaginadas não são a realidade do dia a dia, como os contos fictícios.
Assim como o livro “O violino cigano e outros contos de mulheres sábias” me inspirou bastante, tenho certeza de que do mesmo jeito que me inspirou, pode inspirar vocês. 
Vai aqui uma história que procurei criar com o mesmo tema: “Uma mulher na floresta isolada”
Uma época, havia um príncipe de nome Zideão. Ele governava junto a três amigos, mas o que ele não sabia era que eles eram pessoas que o odiava e sentiam inveja dele. Com a ajuda de sete guardas eles o mandaram a uma floresta isolada.
Zideão, muito confuso e perdido vagou por dias pela floresta até que encontrou uma mulher que pegava água em um rio para levar a sua casa perto da longa floresta. O homem, que passava por ali desesperado por ajuda, foi correndo até ela e pediu auxílio.
Ela, percebendo as roupas dele todas rasgadas, o ajudou a sair da floresta. Ele lhe disse que era da realeza e que podia conceder algo para ela.
A jovem disse que tinha apenas um pedido: morar no castelo com o príncipe; ele estranhou, mas aceitou.
Três meses depois a mulher foi embora do castelo e como neste período o príncipe havia se apaixonado por ela, foi procurá-la na floresta e novamente se perdeu. Ficou dias vagando e procurando pela amada. Quando Gideão viu seu balde caído próximo a um riozinho...caiu de joelhos na frente da jovem que vinha vindo. Disse-lhe que se ela o ajudasse a achar a saída dali ele não lhe ofereceria outra proposta senão um bom relacionamento, e como ela também gostava dele, aceitou.
Meses depois, quando a jovem realmente viu que era isso o que ela queria, casaram-se, e foi uma festa só e sei que vocês estão se perguntando: e os três traidores que planejaram a queda do príncipe? – aliás, eram dez e não só três – Bem, ele queria castigá-los mas a jovem não deixou, por que se não fossem eles os dois não teriam se conhecido e ela disse que o melhor seria bani-los e colocá-los numa distante floresta isolada. E assim foi feito.


*  aluna do 6º Ano, na PEI “EE Prof. Francisco Mariano da Costa” – bairro Novo Horizonte - Piracicaba

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Infância em bianco e nero

                             


                                                               Eloah Margoni

    Sim, tive sorte na vida; nem por isso ausência de desafios e de caminhadas por locais áridos e pantanosos. Fui cuidada a amada mas, na infância, minha avó paterna, uma mulher má e manipuladora que infernizava a vida dos filhos, colocava minha casa em tensão e alvoroço. Eu, a filha mais velha... Meu pai sofria extremamente com isso, e muito cedo comecei a odiá-la tanto quanto amava minha avó materna.
    Bem criança ainda, tinha ímpetos de cólera, perfeitamente reprimida ou controlada. O que mais fazia era gritar pra mim mesma no espelho, quando sozinha, e desarranjar meus cabelos bem penteados.
     Detestei minha avó durante bom tempo, com uma cólera fresca, impotente e legítima, sempre desejando a morte daquela figura responsável pelo suplício dos meus pais e tias. Quando ela finalmente morreu, anos depois, fiquei bem feliz. Foi grande dia de festa para mim. Achei bom ir a São Paulo, sob a chuva fina e triste, sepultar aquela odiosa figura, juntamente com um ou outro personagem vestido de preto que apareceu no enterro. Mas havia mais, acreditava que a mentalização assassina tinha, finalmente, surtido efeito! Eu matara minha avó, após anos de persistência, trabalho e desejos bem direcionados. Estava, por isso, de parabéns. Nunca senti culpa por tais sentimentos. Porém, já adolescente e adulta jovem, coloquei em questão meus superpoderes mentais, uma vez que minha avó estava idosa e bem doente.
    Não sei se acreditava em inferno naquela época. Imagino que sim. Inclusive tínhamos uma coleção cara, completa, ilustrada de A Divina Comédia de Dante; eu a lia muito e conhecia bem todos os círculos do inferno. Pensando melhor, não sei como meus pais permitiam que eu dissecasse e folheasse tanto aquilo, com suas figuras desesperadoras e horrendas; mas talvez achassem que fosse bom para minha formação. Então, certamente eu acreditava no inferno por força da religião, da literatura e da arte, mas nunca pensava naquela velha horrível lá tampouco, cara a cara com o demo como ela mereceria, ou em que círculo estaria. Isso não me importava. Bastava-me que estivesse longe de mim o suficiente, que sumisse, que deixasse de nos atrapalhar! E ela havia sumido. Tampouco minha formação cristã ou o exemplo do lado bom de meus pais fizeram-me pensar que a ira em si causasse algum lastro de chumbo o qual pudesse puxar-me, vamos lá, para o purgatório por alguns séculos saeculorum (porque o máximo a que chegávamos, era mesmo ao purgatório). Karma, darma, maia e outros termos só se apresentaram muito mais tarde, para mim. Não que os esteja, aqui, defendendo.
    Se tivesse prestado atenção a tudo no entanto, ou tivesse inventário suficiente para tal, teria percebido que poderia vir a ser uma pessoa muito prática e racional, contrapondo-me às minhas próprias paixões, o que tento disfarçar às vezes. Mas durante bastante tempo não parecia isso, porque bem romântica e sonhadora. Na verdade, aquele ódio infantil, vegetando entre explosões de sensibilidade amorosa por outras pessoas e coisas, também dava mostra de idealismo futuro, de inconformismo e inclinação para luta.
     Tais elementos descritos e um tanto mais brigaram acirradamente dentro de mim, até que formaram um caleidoscópio ordenado, onde cada ato, sonho, convicção, arrependimento ou ideia construíram certa mandala dinâmica que faz também, hoje em dia, a pessoa que me tornei. Seja lá quem for tal pessoa, seja lá o que acabou sendo, o certo é que, no conjunto, afinal, faz bastante sentido. Até porque tudo faz sentido no mundo, inclusive os maiores absurdos, mesmo que não o alcancemos nem jamais venhamos a alcançar. Isso é puro azar nosso certamente, estarmos tanto assim pregados ao solo.



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Oficina Cultural no GOLP

Amanhã, 07 de outubro/2015, Leda Coletti dará uma oficina para o Grupo Oficina Literária de Piracicaba para estimular a escrita.
A Oficina intitula-se "Reminiscências Literárias".Na Biblioteca Municipal, às19h30


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

UM GRITO QUE ECOA


Lídia Sendin

Ouvindo do Brasil grito que ecoa
Um rogo que retumba renovado,
Não deixe, ó Pátria minha, ser à toa
A busca pelas glórias do passado.

Um povo que não foge da disputa,
Levanta com trabalho e braço forte,
Se o toque da trombeta é para a luta
Não deixará o outro à própria sorte.

O grito que se ouve é de igualdade,
Sem a preocupação da sua cor,
Quer pra todos a mesma liberdade
E nela põe sua vida em penhor.

Não quer ver seu irmão pedindo esmola,
Se cumprir seu dever, quer o direito,
Segurança, saúde e escola,
Mas principalmente igual respeito.

Quer a paz do futuro no presente,
Que este povo ajuda a manter,
Acolhendo pobre, rico ou diferente,
Esperando a mesma coisa do poder.

E um grito do Ipiranga atual,
Ecoa pelo verde do Brasil,
Trazendo outra questão também vital:

Somos nós ainda hoje mãe gentil?

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

CONTO SEM FIM

"Moça lendo" Vicente Romero

poesia de Lídia Sendin *

Conto tudo o que me encanta,
O que em cada canto vejo,
Mas nem sempre me adianta,
Nem sempre é o meu desejo.
Também conto o desencanto,
Se a estrada me oferece.
Todavia não me encanto
Com aquilo que acontece.

Fico firme no caminho
Mesmo que o redor me assuste.
Nesse meu andar sozinho
Vejo o bom e vejo o embuste.
Quando o fato é muito triste,
Posso até chegar ao pranto,
Mas não esqueço que ele existe
Só porque não me encanto.

O final é sempre certo:
Tem talvez, um não ou sim
E se lhe parece incerto
É porque não é o fim.

Poesia classificada em 2º lugar no Concurso da Academia Feminina Mineira de Letras de Belo Horizonte/MG.