As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

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Com o escritor Ignacio Loyola Brandão

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Reunião na Biblioteca

sábado, 23 de janeiro de 2010

Uma Blusa de Crochê

UMA BLUSA DE CROCHÊ
Ruth Carvalho Lima de Assunção

Eu me encantei. Em dias de hoje, naquele sarau tão moderninho aquela blusa, ainda fazendo sucesso, numa tarde de primavera, naquele evento, recordando uns dias gloriosos do ontem.
A imagem de minha avó Elvira, tão compenetrada, tão absorvida em seu trabalho me veio à mente. Curvada em seus oitenta anos bem vividos, não se entregava ao ócio e nem à contemplação. Resolvia seu tempo livre fazendo suas toalhinhas, bicos e sapatinhos para doar às criancinhas. Que bom! Não teve tempo para as doenças.
Voltando à blusa de crochê (não tem mais o t?) Percebia-se que era antiga, há muito tempo guardada e só saia para dar uma volta em ocasiões especiais. E era uma ocasião especial, a dona da blusa acertara, trabalhada em linha de seda pura, muito fina, num trabalho artístico e geométrico formava um mosaico de formas firmes e precisas.
- Que linda blusa, eu disse, que jóia!
Mexi com a sua vaidade, e quem não a tem, em se tratando de suas coisas preciosas?
- Eu a tenho há muitos anos, e só saio mesmo para exibi-la nestas ocasiões.
Vão dizer que coisas simples me atraem, ocupam minha atenção. Mas não é assim não, só os que nunca pegaram em uma agulha e se debruçaram sobre este trabalho de paciência e perseverança poderão menosprezar um trabalho dessa natureza.
. Duvido, que nos dias de hoje, estas mocinhas de barriga de fora, que perambulam por aí com seus vestidinhos lindos de morrer tenham a coragem de ficar horas a fio, fazendo rodinhas de crochê.
Outra surpresa. Eu vivo reclamando das porcarias que vem da China. De fato, são muito baratas, mas são descartáveis. Não duram nada. Quanto dura um guarda-chuva? Uma chuva, e ficamos à mercê dos pingos d’água.
Pois bem, a dita cuja veio da China. A dona da blusa comprou-a numa certa exposição, onde figuravam muitos trabalhos de crochê.
Então, velhinhas chinesas, em seu artesanato silencioso e solitário, matematicamente contando os pontos, multiplicando e dividindo oferecem ao mundo suas obras de arte.
Neste mundo global, artistas desconhecidas, vão tecendo...tecendo... até...

(Eu pretendia falar sobre o evento que aconteceu nessa tarde tão amena. Um acontecimento de grande importância para a literatura. O jornal Linguagem Viva completou em 30 de setembro 20 anos de periodicidade, sem interrupções
A blusa de crochê marcou esta data. Vou deixar os comentários sobre um possível próximo trabalho para outro dia).

Retalhos da Vida


Retalhos da Vida
Leda Coletti

Na maioria quadrados: de todos os tamanhos e cores. Certinhos sem senões. São muito fáceis de construir.
Sei que a vida é uma bola que gira e quanto mais rápida mais atordoa; por isso no lugar dos círculos, ainda prefiro os retalhos quadrados. Até que os retangulares servem pra pensar na possibilidade de sair da bolha. Só ilusão, porque quando o caminho parece continuar, já vira pra outro curtinho e faz o medo aparecer. Daí pra disfarçar, a gente remexe igual a balão subindo, subindo pro céu, dançando um sambão lascado, esnobando qual losango pintado de vermelho, branco, preto, dourado. Essa euforia no firmamento dura até o seu lume apagar.
Chega a noite. Extasio-me com a colcha estendida, exibindo no seu centro, retalhos luminosos estrelando a constelação Cruzeiro do Sul !
Relaxo então meu corpo sobre esse azul repousante, onde brincam quadrados, retângulos, losangos, círculos multicores e sinto nos sonhos, uma nova estrela nascer dentro de mim !

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

As Duas Árvores

As duas árvores
Ivana Maria França de Negri

Plantadas há décadas lado a lado, floresceram juntas em muitas primaveras. Uma oferecia alvos cachos perfumados, e a outra, rubros pingentes que eram oferecidos pelos enamorados às suas amadas. Abrigaram ninhos de passarinhos, e em troca, recebiam a paz do seu canto. Assistiram ao milagre de molengas lagartas transformarem-se em belíssimas borboletas. Sustentaram balanços para alegrar brincadeiras infantis. Quando as crianças adolesciam, e faziam de seus troncos confidentes e desenhavam corações com os nomes dos seus amores, aceitavam tudo com serenidade. Até a dor das marcas riscadas a canivete. Suas flores enfeitaram mesas festivas, formaram buquês de noivas e acompanharam muitos dos habitantes até a última morada, participando assim de todas as etapas de suas vidas.
Encorparam, e suas copas pareciam querer tocar o céu enquanto a circunferência de seus troncos alargava-se. Quem as avistava de longe, pensava tratar-se de uma única árvore porque suas copas se misturavam. As raízes se entrelaçavam e as flores caiam juntas formando um macio tapete colorido.
Atravessaram verões dando sombra amiga aos passantes. Despiam-se nos outonos, desfloresciam nos invernos, mas sempre renasciam nas primaveras, quando então reinavam majestosas, florejando e espargindo deliciosos odores.
A cidade cresceu, o progresso chegou, modernas avenidas foram tomando o espaço do verde. Até que um dia foi decretada a retirada das duas porque estavam atrapalhando. Tornaram-se um estorvo porque impediam a construção de um novo viaduto.
Funcionários da prefeitura chegaram com suas motoserras e, sem piedade, começaram a podar os galhos. No chão, a hemorragia verde misturava-se com as folhas maceradas e os troncos recebiam pesados golpes de machado espalhando o cheiro concentrado da seiva fresca que vertia dos cortes. Ninguém se apiedou delas e nada fizeram para impedir seu aniquilamento. As duas agarraram-se mais ainda entrelaçando suas raízes num mudo protesto, um pedido de socorro que ninguém percebeu. Apenas uma brisa amiga soprou solidária. O sol escondeu-se atrás das nuvens para não presenciar o triste acontecimento. Nem a lua apareceu naquela noite e nenhuma estrela ousou iluminar o céu que se cobriu de luto. Depois de horas do ensurdecedor barulho das serras enlouquecidas cortando os troncos carnudos, os funcionários desistiram de arrancar as raízes. Cobriram-nas com concreto e comemoraram o término da árdua missão.
Passou-se muito tempo, depois da construção da moderna rodovia. O chão começou a trincar e tímida fenda deixou antever um frágil brotinho verde em meio ao negror do asfalto. Antigos moradores, os que ainda se lembravam das duas árvores sempre abraçadas, ficaram curiosos para saber qual delas havia sobrevivido. Seria a de flores vermelhas? Ou sobrevivera a de flores brancas?
Quando no ano seguinte a primavera chegou com toda sua tradicional exuberância, tiveram a grata surpresa. Nem vermelhas, tampouco brancas. Resultado do idílio amoroso entre aquelas primitivas almas vegetais, nascera uma árvore com as mais lindas e cheirosas flores como ninguém jamais havia visto! E eram todas cor-de-rosa...

Planta que a dor espanta - Lídia Sendin


Planta que a dor espantaLídia Sendin
Era manhã bem cedinho, ainda madrugada, o jovem agricultor caminhava pela estrada de terra rumo à lavoura. Algumas poças d’água, resultado da chuva da noite anterior, pontilhavam o chão.
Enquanto tentava se desviar dos buracos ele percebeu que a lua se multiplicava a cada pequeno espelho molhado. Suspirou e apoiado na enxada, pensava na lua cheia que emoldurou sua serenata bruscamente interrompida pela chuva repentina e na janela rapidamente fechada antes mesmo de o jovem poder se declarar.
Agora, esperando o sol, lá estava ela, brilhando prateada e soberba a rir-se do malfadado projeto de conquista do rapaz. A lua foi ficando pálida aos poucos e o cheiro da manhã, banhada pelos primeiros raios de sol, já tomava conta do caminho.
Assim, sabendo que essa rotina seria sua companheira por mais uma semana, antes de uma nova tentativa de conquista, colocou a enxada no ombro e partiu para a roça, tendo como companheira somente a esperança no coração sofredor, ansioso de que a semente plantada no coração da amada germinasse mais rápida do que as sementes lançadas na pequena roça de hortaliças.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Reuniões do Poesia ao Vento - 2010


CALENDÁRIO 2010

POESIA AO VENTO – SESC/PIRACICABA
horário: 18h30


Fevereiro ------------- Casimiro de Abreu
Março-------- Haikai/Motemas/Leminsky
Abril --------------- Manoel Bandeira
Maio ------------------- Jorge de Lima
Junho -------------- João Cabral de Mello Neto
Julho ------------------- Juó Bananere
Agosto ----------------- Manoel de Barros
Setembro --------------Auta de Souza
Outubro ------------------ Raul Bopp
Novembro -------------- Hilda Hilst
Dezembro -------------- Cruz e Souza

Reuniões do CLIP - agenda 2010

As reuniões são sempre no último sábado do mês

Calendário 2010 do Clip
Local: Biblioteca Pública Municipal "Ricardo Ferraz de Arruda Pinto"

horário : 15h às 17h


27 de fevereiro
27 de março
24 de abril
29 de maio
26 de junho
31 de julho
28 de agosto
25 de setembro
30 de outubro
27 de novembro
11 de dezembro (confraternização
)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Estripulias - Carmen Pilotto

Estripulias
Carmen M.S.F. Pilotto

Seu dono sempre lhe fora um fardo. Chegava com o sol já posto, sempre extenuado e desalentado. Havia ouvido na noite anterior, num programa de auditório, sobre o tal transtorno bipolar. Tudo indicava ser o mal que afligia seu querido amo. Mas cão tem perfil eterno de companheiro fiel. Latia ruidosamente abanando o rabinho compulsivamente, pulava em suas pernas até que Pedro a tomasse ao colo. Aí sempre lhe dava aquela lambida revigorante e molhada de carinho. Da depressão urbana, Pedro se transfigura todo final de tarde em euforia infantil, sorri em seus cinquenta anos o primeiro espasmo feliz do dia. Joga ao lado a maleta executiva com o casaco alinhado. Dane-se o relatório financeiro ou qualquer outra tarefa para o dia seguinte, Lilica merece umas peraltices compartilhadas. Em poucos minutos a pequena cadelinha esquece a solidão de seus dias de espera, afinal cão que é mesmo um verdadeiro amigo tem a mesma disfunção psicológica de seu dono...

Asas do Amor


ASAS DO AMOR...
Maria Emília M. Redi

Era uma linda manhã de sol! O mar deslizava suavemente seus encantos por toda orla.
Da janela, semi aberta, daquele apartamento do sexto andar, Luca, um rapazinho de uns sete anos, preso em uma cadeira de rodas, observava tudo lá fora e vibrava com a euforia das crianças brincando, mesmo sabendo que não podia compartilhar daqueles folguedos infantis, nada alterava o seu ânimo e alegria de viver.
O céu escureceu de repente. Lá para os lados da serra, as nuvens, que há pouco tempo estavam espalhadas como flocos de algodão, concentraram-se em um manto negro. A tempestade não tardaria!
Luca chamou a mãe para ajudá-lo a fechar a janela escancarada pela ventania que, além de fazer esvoaçarem nervosamente as cortinas, ia derrubando tudo o que encontrava em seu caminho. Tudo foi tão rápido. Mas, a espera pela mãe parecia uma eternidade.
O menino, desesperadamente, tentava com todas suas forças fechar a janela, mas não conseguia. De repente, um objeto foi atirado em seu colo com uma fúria indescritível. Neste exato momento chegaram a mãe e a empregada.
No colo de Luca o objeto trazido do céu movimentava-se indelével.
Era um pequenino pássaro, caído do ninho, ainda com a penugem rala e com o coraçãozinho disparado pelo susto.
Luca o abrigou com carinho. Voltou para a mãe um olhar suplicante - pedindo para ficar com o pequenino ser alado até que ele pudesse voar. A mãe consentiu.
O menino, muito feliz, passou a cuidar diariamente deste seu novo amiguinho enquanto ele crescia transbordando vitalidade e encanto. O tempo voou... até que chegou o dia de soltá-lo em seu habitat.
Toda a família acompanhou Luca na entrega do pássaro às suas origens.
Abrindo as mãos que seguravam carinhosamente o seu protegido, deu um suspiro, e lançou-o ao ar - Voa livre pelos ares meu amigo! Um dia nos reencontraremos...
O menino voltou para casa e todas as manhãs observava de sua janela a vida vibrando lá fora. Às vezes, seu olhar perdia-se no infinito, viajando nos sonhos de criança ou esperando ver o amiguinho alado. - Só mais uma vez...
Numa manhã ensolarada, destas que nos trazem bons fluídos, Luca encontrou uma bela surpresa no parapeito da janela - não só era o seu amiguinho que ali encontrava-se, mas, também, sua companheira para mostrá-la ao grande amigo, que, um dia, tinha-lhe restituído a chance de voar.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Era Uma Vez na Itália

Era Uma Vez na Itália
Eloah Margoni


O felicíssimo retorno de um amigo libanês, o qual conheci na Itália (e tinha eu motivos para acreditar que estivesse morto, no Líbano), trouxe a motivação de remexer em gavetas de armários e nas da mente. Delas retirei as fotos de Valenzano, onde morei, próximo a Bari. Também saíram lembranças que mereceram esta crônica. Quanto ao amigo, hoje mora na Arábia Saudita com uma bela família, e tem negócios na China. Não sei agora, mas a Itália era um país machista então. Não por acaso o feminismo pegou forte ali. Como poderia ser diferente? Morávamos no sul ademais, mas viajávamos bastante. Às portas dos anos 80, florescia o já citado movimento, cujo grito de guerra era: "Tremate, tremate, le streghe son tornate" (tremei, tremei, as bruxas voltaram!). O aborto acabou sendo legalizado ali. Aqui nem se discute o assunto ainda. No Brasil, por outro lado, ainda vivíamos na ditadura militar, à época. O partido comunista tinha projeção também lá na Itália e fizemos alguma amizade com nossa profesora de italiano, que fazia parte do referido partido; ela, uma italiana de Bari. Participamos de uma passeata de protesto por causa de um casal comunista, assassinado a tiros defronte à sede do partido. A passeata foi pacífica ( tudo isso para porem, agora, Berlusconi no poder!). Nas ruas ainda reconhecíamos os "capi", plural de "capo", chefões, cabeças da máfia, que andavam com grandes anéis de pedras, que eram jóias, e bengalas com castões dourados. Os carros paravam para que eles atravessassem. Dons Corleones não eram incomuns então, ao lado do cenário de Vitório de Sicca, de Tornatores, nos vilarejos e nas partes antigas das cidades... O partido comunista de Bari contratara Augusto Boal, que morava em Portugal então, exilado, para dar um curso de uma semana, lá mesmo em Bari, das técnicas do "teatro do oprimido". Meu marido na época e eu fomos convidados a participar, e acorremos lá. Foi muito bom! E ele, Augusto Boal, era um doce! Tenho maravilhosa lembrança deste teatrólogo, e senti sua morte, ocorrida há não tanto tempo. O curso culminou com uma cena de "teatro invisível", feito na estação ferroviária central. Era uma pequena peça montada, na qual questionava-se o direito das mulheres lerem uma revista “masculina”, sem serem incomodadas. Cada qual tinha um papel, mas ninguém nas ruas sabia disso. Uma moça, italiana “moderna”, acabava discutindo com uma estudante/atriz vestida de preto e num papel muito moralista. O meu, era o de comunicar aos passantes a história que acontecera... Acharam-me boa atriz, mas não me lembro tão bem de minha atuação em si. Anos depois, com o grupo de estudantes de medicina, repetimos a técnica do teatro invisível na porta da catedral em Campos dos Goytacazes, RJ, onde morei e estudei; cidade esta reduto do movimento TFPista, na ocasião. Lá, as mulheres não podiam entrar de calças compridas nas igrejas. Montamos a cena: uma moça tentava entrar e provocava um incidente e uma discussão pública dos valores. Deu certo. Saiu até nos jornais locais. Fiz o papel da moça insistente e atrevida... Mas antes, na Itália, éramos vigiados, se éramos!. Militares mais "jeitosos" andavam disfarçados por lá, pelo exterior, só para monitorizarem os brasileiros fora do Brasil. Fomos contatados por um cara de uns 30 anos, gay aparentemente, que gostava de artes, mas que, sem dúvida era um militar. Era evidente que nada tínhamos em comum com ele e vice versa, e seu contato constante não nos deixava dúvidas... Ele nos procurou de início no Instituto de Agricultura de Valenzano, onde morávamos, e tentou fazer marcação cerrada. Mas nós o evitávamos. Esse é um tópico que pode ser contado novamente em outra crônica. De momento, estamos na Itália dos anos passados, com suas ruas desconcertantes, com toda nossa juventude e capacidade de sonhar. No Brasil, infelizmente, ainda a ditadura militar existia, mas lá, asas da liberdade...Então, voávamos.

A última gota

A ÚLTIMA GOTA
Lídia Sendin

A torneira pingando parecia acompanhar o tic-tac do relógio da sala. Por alguns segundos sua atenção foi desviada para o dueto compassado, mas logo a mulher voltou-se para os afazeres na cozinha, desligou o forno, espiou a panela cozinhando lentamente, passou um pano na pia e cuidadosamente arrumou pratos e talheres na mesa.

Com a esperança renovada suspirou e sentou-se no sofá olhos fixos no telefone, “ não toque, não toque”, pensou. Levantou, espiou pela janela tentando afastar os pensamentos indesejáveis, marido atrasado, dinheiro contado, cara feia e pouca atenção e a comida no forno desligado. Agora era seu coração que fazia dueto com os pingos na cozinha. Não conseguia fechar a torneira, emperrada como sua vida. O soar do telefone estremeceu seu corpo, não precisava atender para ouvir a voz do outro lado: “não vou jantar”.

Foi para a cozinha guiada pelo pingar da torneira. Desligou a chama do fogão e a esperança.
Entre dois pingos o avental estava no chão, o pente ajeitava os cabelos e o batom vermelho realçava sua boca.

Agora sua raiva foi forte o suficiente para fechar a torneira. O que ouviu foi a porta batendo atrás de si, era o última gota, para ela também.

Saudosos anos escolares


SAUDOSOS ANOS ESCOLARES
Lino Vitti

Ah! se a adolescência voltasse! Ah! se por um estranho milagre os tempos voltassem e nos levassem de novo àqueles dias de surpresas, de encantamento, de fuga, de sonhos, de esperanças, em que nos matricularam pelos primeiros anos no templo de cultura e saudade que é a primeira escola, a escola primaria, quando e onde zelosos e pacientes professores tudo faziam para destravar as inteligências infantis e incutir nelas o ABC, as contas de somar, subtrair, dividir, multiplicar, a maneira de fazer uma boa e louvável leitura, a história do Brasil, a geografia da Pátria, e até a ser músico ou poeta!
Todos, mas todos mesmo aqueles que tiveram esse privilégio recordam com nitidez, com infinita saudade, com esperanças de um retorno impossível, os dias em que, às mãos do pai ou da mãe, adentramos aquelas portas escancaradas, porque livres e acolhedoras, e nos dirigimos à mesa do diretor, de um mestre encarregado ou de um excelente funcionário, para dar o nosso nome, nossa filiação, nossa data de nascimento, e receber as palavras de alegria: “pronto, já estás matriculado. Agora e só aparecer todos os dias, comprar cadernos, lápis, e livros com o passar dos dias, e aprender a ler, escrever, contar, e “sonhar” com o dia de receber o diploma como passaporte para ensinos superiores e novos vencimentos e fortalecimentos da inteligência e para ser um dia algo na vida, com aproveitamento integral do trabalho condigno dos mestres primeiros que ficaram atrás, mas brilham como um farol indicativo de vitórias e saber.
Nunca na vida se esquece dos mestres que nos alfabetizaram e nos deram chances irretorquíveis de vencer na vida, e embora a quase totalidade os traga na memória cercados de luzes como num altar, de onde nos apontaram o caminho certo e vitorioso, há sempre os ingratos que dos mestres não gostam, que dos mestres se esquecem, que os mestres não amaram e quiçá não amem nunca. Eles nos guiaram como pais, nos conduziram como santas mães, nos transformaram de pessoas broncas e incapazes, em “filhos” iluminados e corajosos para sermos vitoriosos nas lutas inarredáveis da vida. Ser grato aos primeiros (e posteriores) mestres é ato divino, é ser um cidadão formado no idealismo e na cultura, na fé e nas realizações. Como é possível existir alguém que se esqueça deles, que os não lembre, que os não respeite, que não os ame, chegando alguns ao cúmulo de os odiarem, como se foram inimigos.
O inverso entretanto ocorre com a maioria daqueles que tiveram um generoso mestre primário, Daquele ou daquela que não tiveram duvidas nem receio de enfrentar o sertão, a solidão, os perigos de uma região rural, silenciosa e solitária, sem transporte e sem o calor da família e dos amigos, como herói (e heroína), para assumir o ensino primário, o ensino das primeiras letras e os primeiros números aos humildes moradores infantis do sertão. Ah! são mestres inesquecíveis, mestres vindos do céu trazendo à mão o facho de luz de Deus, dignos portanto de amor e gratidão, luz essa que procuram com carinho repassar aos seus filhos intelectuais para toda a vida.
Minha esposa Dorayrthes foi professora primária nos “sertões” de Santo Anastácio, no início de sua carreira, e conta sempre o que foram aqueles anos de ensino às inocentes mas queridas crianças da zona rural. O transporte era sobre toras de madeira transportadas por carros de boi, a água, a dos regatos próximos, o alimento o arroz e feijão sem mistura, a iluminação do quarto a fumacenta lamparina de pavio alimentado a querosene ou o luar adentrando pela janela. Mas valeu a pena, diz ela, porque seu trabalho abriu os luzores do saber a inúmeras cabecinhas sequiosas de conhecimentos e sonhadoras de um futuro mais feliz.
Jamais esquecerei os meus mestres primeiros: João Pecorari (diretor) Dona Josefina, dona Mercedes, “seo” Paternack, dona Helena, dona Valdomira, dona Ester, e Seo Euclides Orsi (que sei haver chamado meu nome nos últimos minutos de sua vida!!!). Tenho certeza de que estão no céu e talvez um dia nos encontremos na eternidade feliz, se eu a merecer, como a mereceram eles.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A viagem

A VIAGEM
Ludovico da Silva

A estação da pequena cidade servia para as despedidas das pessoas que viajavam. E sempre reunia muita gente, principalmente os amigos mais íntimos.
Na rua principal morava um casal. Sem filhos. Marido e mulher gostavam de viajar, sempre juntos. Raramente um viajava sozinho. Quando isso acontecia, já haviam combinado a troca de correspondência, contando as belezas do lugar, as companhias, os passeios.
E aconteceu que, certa vez, só a mulher viajou. Muita gente foi até a estação, para as despedidas. O marido ficou triste e os amigos, também.
Como haviam combinado a troca de correspondência, ele ficou ansioso. O tempo foi passando e a mulher não mandava cartas.
Foi daí que ele tomou da caneta e passou a escrever-lhe. As cartas voltavam. O carteiro sentia a mesma tristeza dele, a cada dia que portava uma carta de volta.
E assim o tempo continuou passando. Muito tempo.
Uma tarde o marido também viajou. A estação ficou cheia de amigos. Um a um se despediu dele, dizendo, com muito sentimento, um adeus.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Valores Antagônicos


VALORES ANTAGÔNICOS
Elda Nympha Cobra Silveira

Uma moça gostava de passar as tardes numa joalheria muito famosa internacionalmente. Ela se deslumbrava com os brilhantes, pérolas, esmeraldas e por aí afora. Certo dia convidou seu namorado para ir conhecer a loja que tanto admirava. Esse casalzinho apaixonado foi entrando só para ver as jóias expostas nas vitrines dos balcões, forrados internamente de veludo preto e outros de veludo vermelho. Os olhos da moça faiscavam deslumbrados com tanta beleza. Ela pediu ao balconista para experimentar um anel cravejado de brilhantes mas ele titubeou, fazendo uma expressão de dúvida, perguntando ao casal quanto eles poderiam dispor para a compra dessa linda jóia.Um olhou para o outro e encabulados mostraram o que tinham, ele procurando no seu bolso e ela na sua bolsa, juntavam-se uns duzentos reais.
O balconista pensou que era uma brincadeira, mas à medida que o casal conversava entre si ele foi percebendo que o amor entre eles era muito grande, alias grande e cheio, não vazio como seus bolsos.
Condoído com a expressão de pesar da moça, deu-lhe então um brinde que era um anel
de latão dentro de uma caixinha. O casalzinho agradecido saiu muito contente com a atenção e carinho do balconista e o moço foi colocando-a dentro do seu paletó.
Saíram felizes da loja depois de verem tantas atitudes bondosas do atendente já de meia idade. Não esperavam esse acolhimento advindo de um funcionário de uma loja tão requintada, pois pensaram até que seriam enxotados da loja quando mostraram suas pequenas posses.
O balconista ficou feliz por encontrar esse casal tão amoroso e tão diferente dos homens que vinham com suas amantes gananciosas procurando obter deles as jóias mais caras possíveis.
Ele ficou meditando:-“ Esse casal tem uma jóia inestimável que é o amor e não está se dando conta disso! Quantos fregueses da joalheria os invejariam, porque tinham os bolsos cheios de dinheiro mas os corações vazios.”

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Reunião na casa da Ruth

Primeira reunião de 2010 na casa da Ruth para acertar os últimos detalhes do livro de contos e crônicas "Tardes de Prosa"
Leda, Madalena, Ana Marly, Ruth, Aracy, Elda, Ivana, Lidia e Raquel