As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

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Com o escritor Ignacio Loyola Brandão

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Reunião na Biblioteca

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Carta aberta para Simone de Beauvoir*


Olivaldo Junior


            As mulheres aí estão, Simone, ainda sofrendo abusos, sinais de um tempo que parece eterno, o da subjugação do sexo feminino pelos homens. Soltam-se as amarras, mas a marca da violência se incorpora nos braços que embalam as crias da humanidade. Humano não é sinônimo de compaixão. Humano é sinônimo de barbárie, quando muito controlada, pois o mundo, embora fêmeo na essência, se deixa externar sob a máscara infértil dos homens da Terra. A Terra, a vida, a alma, tantos substantivos de raiz feminina, mas o mundo, Simone, quer a marca dos falos, a mística falsa dos grandes senhores em terras de escravos e de “mulherzinhas”, suas senhoras. Ora, ora, o tempo é uma bússola que se encabula. E, mesmo que as vírgulas sobre os prós e os contras de um e de outro sexo se despetalem da Filosofia, um e outro, Simone, deveriam ser grandes, porque ambos são unos, mas muitos não entendem que as mulheres são donas e mandam na casa que a Vida forjou. Forjara sua vida, Simone, com as tábuas de um amor que perdurou toda a existência. Experimentou as pessoas e fora experimentada por elas, num banquete explícito de vida, vida e mais vida, que só a vida aos vivos cabe. Coubera no quarto das mulheres que a leram, na sala dos homens que a souberam, na rua dos tantos movimentos, feministas e contra o oposto sem nexo que oprime, subtrai e maltrata a quem os dera à luz. Luz, Simone, é de que o mundo, ensolarado e sem óculos, precisa e precisará por um bom tempo. O tempo é a bússola de que se deve abusar, para que se aprume o rumo das musas que descem do Olimpo e querem só ser.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Convite - Lançamento do livro de Caio Carmacho

Mais sobre o livro aqui

domingo, 12 de janeiro de 2014

CRIANÇAS e DINHEIRO


         Dirce Ramos de Lima

Crianças e dinheiro
existem no mundo inteiro,
só mudam de valor
e de cor...
Estão sempre nascendo;
crescendo,
vivendo...
E não é o amor que movimenta o mundo?
Exatamente assim!
Enquanto houver muitas paixões e ganância,

Nosso planeta não terá fim!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Sobre o burrinho azul

Olivaldo Junior


"O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar. (...)

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Rua das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)"
Cecília Meireles, in O menino azul



            Nunca tive um burrinho azul. Mas, algumas vezes, pensei que o tive. Um burrinho azul é um amigo a quem se contam as coisas do mundo interno, o mundo inteiro de si. Um amigo é um burrinho azul que se fez gente para encantar alguém. Bem que eu sabia existir um burrinho desses, no entanto, me engano, não há. Há burrinhos de cores sem a cor do céu claro de dias assim, quentes e plenos de luz, luz da amizade.
            Amigos são coisas que existem, mas nunca se encontram, como um burrinho azul. Você já viu um? Há burrinhos que tem cor de burro quando foge, e, desses, tenho visto muito. Outros são burros de cor de burrinhos de carga, os mais comuns, nem um pouco azuis. Azul, sem nuvem, apenas o ensejo de ter um amigo assim. É, deve ser bom ter um amigo que o venha ver no Natal e no Ano Novo e lhe dê o ar da graça sempre que possa, para que, juntos, cantem um pouco de música antiga, de Tom e Vinicius, ou de modas caipiras, que, no meu peito, também mora um caboclo, um burrinho azul.
            Um amigo, meu amigo, é o que pensei que fosse: uma aquarela doce, com as cores todas de um grande abraço. Sofro, amigo, e o coração, escuro, não fica azul. Há julgamentos frios sobre o que escrevi, sobre minhas trovas e meu jeito obscuro de me deixar ser. Sou, amigo, o que se fez amigo. Não o bastante para que um burrinho da cor do mar se fizesse amigo. Azul, o dia se perde em outras cores. Onde meu burrinho?

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

SIMPLICIDADE


Plinio Montagner


É bem simples a alegria e levar a vida numa boa. Basta não complicar, não inventar.
Um estado de espírito tranquilo é uma resposta de que a vida vai bem. Projetos, sonhos, conquistas, dinheiro, poder, é claro que tudo isso é bom, mas não é receita cem por cento segura para se ficar rindo à toa.
A verdade é que quanto mais se tem mais problemas aparecem. Só mesmo na idade da reflexão é que as pessoas percebem que as alegrias vêm quando menos se espera, e brotam nas coisas simples. Quem não aceita, ou não gosta, de um abraço, um beijo, um telefonema, uma piada, um cartão delicado? E tudo isto é barato e não custa nada.
Um professor de melancolia me disse que as melhores coisas da vida são de graça.
Tive um amigo excêntrico. Exibia a simplicidade de mendigo e ao mesmo tempo arrogância de rico incivilizado. Não perdia oportunidade de se gabar - seu saldo bancário, suas aplicações e bens. Chinelo de dedo, camiseta furada, short velho, cabelo desalinhado. Vivia assim.
Sua casa enorme não abrigava pessoas, nem amor, nem flores. Era silenciosa, vazia. Vestia-se como miserável, não por humildade, mas por avareza.  Morreu aos 74 anos, sozinho, encontrado pela faxineira.
Sua esposa e filhas não compartilhavam essa idiossincrasia esdrúxula. De que valeram a opulência e o egoísmo?
A fortuna oferece muito pouco, ou nada, a quem não ama, nem é amado. De que vale um vagão de ouro se a doença nos pega?  Existe algo melhor a quem não tem dor nenhuma?
Resumindo: As alegrias da vida começam com a saúde, paz familiar e na convivência com amigos. O lema da sabedoria é esse: Viver intensamente o hoje; o futuro é incerto e, com certeza, não será longo para todos. Por que não fazemos como os sábios que se arrebentam de alegria só por estarem vivos?
Esta citação é da escritora Clarice Lispector: “Sorrisos e abraços espontâneos me emocionam. Palavras até me conquistam temporariamente. Mas atitudes me ganham para sempre.”
Aprende-se que não é preciso ir longe para se sentir bem. Pode estar em nosso quintal, não em Machu-Picchu.
Outro amigo querido diz que uma das coisas de que mais gosta é pescar numa lagoinha, ou num pegue-pague, enquanto outros preferem a Patagônia.

Cada um se diverte com o que tem e como pode. E com o juízo que assimilou.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

TRANSIÇÃO



Eunice Zem Verdi

Hoje, meus pensamentos,
voltados para a vida,
sua brevidade e finitude.
Estamos sempre no limiar,
das chegadas e partidas,
encontros e despedidas,
permeados de sonhos,
esperança, realizações...

E o tempo, marcador veloz,
arrasta lembranças...
frustra a ilusão.
Não há porque adiar...
Cada dia uma lição,
um convite à reflexão!

Lanço um olhar ao ontem...
Já vai tão distante!
Detenho-me no presente,
vivo-o intensamente,
sorvo cada gota,
cada instante de felicidade!

O amanhã, está por vir,
com toda surpresa...
Mistério a ser revelado!

Seria a vida um sonho?
Ou uma grande ilusão?
Assim viajo pela vida,
em busca de novos caminhos.
cada ponto de partida,
sempre alguém está chegando,
Outros seguem o destino,
somos sempre passageiros,
companheiros a transitar!
Ideais a partilhar!

sábado, 4 de janeiro de 2014

Retrospectiva 2013 - Literatura em Piracicaba

(fotos do acervo de Ivana Negri)
Dia da Poesia
Março
14 de março - Dia da Poesia – aconteceu a tradicional distribuição de poesias em vários locais da cidade
15 de março - Lançamento do livro de poesias para crianças “Brinca, brinca e faz poesia”  das escritoras Ana Marly Jacobino, Raquel Delvaje, Leda Coletti, Lidia Sendin, Luzia Stocco e Madalena Tricânico
30 de março - em reunião do Clip Ivana Negri falou sobre a vida e obra de Lygia Fagundes Telles

Lançamento do livro em Braille para crianças
Abril
Lidia Sendin ganhou 1º lugar no Concurso de Poesias de Capivari
12 de abril - Ivana Negri, Carmen Pilotto, Leda Coletti e Maria Emília Redi ( in memoriam) lançaram o livro infantil em Braille “4 contos em 4 cantos” no Museu da ESALQ. O livro, patrocinado pela FEALQ foi doado a instituições que trabalham com deficientes visuais
27 de abril - a escritora Maria Cecília Figueiredo falou sobre a vida e obra de Monteiro Lobato na reunião mensal do CLIP
Medalha MMDC
Medalha MMDC
Maio
17 de maio - Henrique Borlina autografou seu livro “Com as borboletas, à noite”, na Biblioteca Municipal
Armando Alexandre dos Santos falou sobre a vida e obra de Brasílio Machado no POESIA AO VENTO
25 de maio – a escritora Carmen Pilotto falou sobre Cora Coralina no CLIP
23 de maio - Ivana Negri e Cesário de Campos Ferrari foram agraciados com a Medalha de Mérito Cultural pelo Núcleo MMDC/Piracicaba
Lançamento da  7a revista da APL
Junho
21 de junho – Irineu Volpato falou sobre vida e obra de Nhô Serra
29 de junho - João Athayde falou sobre Castro Alves no Clip
28 de junho – Lançamento da 7ª Revista da Academia Piracicabana de Letras

Dia do Escritor 2013
Julho
Foram selecionados para o Mapa Cultural Paulista: Carmen Pilotto, Leda Coletti, Ivana Negri, Newman Ribeiro Simões, Raquel Delvaje, Caio Carmacho, Camilo Quartarollo e Luzia Stocco.
25 de julho Dia do Escritor – foi comemorado na Rua do Porto com a presença de diversos escritores piracicabanos com distribuição de livros autografados e outras atrações
Adolpho Queiroz autografando junto com Letícia Ciasi o livro "Balas não matam ideias"
Edson Rontani Jr e Evaldo Vicente - Nhô Quim
Irineu Volpato e Silvia Oliveira
Agosto
20 de  agosto - Lino Vitti recebeu a medalha de mérito cultural da SEMAC
24 de agosto - Lançamento dos livros "Nhô Quim" de Edson Rontani Jr e "Balas não matam ideias" de Adolpho Queiroz e Leticia Hernandez Ciasi
26 de agosto - Irineu Volpato e Silvia Oliveira lançaram respectivamente os livros “Derradeira Plumagem” e “Tessituras”
Leda Coletti lançou o livreto de poemas “Louvar e agradecer” com prefácio do Monsenhor Jamil Abib
lançamento do livro Paulistenses de João Umberto Nassif
Setembro
2 de setembro - Raquel Delvaje falou sobre vida e obra de Florbela Espanca
11 de setembro - Elias Jorge Autografou seu livro “Sempre haverá um novo dia”
13 de setembro -  Lia Helena Gianechini lançou seu livro “Doido, eu?”
27 de setembro - João Humberto Nassif lançou o livro  PAULISTENSES em dois volumes
Escritores piracicabanos participaram pela primeira vez do evento nacional “Um poema em cada árvore”, simultaneamente em diversas cidades brasileiras
Um poema em cada árvore
Outubro
Elda Nympha Cobra Silveira recebeu Menção Honrosa no Prêmio Escriba de Contos
Cassio Negri premiado no Concurso de Contos da Associação Médica Brasileira
Elda Nympha Cobra Silveira foi finalista no concurso de  Poesias sem Fronteiras. José Airton Mellega foi selecionado no mesmo concurso
Cassio  Negri foi classificado em terceiro lugar no Concurso de Contos da Associação Médica Brasileira (AMB)
Lançamento da revista no 8 da APL
Novembro
Elda Nympha Cobra Silveira ganhou menção honrosa no Escriba de Contos
29 de novembro foi lançada a 8ª Revista da Academia Piracicabana de Letras
Lançamento do livro de Samuel Pfromm Netto “Dicionário de Piracicabanos”

Luzia Stocco - lançamento do livro de poesias "Atemporal"
Dezembro
13 de dezembro- Luzia Stocco autografou seu livro “Atemporal” no Ponto de Cultura Garapa
14 de dezembro - Confraternização de final de ano dos grupos literários
Confraternização de final de ano

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Recomeços


 Adenize Maria Costa 

Por várias vezes a vida nos impele ao recomeço, nas suas mais variadas formas, seja pela perda de uma pessoa querida, seja por uma situação de desemprego, fim de um namoro ou talvez por uma simples mudança de residência... Não importa, pois no fim das contas é sempre uma oportunidade de recomeço.
O problema é como reagir a esses acontecimentos, nem sempre sabemos e muitas vezes sofremos demasiadamente e no fim chegamos à conclusão que não foi tão difícil assim, que era só uma questão de tempo... Costumo dizer que o tempo é o senhor de muitas curas; como dizia minha avó: “o vento do tempo sopra e faz esquecer o tanto que sofremos”.
Refletindo sobre meus parcos projetos para o ano que acabou de começar lembrei-me que, na minha infância, quando ia passar férias na casa da minha mãe, pegávamos o trem "das quatro e quinze" (horário que passava o trem lá em Tupi). Lembro-me que entrava no trem chorando copiosamente pensando em tudo eu estava deixando pra trás, principalmente nas pessoas que ficavam: minha avó, minha tia, meus amigos de infância, pensava nas nossas brincadeiras, em nadar no lago ou Rio Piracicaba, não podia imaginar que se divertissem sem mim. Esse sofrimento se estendia até pouco depois da partida do trem... Assim que ele começava fazer a grande curva do bairro "Quebra-Dente" eu já começava a pensar no que me esperava lá em São Paulo: minha mãe estaria me esperando, minhas irmãs estariam lá para nós brincarmos, ouvir as histórias que minha irmã Adriana contava (e conta histórias até hoje); antes de chegar à estação de Caiuby o choro já tinha parado e já pensava em chegar logo na Estação de Vinhedo onde eu teria o luxo comprar uma coxinha e guaraná-antártica e assim de estomago cheio e agradecido por tão luxuoso lanche, com a alma cheia de expectativa e de saudades lá ia eu em férias para a capital...
Acredito que essa recordação que me ocorre nesse momento é totalmente pertinente já que muitas oportunidades surgirão no ano de 2014. Haverá insegurança e sofrimento, sem dúvida. Se o sofrimento nos visitar, lembremos que as dores da insegurança ou da despedida serão muito fortes enquanto o trem estiver parado nessa estação, não tem jeito... Mas posso lhe garantir que depois da primeira curva o coração já começa a encher-se de esperança porque algo novo nos espera na próxima estação... Esse é o bom da vida! Através dos recomeços a possibilidade de vislumbrar algo novo e sempre haverá a possibilidade do novo se nos colocarmos nas mãos Daquele que faz novas todas as coisas. Que seja um bom ano! De muita paz, saúde e de muitos recomeços pra todos nós!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Adelle


Christina Ap. Negro Silva

Abriu uma porta. Nada. Outra e mais uma. Nada. Ouvira  aquele barulho novamente e vinha do andar de cima. Parecia o ronco de um despertador do celular – há dias o escutava e não conseguia identificar sua localização. O que seria aquilo? Não se lembrava de ter deixado  nenhum aparelho ligado nos cômodos da casa. Era sim uma casa grande e velha, já estava mobiliada quando se mudara ali há tantos janeiros, que nem mais se lembrava com exatidão do ano. Àquela época, tinha verificado em todas as gavetas, portas de armários e não se lembrava de ter visto nada além do mofo nas paredes. Estava só, completamente só. Este incidente, porém, até trouxera-lhe algum alento – tinha algo para ocupar –se : descobrir o causador do barulho.
O que parecia uma brincadeira, com o passar dos dias, tornou-se uma obsessão – era preciso encontrar a COISA SONORA a qualquer custo. Planejou com cuidado de detalhes sua inspeção pela casa – ou melhor, pelo andar de cima, pois tinha certeza de que o som vinha dali.
Primeiro o banheiro, palmo a palmo vasculhado – dentro do armarinho, encontrou apenas a pasta e escova de dentes e um velho aparelho de barbear – Será que funciona ?  pensou, enquanto o colocava na tomada ... rooommm – gemeu o dito sob suas mãos . Como o jovem imberbe que anseia por fazer sua primeira barba, levou-o com cuidado à face enrugada. Sensação boa, lembranças de um tempo engravatado, trabalho de abotoaduras, vida apressada em pasta de couro. Desligou-o e voltou à sua obstinada tarefa. No banheiro não estava.
O quarto da filha, sua próxima parada. Entrou devagar, talvez com receio de acordar as recordações que ali jaziam. A filha tinha casado há dois anos, mas seu perfume ainda rescendia nas paredes. Parou um instante para observar ao redor – teto claro, chão limpo e encerado, cama arrumada, escrivaninha organizada, penteadeira vazia. Onde havia guardado a imagem da filha na moldura do espelho que lhe sorria? Agora, parecia que a via ali, presa em um tempo-espaço de sempre – atenciosa para com ele quando  a procurava para uma conversa, uma dúvida, um carinho em palavras. O silêncio, porém, reinava implacável. Vasculhou tudo, nada encontrou. Receoso, foi andando de fasto, pés  para trás, para não se despertar daquela memória: a filha sorrindo, penteando seus cabelos, passando o batom, o som cálido de sua voz de menina-moça. Chacoalhou a cabeça, ele tinha um propósito, não devia dar-se ao desfrute de sentir essas sensações todas, não depois de tudo o que lhe havia ocorrido.
O quarto do casal – nunca mais tivera coragem de penetrar seu corpo naquele recinto, sua alma o visitava com frequência, isso sim, mas a carne, o sangue, todo seu ser, arrepiava-se ao tocar na maçaneta da porta. Mas agora, não tinha jeito, ele precisava encontrar a COISA SONORA. Fechou os olhos por um instante e tocou a porta, empurrando-a com força. Talvez quisera espantar a imagem que tinha diante dos olhos da sua recordação – a mulher sem vida jazia naquela imensa cama, seus brancos cabelos emolduravam seu rosto pálido e sereno. De um salto, pulou sobre a cama vazia, chorando como uma criança que tem seu brinquedo arrancado à força. Que saudades ! Quanta falta sentia dela. Quantos beijos secos, abraços estragados, palavras ocas ,  o tempo – este inexorável senhor – levou embora ? ! A solidão era sua melhor companhia, se não fosse aquele terrível barulho a tirar-lhe da zona de conforto que sua nova amante lhe propiciava, ele jamais teria entrado no quarto do casal.
Tramm- trammm- ouviu o som tão perto. Ah, então era ali que ele brincava de pique esconde ? Foi aproximando-se mais e mais do criado mudo. O diário da esposa cuidadosamente deixado sobre o tampo, seus óculos de leitura ao lado, a gaveta entreaberta e ... ali estava o que tanto procurava ! Um pequeno porta-joias de madrepérola – trammm- trammmm  - tremeu o maldito. Até que enfim, a busca estava terminada. Mas o mistério persistia. Depois de tantos anos , como a corda ainda funcionava ? ou melhor, emperrara , provocando o barulho do desassossego ? Pegou o objeto nas mãos e deu-lhe cordas – uma melodia, uma valsa vienense ou algo parecido, encheu o quarto. Ele deixou-se bailar nos pensamentos. Viu-se jovem, elegantemente trajado,  tirando a menina de cabelos encaracolados para dançar. Valsou pelo salão, sussurrou-lhe palavras de amor...Valsou pela cidade, viu-se bem sucedido em seu negócio. Valsou pela vida – viu-se novamente só, sem a mulher amada, sem qualquer humana companhia, tocou o diário e ato contínuo, viu-se abrindo o caderno e lendo o último registro feito – Querido, sei que um dia você acabará por encontrar-me (...) aqui , você estará com meu amor em palavras escritas. Eu sabia que partiria antes de você, (...) não fique triste, vivemos felizes e isso é tudo o que importa. Por favor, nunca se esqueça de mim, de nós, do que fomos (...) Com carinho, tua Adelle.

Meu Deus ! Ela já sabia que estava morrendo. Ele fizera segredos, proibira as visitas dos parentes, ela fora tão forte. Chorou, soluçou, chamou-a pelo quarto vazio, passou não se sabe quantos minutos naquele estado de descoberta e saudade. Por fim, carregando o diário e o  porta joias, desceu para o primeiro pavimento. Agora teria sua Adelle a fazer-lhe companhia. Uma vírgula, porém, interpunha-se nesta sua nova fase de lobo solitário – como a corda do aparelho voltou a funcionar / emperrar depois de tanto tempo ?

ANO NOVO


Elda Nympha Cobra Silveira
                                  
Os Fogos de artifício
Explodem nos negros céus.
Traduzindo a alegria do povo.
É o ribombar da catarse,

Da esperança de algo bom
que abra os corações,
                       traduzindo novos anseios                      
que possam nos fazer
esquecer o que passou.

Junto a esse rojão
quero chegar mais perto de Deus
e dizer-lhe que olhe
por todos os filhos seus.


sábado, 28 de dezembro de 2013

Últimas trovas


Olivaldo Júnior

Quando vi a nossa foto,
desgastada, na gaveta,
vi nascer um terremoto
neste inóspito poeta.

Na valsinha da memória,
num coreto enfim desperto,
todo mundo vira história
e anoiteço em um deserto.

Meu amigo mais querido,
com histórias de aventura,
fez-se logo o preferido
da saudade que perdura.

Na historinha familiar,
o João chamou Maria,
e Maria, sem pensar,
fez a ele companhia.

Já perdi seu telefone,
só me vale seu e-mail:
hoje vivo só, “alone”,
sem a hora do recreio.

Quando a banda toca Chico,
fico alegre e, de repente,
muito mais tristonho eu fico,
porque tu estás ausente.

Para honrar o meu ofício
e “animar” a biografia,
vou pular no precipício
dos amantes da poesia.

Para o Ano Novo


Lídia Sendin

Quero o vai e vem das marés:
Altos e baixos, côncavo e convexo,
Nada linear, nada com nexo.
 Mais planícies cheias de montanhas:
Rios no meio do deserto,
Nuvens escuras, tempo incerto.

Dentro do silêncio, um ribombar fugaz:
O susto de um trovão,
O ritmo acelerado do coração.

Nada de “plácido repouso”:
“Brancas nuvens”, nunca mais,
Só passar por aqui, sem viver, jamais!

De que me adianta essa vã rotina:
Neurônios frouxos, sinapses petrificadas,
Mesmas ruas, mesmas caminhadas.

Não, ao mero desfilar de fatos:
Quero paixão, perplexidade,
Pois, para o descanso eterno,

Terei a eternidade.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Nós, relógios...


      Dirce Ramos de Lima

    Cada pessoa no mundo
             tem uma função,
    e vai vivendo metodicamente,
       cumprindo cada etapa
       da sua profissão,
    como relógios de parede
    rodando os segundos,
    minutos, horas...

Até que a pilha se acaba
 ninguém troca,
peça inútil,
 jogam fora,
  Nós, relógios humanos,
  também vamos embora:
   simples assim

   do começo ao fim...

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Ao pé da manjedoura


Maria Cecilia Graner Fessel 
  
Vem, meu Jesus Menino,
Me convidar pra brincar,
Tenho muito a aprender
Tens muito o que me ensinar.

Vem, ajuda-me a caminhar,
Abre as portas da Esperança,
Mas como ainda sou criança
Dá-me a mão prá lá entrar.
.
Sobe comigo nas árvores
Pois esqueci como se faz,
Vamos brincar na enxurrada
Que a chuva mais forte traz.

Vem comigo atrás da esquina
Espiar os namorados
E os amores de menina
Relembrar do meu passado

Carrega-me para saltar
Sem medo, neste meu chão,
Os buracos e as pedras
Que um dia talvez virão

Cresce, Menino, e me fala
Belas coisas do Teu Pai
Pois quando tua voz me embala

Toda tristeza se esvai.