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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Casas de Poços

Leda Coletti

Regina e Emília eram vizinhas. Moravam em casas geminadas na colônia de uma grande fazenda paulista, onde se cultivava em grande escala o café. Corria a segunda década do século XX.
Ambas eram jovens, solteiras e pertenciam a famílias numerosas, descendentes de imigrantes italianos. Dedicavam-se aos afazeres domésticos, pois os demais irmãos, cobriam as tarefas ligadas à lavoura do café e cereais.
Bem cedo todos acordavam com o sino da fazenda e antes mesmo do sol nascer, já se ouvia o ranger das carretilhas de cordas ou de correntes dos poços, trazendo os baldes cheios d’água, que enchiam pequenas bacias de alumínio para a higiene matinal. Engolindo um pouco de café preto, os colonos empunhando seus apetrechos de trabalho e o corote, se perdiam nos carreadores dos cafezais.
Para as duas moças, o dia era ocupado entre o preparo do almoço, levado quentinho por elas até à roça, o cuidado à roupa, lavada com a água tirada do poço e passada com o ferro em brasa. Também a limpeza da casa e o trato aos animais, exigia que impulsionassem as carretilhas dos dois poços, que abasteciam as casas da fazenda. Davam-se por satisfeitas por não precisarem como suas mães contavam, buscá-la no rio. Desde que foram abertos esses poços no meio da colônia, o serviço caseiro ficou mais leve, dispensando o peso do “bigolo”, ou então o uso da rodilha, improvisada com o aventa, quando transportavam a água da mina. Agora era mais fácil e rápido encher as barricas de carvalho que funcionavam como reservatório de cada casa.
Nessa época contudo estavam vivendo uma situação difícil. A seca estava brava e precisavam economizar a retirada do precioso líqüido. Os poços com profundidade de oito a dez metros não mandavam mais água limpa e em abundância. Foi então que se serviram das antigas tábuas de madeira para lavar roupas, dispostas no ribeirão. Tinham que ficar em posição incômoda para esfregá-las, torcer. Mas assim mesmo não reclamavam, pois ao mesmo tempo que as ferviam, ou as punham ao sol para alvejar, aproveitavam para conversar.
Naquele dia quente, só perceberam o temporal que se aproximava, quando um relâmpago , seguido do rastro de luz de um forte raio, as fez tremer de medo. Saíram as pressas, pois se fossem tomar quaisquer providências, poderiam tomar toda chuva que chegou forte, roncando.
Quando o furacão passou, voltaram depressa, mas receosas de que houvera estragos. Realmente o inevitável acontecera. O ribeirão se transformou em caudaloso rio e, roupas, tábuas, boiavam presas aos galhos da goiabeira, que felizmente escorou o mais que pôde os pertences daquelas jovens.
E a tromba d’água foi motivo de conversa por muitos dias, na hora de puxar os baldes de folhas de flandres cheios de água. O burburinho das vozes se misturava ao das carretilhas, que borrifavam de novo a água cristalina, fresquinha.

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