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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O licor irlandês

O licor irlandês
William Moffitt Harris

Eram já oito horas da noite e minha esposa lavava as coisas do jantar na cozinha. Ainda morávamos em Osvaldo Cruz na Alta Paulista. Resolvi telefonar para o colega e nosso amigo José Afonso Tavares e convidá-lo para bater uma prosa em casa. Também já tinha jantado.
Assim que chegou, falei:
Tavares, hoje é o Dia Nacional da Irlanda e meus irmãos e eu, como bons descendentes daquele estóico e bravo povo, costumamos festejar tomando um golinho, e apenas um golinho, de um licor que de lá veio especialmente para a gente. Tanto é, que dividimos a gar rafa em quatro e cada um ficou com um pouco. Nem rótulo minha garrafa tem.
Fui buscar nossa garrafa na despensa e me desculpei enquanto tirava o pó, porque só a pegávamos naquela data, uma vez por ano.
Tavares me acompanhava com o olhar. Era de falar pouco, quando atento.
Derramei um pouquinho em dois pequenos cálices para licor, tomando o cuidado de não passar da metade e informei:
Só tem uma coisa, Tavares: tome bem devagarzinho porque é forte; na verdade, é muito forte. Sabe como é o clima lá naquelas partes, Irlanda, Escócia, Noruega, etc. O povo lá está acostumado com coisas mais fortes do que a gente aqui nos trópicos, mesmo em fins de outono, como agora.
E, bem lentamente, dava o exemplo. Não tínhamos nenhuma bolacha típica irlandesa para oferecer, mas a Maria Lúcia tinha torrado um pouco de amendoim. Continuamos a conversar trivialmente e eu observava meu amigo de perto, porque sabia o quanto ele era influenciável por uma boa conversa.
Não deu outra.
Mas que bebida gostosa, William. Realmente é muito, muito forte. Acho que nunca tomei algo tão alcoólico em minha vida. E que sabor! Dá até impressão de ser de alguma dessas frutas exóticas dos Alpes que a gente nem conhece.
Dos Alpes, não diria, Tavares, mas, provavelmente, dos morros perto de Cork no sul da Irlanda, onde viveram alguns de meus antepassados.
Já tínhamos quase esvaziado nossos cálices, tomando o famigerado licor, de golinho em golinho, de permeio ao amendoim.
Que coisa forte, William. Sabe que estou até me sentindo meio tonto?
O que é isto, Tavares, imagine só se meio cálice deste vai lhe afetar. Eu servi só um pouquinho, principalmente porque o licor da garrafa precisa durar pelo menos por mais dez anos.
Não, fora de brincadeira, William, meu caro colega, já nem estou enxergando direito. Não vou nem tomar o restante. Acho que você vai ter de me levar para casa, depois desta. Amanhã cedo venho pegar o jipe.
Fiquei, realmente, preocupado. E se o Tavares despencasse e tivesse um coma hipoglicêmico psico-induzido?
Eta, doutor Tavares, sabe o que o nobre colega acabou de tomar?
Ué, você já não me disse que era um licor irlandês?
É, mas foi somente uma brincadeira. Acabamos de tomar Vinho Reconstituinte Silva Araújo Roussel do SARSA! Poderíamos tomar o vidro todo e, certamente, acostumados quen b somos a uma boa caipirinha que você me ensinou a fazer, nada sentiríamos.
Recuperou-se na hora e desandou a rir. Acendeu seu cigarro de palha e, entre tossidas, pigarreadas e baforadas, deu muitas gargalhadas.
Continuamos bons amigos até seu falecimento aos oitenta e cinco anos de idade em novembro de 2007. Deixou muitas saudades!


Primeira versão publicada no livro do autor ERA UMA VEZ UM MENINO TRAVESSO São Paulo: Legnar Editora, 2004 (esgotado). Apresentado, ligeiramente modificado, na 110ª Tertúlia Literária do Movimento Médico Paulista do Cafezinho Literário – MMCL no Núcleo de Santo André em 12/09/2009 (12ª reunião de Sto. André), na reunião “ Academia em Poesia” da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios “Frei Gaspar da Madre de Deus” de S.Vicente – SP em 14/09/2009 e também na tertúlia literária do Movimento Literário Saberes e Sabores – MLSS de 22/02/2010 em S. Gonçalo do Sapucaí – MG. Pediatra Sanitarista. Professor Doutor da USP (aposentado). Fundador (05/05/05) e Coordenador Estadual do MMCL. Membro Titular da Associação Brasileira de Médicos Escritores – SOBRAMES desde 2003. Membro Correspondente da Academia Maceioense de Letras (Cadeira 94 – José Afonso Tavares Filho) e Associado na Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios “Frei Gaspar da Madre de Deus” . Isto aconteceu em 1962. Mantivemos nossa amizade até seu falecimento em novembro de 2007. Seu nome foi perpetuado na Cadeira 94 da Academia Maceioense de Letras.