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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Caixa surpresa

Leda Coletti

O bisavô Nicolau, de bigode e cabelos grisalhos, não estava entendendo nada do diálogo dos bisnetos. Ouviu vagamente umas palavras estranhas: “deletar”, “backspace”, “out-look,” “pen drive”...
Não conseguia acompanhar a conversa dos guris. Achava-os um tanto distantes, por não quererem mais ouvir suas histórias do sítio do Pica-Pau Amarelo, nem mesmo se interessando tanto pelas pescarias aos domingos. Sentiu saudade do tempo em que os ajudava nas tarefas escolares. Gostava de ver seus cadernos, livros e, juntos, quebrarem a cabeça para resolver alguns problemas de Matemática. Sentia-se orgulhoso quando voltavam da escola e diziam:
- Bisavô, o senhor ensinou certinho aquela conta.
Agora, no entanto, andava aborrecido e se sentindo abandonado, pois eles não o procuravam mais e viviam falando por códigos; também em relação aos programas de lazer. Os garotos que inauguraram a bandinha das crianças e adolescentes do bairro, se recusavam a tocar flauta e sininho.
-Isso já era, Bisa.
Em vez de tocarem tais instrumentos, preferiam os de percussão, num som altíssimo, o qual atrapalhava seu sono noturno. Sim, porque os guris ensaiavam as músicas no velho porão da casa.
Um dia, eles lhe apresentaram aquela caixa que, além de ser grande novidade, fazia quase tudo em matéria de escrita. Mas não era só nessa área; além de ver lindas ilustrações, ouviu músicas antigas, modernas e as notícias atuais. Era uma segunda televisão e com mais possibilidades de escolhas de programas.
Vibrou quando os bisnetos lhe mostraram a velha Itália, focalizando aspectos culturais e até cidades próximas daquela onde nasceu. Então ele matou a charada, do motivo pelo qual andavam desinteressados por alguns assuntos e distrações, que os ocupavam anteriormente.
Quis também aprender a lidar com aquela geringonça. Começou a dispensar até a tevê colorida. Não demorou muito para se tornar mais um novo internauta. Não acreditava que, com os seus oitenta e oito anos de vida, fosse aprender algo tão interessante, e graças aos pestinhas queridos, seus amados bisnetos! Aquela caixa, batizada como computador, passou a ser para ele a maior invenção dos últimos tempos.
Hoje, o bisavô Nicolau, satisfeito da vida, diz aos poucos colegas de sua idade, quando estão matando o tempo no banco da praça:
- Preciso ir andando. Vocês não fazem ideia, colegas, como estou a viajar ultimamente!
E, despedindo-se deles, convida-os:
-Querem ir até à Itália? Eu vou navegar até lá, agora mesmo.
Os companheiros, ainda alheios às peraltices do colega Nicolau, nada entendem e observam após sua saída:
- O amigo Nicolau deve estar caduco, ou, pior, pirou de vez.