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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Alma gêmea


Alma gêmea
Eloah Margoni


Assim como Dora Carrington e Lytton Strachey me sinto em relação a você. Isso sem ser eu pintora nem você gay, e mesmo morando em cidades separadas há tantos anos; às vezes, residindo também em países diferentes... Dentre diversas, várias pessoas tão queridas e chegadas, essenciais em minha vida, você aparece como fonte d` água, uma luz primordial. Não me lembro, e acho isso muito engraçado, do dia ou da hora nem da circunstância na qual nos conhecemos, talvez porque tenha sido algo natural e complementar, ou quem sabe porque você estava metamorfoseado, disfarçado e não o reconheci de imediato. Por outro lado, não nos identificamos por razões sexuais nem eróticas. Penso até que seria impossível vivermos juntos, mesmo só dividindo espaços. Trata-se a ligação importante que tenho com você, de falarmos a mesma linguagem, ou melhor, você traduziu para mim mesma, há tantos anos, desde que era eu jovem, minha própria voz! Tudo o que eu sabia silenciosamente, o montante com o que sonhava, as questões que intuía em relação ao planeta ou tudo que viria a ser como filha deste. Sintonia com a Terra, você a decodificou em mim e a alimenta ainda.

Na época em que o conheci era eu humanista. Depois, com o tempo, percebi que tinha de fazer A Escolha de Sofia. Todos nós, os sensíveis, temos de fazê-la de certa maneira, mas o lado para o qual caminhei foi com sua bússola, seu norte, com seu sextante, seu GPS ou seja lá o que for, modernamente falando.

Incrível que nunca tenhamos sequer discutido, nem nos anos em que convivemos bem amiúde! Mas o discípulo não discute com o mestre. Como pessoa, posso ver-lhe defeitos variados, assim como eu os possuo, mas isso não interessa.

Da última vez em que nos encontramos, foi num setembro um pouquinho friorento, num dia brusco com um ventinho triste e irritante. Jamais eu vira um setembro assim naquela cidade de clima aprazível e quente, mas as mudanças climáticas que tanto anunciamos e lutamos para evitar, finalmente chegaram, e aqui, abro um parêntesis para dizer que, ao constatá-las, bem como à espoliação dos recursos naturais, o que previmos e procuramos, desde há décadas, prevenir, nos está enlouquecendo. Fecho parêntesis.

Naquele dia ao qual me referi acima, sua casa tão querida para você e familiar para mim, agora usada como estúdio ou centro de estudos, me pareceu um pouco desolada. Grande, de boa construção, mostrava-se meio largada e estranhei que a deixasse assim até a desvalorizar enquanto imóvel, mas isso não importava porque você lá estava! A grande biblioteca, cheia de estantes atulhadas de livros de cima a baixo, colocada fora da casa, apertada no seu espaço limitado, me fazia indagar porque a mesma não fora transferida para outros cômodos da residência, que se mostravam quase vazios, mas não era relevante na verdade, pois você se achava entre os livros, numa mesa sem grande conforto ou dimensão, ao lado do computador. De pé, entre as estantes, esperei por você quando o telefone tocou e era uma mulher que tentava seduzi-lo e o aborrecia. Você, que sempre foi amado das mulheres, repelia zangado a insistência daquela, mas ao fazê-lo demorava-se na conversa e até lhe dava, assim, em sua ênfase negativa, certa atenção. Particularmente achava aquilo esquisito, aguardando-o emparedada pelos livros, mas isso pouco me incomodava, pois você permanecia ali. E assim lhe peço agora, encarecidamente, meu amigo e mestre, que aí permaneça por muitos e muitos anos, e definitivamente enquanto eu ainda existir!

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