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sexta-feira, 25 de junho de 2010

La Veronica


La Veronica (in Tardes de Prosa)
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto

“Qual è colui Che forse di Croazia viene a veder la Veronica nostra,
che per l’antica fame non sen sazia ma dice nel pensier, fin che si mostra
‘Segnor mio Iesù Cristo, Dio verace, or fu sì fatta la sembianza vostra?;
tal era io mirando la vivace carità di colui che’n questo mondo,
contemplando, gustò di quella pace” Dante Alighieri – Divina Comédia
Paradiso, Canto XXXI, versos 103-111


O cânhamo guardou o semblante de Cristo cravado pelas dores da humanidade. Reservado no baú de cedro mar­chetado, perpetuou-se por séculos como discreto relicário, na li­nhagem daquela que afagara com ternura os vincos do Senhor. Oculto pelas estirpes que repassavam em sussurros o segredo aos primogênitos no leito de morte, designando-os da misteriosa mis­são, sempre como ritual na derradeira fala da noite de vigília do moribundo.
Assim, naquele rincão da Galiléia, o pano sagrado resistiu aos tempos e a ambição dos homens até aquele fatídico 11 de setembro de 1977.
Samuel, após a revelação do pai, abriu a caixa desgastada e vasculhou com os olhos da ambição a relíquia que lhe fora confia­da, ignorando o último desejo de seu progenitor. Estendeu sobre a mesa o tecido em estado perfeito. Sequioso pelo dia seguinte recos­tou-se no travesseiro ao lado do leito de Safir. Não se incomodava com a barbárie que pretendia cometer, assim que pudesse comer­cializar o bem precioso que suas gerações o haviam aquinhoado.
Dormiu um sono entrecortado por sobressaltos e no tor­por do ambiente do inconsciente, sentiu um suor copioso em suas têmporas, tomou como um autômato o pano a seu lado e tentou enxugar a própria testa.
A visão terrificada do sofrimento de Cristo tresloucou-o, en­tretanto imobilizado não conseguia reagir aos cravos que perfuravam sua própria testa e esvaíam em sangue suas veias expostas. O gosto do líquido vermelho adentrava nos lábios copiosamente. Em suas costas sentia violentas chibatadas que queimavam veleidades.
Acordou aos gritos... No quarto, na penumbra, não se apercebia mais da respiração do pai, ele havia partido. Sobre as mãos do progenitor a pequena caixa vazia continha apenas alguns cravos enferrujados e um amontoado de pó de cânhamo...

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