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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Mãe Negra


Mãe Negra
Leda Coletti

A velha escrava cansada pelos anos de trabalho cochilava na cadeira de balanço. Já não tinha a vivacidade nos movimentos, como no passado. Felizmente os filhos do patrão, o sinhozinho e a sinhazinha, já se tornaram adultos e não precisam mais dos seus cuidados. Ambos estão casados e distantes da fazenda que os viu nascer. Não a levaram para tomar conta dos filhos pequenos. No seu íntimo entende que, a “ preta velha não serve mais para olhar crianças; nem mesmo para os serviços mais leves tem condições físicas para fazê-los”.
Entre um rápido cochilo e o despertar, mãe negra deixa que as lembranças lhe façam companhia. Algumas não gosta de evocar, como por exemplo a sua viagem no convés de um navio (merecia o nome de cargueiro), pois ali se amontoavam velhos, adultos e crianças, todos chorando e já saudosos da África, que foram forçados a deixar.Chegando a um dos portos do Brasil foram vendidos pelos atravessadores, aos fazendeiros de café, cana, que detinham o poder econômico do país.
Comparando seu destino a de muitas outras mulheres, até que teve sorte, pois ficou pouco tempo compartilhando com os demais escravos, a escura senzala daquela extensa fazenda de café. Logo foi levada para servir os senhores no casarão.
Já moradora da casa grande ouvia os gemidos dos compatriotas sendo açoitados nos pelourinhos, pelos capatazes impiedosos. Nesses momentos, uma vontade imensa se apoderava dela: a de poder evitar tais castigos, mas não tinha coragem suficiente para enfrentar o patrão. Só restava chorar e rezar no escuro do seu quarto.
Não podia reclamar, desde que se afeiçoara à patroa e principalmente às crianças, que amava como se fossem seus filhos: passou a cuidar deles como verdadeira mãe. Casar não casou. Bem que gostou de um irmão de sangue, mas este foi vendido para um senhor de engenho, distante deste local. Nunca mais soube do seu paradeiro.Vivendo isolada dos seus, permaneceu solteira.
Agora já idosa recebeu dos patrões uma pequena casa para morar, em pagamento do muito que fez. “ Seria esse o prêmio que mereceu por causa de uma tal lei Áurea?” Ouviu qualquer coisa sobre isso, mas como é analfabeta, não entende bem o significado da mesma.
E sem muito ambicionar se sente feliz assim: ficar balançando na sua cadeira, relembrando as peraltices das lindas crianças, seus filhos do coração. “Como era bom aquele tempo” fala baixinho, deixando antever um sorriso misto alegria-tristeza!

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