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terça-feira, 22 de março de 2016

Dia Mundial da Água: Gênesis 3:19


22 de março: Dia Mundial da Água
Olivaldo Júnior

        Todos naquele pequeno vilarejo sabíamos que, na verdade, viemos mesmo da água. "Contrariando" o ditame bíblico, em Gênesis 3:19, que diz "[...] porque tu és pó e ao pó da terra retornarás!", o povo daquela pequena aldeia e eu acreditávamos mesmo é que tínhamos vindo da água. Nossos olhos, quando nosso peito transbordava emoção, vertiam o quê? Água. Nós, antes de nascermos, ainda em gestação, no ventre da mãe, vivíamos em quê? Em água. Quando trabalhávamos muito, quando pressentíamos o perigo, o que nossa pele exibia? Água. Portanto, por mais que não quiséssemos, só sabíamos que éramos água, néctar divino da vida.
        Foi que, naquele pequeno lugar, morava uma moça muito bonita que se havia casado há pouco tempo com um rapaz também muito bonito. Assim, em poucos meses de casados, a cegonha os visitava e, do fundo das águas do Céu, lhes trazia um bonito menino, o qual chamaram Davi. Davi era cheio de vida. Quando seus pais iam lá pro riacho, o menino parecia um peixinho, contente em nadar sobre os braços do pai. Quem nunca se sentiu assim no mar da existência, constantemente amparado por Deus ao cruzar oceanos, intensas marés, que mais arrastavam para o fim que para um novo começo? Pois é, o pequeno Davi era assim, um nadador nato.
        O povo da aldeia em que morávamos era muito temente a Deus e a suas leis. Mas, de uns tempos para cá, um mistério tomou conta dos arredores da vila e pôs muita gente descrente. Uma seca terrível levou as flores e os frutos para longe das mesas de cada amigo de lá, deixando muitos sem pão e, ainda pior, sem água. Quem tinha cisterna, quem tinha poço, quem descobria um lençolzinho d'água ainda se arranjava como podia; entretanto, quem precisava da chuva e do rio para a sede aplacar, pouco podia fazer. Com a precisão bem à porta, um vizinho se voltou contra o outro e, quem tinha água não queria dividir com seu próximo. Foi bem triste.
        O único médico da cidade havia partido para longe, e o período de seca se agravava. Uns culpavam Deus, outros o homem, outros a vida, que era sempre madrasta, mas em nada adiantava chorar: a seca, com sua boca voraz, devorava os cabelos do milho e, com eles, fazia perucas para o monstro da fome. Aquele belo casal era um dos raros que não tinham partido para outras margens, crentes em que Deus Pai mitigaria a sede dos Seus. 
        Davi, o bonito bebê de outrora, minguava dia a dia com a falta de comida e, sobretudo, de água. O rio em que nadava feliz havia secado suas íris e não sussurrava mais sua bela canção. Desesperados, seus pais não sabiam mais o que fazer com o pobre bebê. Batiam à porta de cada casa, mas, quando os atendiam, pouco lhe davam, nada de água. O homem, a mulher e o bebê mais belos do pequeno vilarejo em que eu morava se prostravam.
        Passados mais alguns dias, o casal, já sem forças, nem saía mais de casa. Juntos, na enorme cama de casal, o marido, a mulher e o pequeno filho entre eles formavam uma unidade perfeita, tão linda quanto uma molécula do tão sonhado líquido que já não tinham mais... Chorando, a mãe rezava, pedindo a Deus piedade, acompanhada do pai, que chorava também. Pouco a pouco, os olhos de cada um se foram fechando e, com eles, o céu também se fechou e, de um forte relâmpago que em nós soou seu trovão, caiu uma chuva que durou por três dias. Essa chuva, pelos buracos do velho telhado da casa em que o casal definhava, ressuscitou o marido, a mulher e o pequeno bebê, à beira do pó.
        Quando ficaram mais fortes pela água que tomaram pelas frestas das telhas, beijaram o filhinho com afinco e choraram bem mais, incutindo o sal do choro no açúcar da chuva sobre o mesmo lençol, de algodão, que era como uma nuvem para eles, que, assim como eu, sempre acreditaram que viemos mesmo da água, dos olhos de Deus, Que se voltam para quem chora quando o choro é da alma, que nada mais é que uma fonte, e deságua em nós.

21h06min

Mogi Guaçu, São Paulo, vinte e um de março de 2016.

Dia Mundial da Água foi criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas através da resolução A/RES/47/193 de 21 de Fevereiro de 1993,[1] declarando todo o dia 22 de Março de cada ano como sendo o Dia Mundial das Águas (DMA), para ser observado a partir de 1993, de acordo com as recomendações da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento contidas no capítulo 18 (Recursos hídricos) da Agenda 21 (Dia Mundial da Água, em Wikipédia).


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