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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

CARVALHOS E EUCALÍPTOS


Christina Negro Silva


 "O Educador educa a dor da falta cognitiva e afetiva na construção do prazer"
                                                Madalena Freire

Não atrelar autoridade (direito de se fazer  obedecer,  domínio , influência , exercício  do  poder - segundo  os  dicionários )  à  figura  do  professor  é  quase impossível  na  imaginação  dos  maiores  de  40  anos.Sentimos  na  carne  ou  o  sabemos  pelas  nossas recordações dos bancos escolares,  qual  o  “peso”   da autoridade docente : tapas, puxões de orelha e toda sorte de agressões que nós, crianças brasileiras éramos sujeitos. Nada mais coerente para aquela escola de então.
O escritor Viriato Correa descreve, no livro Cazuza, o temor que um grupo de escolares sentia por seu mestre. Por qualquer brincadeira em sala ou não compreensão da lição - hora de levar bolos nas mãos.  Bolos eram assim chamados os ferimentos produzidos pela palmatória - um instrumento de tortura muito empregado em nome da disciplina e respeito infantis.
Maus tempos!
Há que se lembrar da famigerada “vara”- empunhada pelos mestres, na Idade Média, a qual simbolizava “amor” aos pequeninos.
Outros tempos!
Não muito “antigamente” quando cursava a quarta série do I Grau (hoje chamado 5º ano do Ensino Fundamental), levei um tapa na cabeça porque, repulsivamente, tapei os ouvidos com as mãos por não suportar os gritos histéricos de minha professora que teimava em ensinar tabuada a um menino aos berros.
Foi-me difícil encontrar coragem para, aos dez anos, tentar reverter o quadro de opressão em que vivíamos, no dizer de Freire - a característica do oprimido é o medo de falar.  Contei o ocorrido à minha família. Meu pai tomou minhas dores e foi falar com o Diretor do Colégio, que, ao solicitar explicações à professora, foi surpreendido por sua atitude:chamou-me de mentirosa e expulsou-me, literalmente, de  sua  sala  de  aula.
Tempos dolorosos!
Quantos alunos deixaram a Escola vítimas de maus tratos? Quantos resistiram ao horror? Quantos reprovados tiveram que“ comer o pão que o Diabo amassou”  novamente no ano seguinte ?
Os tempos mudaram.
A  LDB reza sobre a Escola livre e democrática para todos. No seio de escolas públicas e privadas, entretanto, continua a haver  evasão, repetência, desinteresse em aprender, faltas, indisciplina como sempre - o que não condiz em nada com a  Legislação brasileira.
Há que se reinventar outra estrutura escolar. No dizer de Freire- a reestruturação da Escola,...implica na mudança da concepção do que é aprender, do que é ensinar e do que é  ser Educador.
E o que é ser Educador? É ter vocação para ensinar?  Ensinar o quê? Sobre isso, Rubem Alves nos diz
...vocações são como plantas. Vicejam e florescem em nichos ecológicos, naquele conjunto precário de situações que as tornam possíveis e - quem sabe - necessárias. Destituído esse habitat, a vida vai murchando, fica triste, mirra, entra para o fundo da terra até sumir.
Alves utiliza-se conotativamente do termo plantas, para distinguir metaforicamente professores e Educadores. A seu ver, os  educadores habitam um espaço artesanal de relação a dois onde a Educação acontece  -  São velhas árvores !
Já os professores habitam outro espaço, o descartável. O que lhes interessa é o crédito cultural que os alunos adquirem em uma determinada disciplina e para fins institucionais. Não faz diferença quem administra esse crédito, para Alves, são eucalíptos - essa raça sem vergonha que cresce depressa para substituir velhas árvores seculares que ninguém viu nascer, nem plantou...(Alves)
A analogia utilizada é pertinente. Velhas árvores são frondosas, abraçam a todos que precisam de sua sombra, têm identidade própria, são lembradas, reconhecidas, enquanto os eucaliptos servem apenas aos interesses comerciais - tanto faz um ou um milhão deles, todos são iguais.
Como,então, distinguir professores de Educadores nas escolas?
Os poucos educadores que teimam resistir  nos  nichos ecológicos das instituições de ensino, acabam, por vezes, influenciando outros  professores através de suas atitudes alegres, cheias de carinho por seus alunos.
O escritor Ziraldo no livro Uma professora muito maluquinha,  vem avivar nossa memória infantil :
...antes de a sineta tocar para o início das aulas, nós todos já estávamos amontoados em frente à porta da sala...As velhas professoras não entendiam nada ! ... Ela entrava voando pela sala (como um anjo ) e tinha estrelas no lugar do olhar. Tinha voz e jeito de sereia e vento nos cabelos. Seu riso era solto como um passarinho. Ela era uma professora inimaginável.

Inimaginável? Nem tanto. Conheci alguns quando criança e nos corredores das escolas ainda encontramos muitos Educadores, que estabelecem relações afetivas com seus alunos, criam situações de aprendizagem baseadas no respeito - na alteridade -revêm constantemente sua prática pedagógica e  optaram por
uma visão de mundo que oferece possibilidades para uma reorganização vagarosa e difícil daqueles elementos que, em nossa ação, são os mais difíceis de serem organizados : bondade sem que isto signifique tolerar tudo, coragem sem fanatismo, inteligência sem apatia e  esperança  sem cegueira. Todos os outros frutos da filosofia são de importância secundária..( Kolakowski  in Alves, Rubem.)

Onde estão eles vicejando ?  Acreditamos que  todas as instâncias  educacionais  têm  muito a contribuir, mas  só  servem para  “limpar o terreno. A  maior  mudança virá daqueles que vivem o ensino. De dentro ( Ilari,Rodolpho)                    
Por este pressuposto é  possível  então transformar eucaliptos em  carvalhos ? Por acreditar  que ainda há espaços para isso no interior das escolas, presto-me a este exercício metamorfósico,  justamente porque comungamos  com  Sousa a mesma opinião :

Não basta tomar conhecimento das críticas que são feitas, é preciso construir, a partir delas, a própria análise e reflexão, individual e coletivamente, na escola; o que desencadeará...um compromisso com uma prática capaz de promover permanência, terminalidade e ensino de qualidade  para todos.

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