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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Antes e após o Êxodo Rural


                                                                       Leda Coletti

Começo do século XX do nosso país, no então chamado Brasil-colônia. Época em que predominavam os imigrantes europeus nas nossas lavouras, que chegaram após à abolição dos escravos, principalmente no estado de São Paulo. Fugindo de situações difíceis em que viviam na Europa, sobretudo da guerra, vinham para a “América”, sonhando com dias melhores, pois tinham notícia, que neste “torrão tudo se transformava em ouro”.
De início a maioria ia trabalhar nas grandes propriedades de cultivo do café e dependiam economicamente dos patrões, que os exploravam e não ofereciam condições de vida digna para suas famílias.
Os campos se vestiam de verde esmeralda dos cafezais, exibindo grãos vermelhos como rubis; mais tarde, os canaviais também verdes da cor do mar, se sobressaiam  nas paisagens campestres.
Embora no final do século XIX houvesse ocorrido por lei a libertação dos escravos, estes continuaram nos campos, na sua maioria dependentes economicamente dos fazendeiros.
A vida campesina começava muito cedo, quando os colonos em trajes próprios para se protegerem do sol, iam pelos carreadores, com as enxadas aos ombros e na época da colheita,(no caso, a cana), com seus facões bem afiados. As mulheres e crianças se movimentavam prontas para o trabalho e a escola. As primeiras cuidavam dos afazeres da casa, além de levar o almoço às nove horas para os que trabalhavam na roça, lavar roupa no riacho próximo, buscar água no poço para provisão diária. Já as crianças para irem à escola, caminhavam alguns quilômetros, geralmente descalços, levando os parcos cadernos na sacola de pano.
As brincadeiras  da garotada tinham o mesmo sabor das frutas doces, colhidas nos quintais sem muros. Essas cirandas infantís eram imitadas pelos adultos, que nos finais de semana se divertiam com os bailes nas tulhas, ou em palizados improvisados com taquaras ou bambus.
Não havia muito consumo de bens materiais, pois a população campesina se bastava, alimentando-se com os cereais, verduras e legumes colhidos nas hortas que eles próprios plantavam e cuidavam, bem como da carne e ovos das galinhas e patos; era comum criarem porcos que lhes forneciam além da carne, a banha utilizada no preparo dos alimentos. Também peixes, pescados nos rios ou ribeirões que abasteciam as fazendas. Poucas roupas e calçados consumiam. Geralmente as mulheres costuravam as roupas de todos os familiares e os calçados eram passados dos mais velhos para os mais novos
Nessa primeira metade do século passado chegaram outros imigrantes, como japoneses, sírios, que se fixaram mais nas pequenas cidades que despontavam.
Destacando mais os imigrantes europeus (de quem descendemos), muitos deles com famílias numerosas conseguiram com muito sacrifício se desvencilhar do poder patronal , comprando pequenos pedaços de terra, onde procuravam  se manter. Devagar despontaram no cenário nacional.
Decorrente inicialmente da queda dos cafezais, devido às fortes geadas, aconteceu a primeira leva do êxodo rural. Partiam os rurícolas para tentar nova vida como trabalhadores das pequenas indústrias que surgiam nas cidades maiores..
A grande arrancada para as cidades se deu mais acentuadamente na segunda metade do século XX, com o advento cada vez maior das indústrias e criação de usinas de açúcar. Estas passaram a transportar da cidade para o campo os cortadores de cana diariamente, dando origem à terminologia “bóia fria”, desde que levavam a marmita e comiam nas roças, a comida sem esquentar.
A paisagem campestre sofreu mudanças totais. As colônias com casas simples, dispostas lado a lado, foram demolidas e no lugar surgiram os canaviais. Não existem mais as escolas rurais e as chácaras hoje existentes perto das rodovias, são na maioria casas de veraneio.
Onde havia um vozerio alegre, silêncio e desolação restaram. Ao homem que se mudou para a metrópole impelido pelas circunstâncias expostas, só restou relembrar a vida difícil, mas prazerosa que lá vivenciou. Geralmente são os idosos atuais. Quando interrogados, dizem o que alguém poeticamente escreveu um dia: “Eu era feliz e nem sabia.”

Este texto foi escrito, após vermos a exposição Naif no Sesc Piracicaba e apreciar uma bela tela intitulada “ Antes do Êxodo Rural” de Miguel S.S.S. de Marília e que nos fez reviver um pouco da história dos nossos antepassados e um pouco da nossa trajetória pessoal. 

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