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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

FADAS




Olivaldo Junior

Mais uma noite de sábado, como tantas outras, sempre só, e nasce o esboço de uma análise de Fadas, composição de Luiz Melodia, lançada em 1978.

Se houver interesse de sua parte, dê uma lida no que escrevi. O texto não é curto, mas sempre se pode apreender (ou não) qualquer coisa para si mesmo.

Gosto muito de analisar, de pensar em como as letras e os poemas foram feitos. Decerto, será sempre a visão de um estrangeiro sobre o país alheio. Amém.

 Olivaldo Júnior

Esboço de uma análise de Fadas, composição de Luiz Melodia

            Fadas, composição de Luiz Melodia, foi lançada no terceiro disco do cantor e compositor carioca, o álbum Mico de Circo, lançado em 1978.
            Luiz Melodia tem tido uma carreira de sucesso, colaborando, desde 1973, com a criação de clássicos para a MPB, dentre eles, Pérola Negra, Juventude Transviada e (por que não?) Fadas, que, inclusive, foi gravada por Elza Soares, brasileira eleita cantora do milênio pela Rede BBC de Londres, em 2000.
            A primeira versão da música (diferentemente da segunda, que ficou mais conhecida) é do já citado Mico de Circo, e tem um andamento bem mais lento do que a gravação do disco Acústico ao Vivo, de 1999.
            Bem, comecemos a ler nas entrelinhas da composição Fadas o que ela nos diz, ou o que suponho que ela nos diz. Vamos lá.

Fadas

O nome Fadas evoca os símbolos de divindades femininas do reino dos elementais, ou seja, espíritos da natureza, guardiões dos quatro elementos, água, fogo, terra e ar. Na canção de Luiz Melodia, a acepção desse termo pode, em vez de simplesmente fadas, sugerir mulheres, como símbolos do feminino e da arte.

Devo de ir, fadas

Logo ao primeiro verso, o eu-lírico da letra, quase inquestionavelmente masculino, despede-se, dizendo às fadas, interlocutoras desse eu-lírico, que ele “deve de ir”, ou seja, ele parte, vai-se embora, porque seria um “dever” que se lhe impõe agir assim. Tal forma de pensar é própria do artista, que se despede, mesmo que simbolicamente, da família (substantivo feminino), a fim de seguir carreira.

Inseto voa em cego sem direção

Ao partir, ainda que em “missão”, cumprindo um dever, o eu-lírico se põe na condição de inseto, pois “voa em cego sem direção”, tal e qual aquele “bichinho” que, ao ver a luz, é seduzido por ela e, indo de encontro àquela “maravilha”, acaba morto pelo próprio desejo de iluminação. Na letra de Melodia, isso fica bem evidente, mas, ao contrário do que acontece com tais insetos cotidianos, o inseto descrito por Melodia não fica cego ao se chocar com as luzes (ou fadas), mas ao ser afastado desses sóis. É preciso que se tome a palavra inseto como artista, que nada mais é que um polinizador.

Eu bem te vi, nada
Ou fada borboleta, ou fada canção

“Eu bem te vi, nada”. Tal verso é ambíguo. Pode-se entendê-lo como uma explicação a uma pergunta anteriormente feita e não mencionada, mas, sim, subentendida, pela qual o eu-lírico afirma que não viu bem vista a luz das fadas, ou, então, que não é bem-te-vi coisa nenhuma, que é mesmo, como o verso seguinte apregoa: “ou fada borboleta, ou fada canção”, tendo o seu ser mesclado ao das interlocutoras, fadas.

As ilusões fartas
A fada com varinha virei condão

A segunda estrofe começa com uma espécie de desabafo, em que Melodia, ou o eu-lírico dele, declara que, devido às “ilusões fartas”, virou, ele, eu-lírico, não fada, mas condão, palavra que significa dom, virtude, ou poder (sobrenatural). De certa forma, por ter adquirido também poder, o eu-lírico, volto a dizer, se confunde com as interlocutoras, fadas, de qualquer jeito.

Rabo de pipa, olho de vidro
Pra suportar uma costela de Adão

Os dois versos que completam a segunda estrofe, tão irônicos quanto toda a letra, fazem alusão a dois itens que visam suprir a falta de algo a fim de que esse algo possa seguir em frente. “Rabo de pipa” sugere a imagem da rabiola, que busca, numa pipa, dar melhor estabilidade a esse objeto, durante o voo. “Olho de vidro”, por sua vez, evoca a ideia de “camuflagem” de um defeito, de algo que se perdeu – no caso, os olhos, a fim de que não se deixe causar estranhamento a quem pudesse ver a cavidade ocular sem o devido globo –, transmitindo, pela complementação do verso seguinte, “Pra suportar uma costela de Adão”, que é preciso algo mais para se suportar a presença “ditatorial”, imarcescível, eterna, do feminino (“uma costela de Adão”, referência bíblica ao livro da Gênese) na vida dele.

Um toque de sonhar sozinho
Te leva a qualquer direção

Retomando a figura implícita do inseto, o refrão anuncia que “um toque de sonhar sozinho”, nos “leva a qualquer direção”, corroborando à sensação de prisão e liberdade, presente em todas as divagações do eu-lírico. Vem-me à cabeça a imagem do Flautista de Hamelin, que seduziu os ratos em direção à música (luz), afogando-os no Rio Weser, da mesma forma que as fadas (luzes) afogam os insetos (artistas) que se envolvem com seu brilho, com seu franco poder de encadeamento. A alusão à personagem do conto dos Irmãos Grimm é reforçada pela primeira palavra do seguinte verso: “flauta”.

De flauta, remo ou moinho
De passo a passo passo...

            O penúltimo verso trabalha com três figuras: “flauta” (encantamento), “remo” (trabalho) e moinho (dificuldade, cuja imagem remete à clássica O mundo é um moinho, do mangueirense Cartola). Ou seja: de qualquer modo, o eu-lírico atinge a meta, que é a meta comum a todos nós: passar por essa vida, esse misto de encantamento, trabalho e dificuldade que nos aninha e nos expulsa a todo instante do colo, do “quentinho” das horas, especialmente as vividas ao lado de quem se ama (ou, por isso mesmo, se repele).
            A canção como um todo pode ser vista como metalinguística, pois a imagem das fadas simboliza o encanto que o elemento artístico proporciona a quem se rende (se move) em direção ao brilho, quase sempre mortal, da (im)possível imortalidade.
            O aspecto harmônico das gravações, tanto a de 1978 quanto a de 1999, por seu dedilhado inicial característico, faz com que se imagine o “voo em cego e sem direção”, mencionado na letra pelo eu-lírico de Melodia, complementando a imagem de seres alados (musas e artistas), que se buscam, mas se quedam quando juntos. A levada do arranjo de 1978 é mais jocosa, brincalhona, que a de 1999, sendo a segunda bem mais ágil e notadamente enfática nos riffs, reforçando a sonoridade simulando “voo”.
Não se pode esquecer, embora a conotação não me pareça propriamente essa, do período em que fora composta essa música. A repressão, em 1978, ainda que em plenos rumores de anistia, ou seja, de abertura política, era evidente no Brasil. A música fala sobre partida. Seria uma canção do exílio “tardiamente” registrada pelo artista? 
Enfim, fazia um tempo que queria escrever algo sobre essa música. Tomara que o que escrevi o tenha feito pensar um pouco e dialogar com as preposições que exponho agora frente aos olhos e julgamento de quem possa se interessar por esse esboço de análise de Fadas, composição de Luiz Melodia, que julgo importante e tão bela.

Referências

Luiz Melodia – Site Oficial. Disponível em: http://www.luizmelodia.com.br/

Biografia de Luiz Melodia. Site Som13. Disponível em: http://som13.com.br/#/luiz-melodia/biografia

Biografia de Elza Soares. Site Cliquemusic. Disponível em: http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/ver/elza-soares

Etimologia da palavra Fada. Wikipédia. Disponível em:

Etimologia da palavra Condão. Dicionário Priberam de Língua Portuguesa.

O Flautista de Hamelin. Wikipédia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Flautista_de_Hamelin

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