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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Crianças e outras crianças


Eloah Margoni

O sofrimento do ser humano não poderia deixar de me sensibilizar, em tudo e por tudo. Admito, porém, que não o faz com exclusividade. Quis a genética, um tipo de tendência inata ou algum sopro específico, que eu me pegasse olhando ao redor, num giro de 360 graus, o qual assim mesmo, sei, é quase cego. No entanto, em toda minha vida, especialmente na de trabalho, sempre me tocaram as situações das crianças, pois tão indefesas são elas! como o são as plantas e os bichos, tão à mercê de tudo, guardando em si mesmas o potencial humano para o mal e para o bem, para destruir ou para criar e ajudar a moderar a destruição! Percebi, também, com angústia, que há modos incríveis de negligenciá-las, maltratá-las, torturá-las, entristecê-las, de matá-las, de roubar-lhes tudo; isso sem contar as que, mimadas em excesso, também e de certa forma, perdem o que de melhor possuem; ficam destruídas. Sei, inclusive, que não fiz tanto pelos infantes que passaram por mim, pois muitíssimos mais passariam ainda... Isso, o cuidado, exige luta muito contínua, bem como batalhas políticas, sociais, e também “corpo a corpo” ferrenho, como Dra Zilda Arns o fez.
Quando ainda estudante de medicina, no Estado do Rio de Janeiro, freqüentava hospitais, até precários, em alas de várias especialidades. Uma das coisas impressionantes para mim, na pediatria, eram as crianças internadas com obstrução intestinal por bolos de ascaris (lombrigas). A dor intensa que elas sentiam, os choros, o risco de morte, a sensação específica que se tem à palpação abdominal (é como apertar “massa de pão”), e depois, com os medicamentos corretos (para se evitar cirurgia), a expulsão via intestinal daqueles assustadores vermes vivos, enovelados faziam tudo bem dramático. Então as crianças saiam, tinham alta hospitalar, voltavam para seus lares sem qualquer suporte ou apoio digno de nota para trazer mudanças realmente positivas às suas saúdes.
Também, naquela época e lugar, no hospital, as crianças desnutridas com marasmo, exibiam espetáculo patético e imoral. Jogadas nos berços, pele e ossos, ali eram muito bem alimentadas e acompanhadas nas enfermarias, onde permaneciam por semanas. Crianças assim não se mexem, pois não podem gastar aquilo que não têm: energia. Apenas apresentam-nos seus olhos fundos, inexpressivos. Mas ao melhorarem de maneira significativa, vão se tornando crianças de verdade, começam a querer brincar, a rir. Rirem era o sinal também para alta hospitalar! Mas estrutura que mudasse suas condições de verdade, não víamos.Francamente, não sei exatamente se isso se alterou mesmo por lá atualmente, ou não.
Aqui, numa das regiões mais ricas do Estado do São Paulo, e do Brasil portanto, nos anos que trabalhei no Programa de Saúde da Família, vi também outros tipos de maus tratos: violências verbais às crianças, bebês expostos ao calor terrível, ao sol causticante, sem qualquer proteção,nas piores horas do dia, levados em carrinhos aos cultos evangélicos, onde um “pastor” berra, com alto falante, exorcismos. Mães dando goles de cerveja a criancinhas, deixando-as sujas, imundas, alimentando-as mal, de modo que ficam anêmicas e com outros tipos de desnutrição. Também diversas formas de abusos e abandonos. Um caso de desnutrição quase como aqueles do passado eu vi, por nossas bandas. Neste, conseguimos abrigar o bebê, com ajuda do Conselho Tutelar. Dois dias depois fui visitar a criança na instituição que funciona como abrigo, mas descobri que é mais fácil colocarem-se celulares em presídios de segurança máxima, do que um médico com intenções dignas visitar o bebê que ajudou a proteger.
Aprendi boas coisas também, com o competente assistente social Antonio Carlos Danelon. Ensinou-nos a muitos, a trabalhar em grupos, em rede. Assim, acabamos por descobrir que há famílias que se mantêm, propositadamente, em condições de imundície, de abandono, de autonegligência, para terem acesso mais fácil a cestas básicas e a verbas governamentais de auxílio. Isso, para “impressionarem” os distribuidores das concessões.
As tristes condições do ser humano nos deixam infelizes, especialmente a das crianças, mas também as das aves, dos roedores, dos mamíferos de pequeno, médio e grande portes, as de outros bichos,bem como as das árvores e das florestas, que são mais agredidas, injustiçadas e mais inocentes, a bem da verdade, do que a espécie humana.

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