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quinta-feira, 16 de junho de 2011

PROTOPLASMA, admirável base da vida

Ruth Carvalho Lima de Assunção

A claridade amarelada de uma lâmpada de 60 w inundava o cômodo 05 x o4 daquela casa situada no centro da pequena e hospitaleira Piracicaba que guardava o fascínio de suas origens e a certeza de que descortinaria num próximo momento um lugar ao sol. Deixaria de ser o fim de linha, a última estação.
A um canto da sala, sentada ao pé da máquina Singer, mamãe costurava, consertando as roupas da meninada, seus filhos que já freqüentavam o antigo ginásio.
Ao lado a caçula, a menina que completara seis anos e ansiava entrar para a escola para ler todos aqueles livros que o pai sempre lhe trazia. Folheava todos e ia lendo as figuras que lhe contavam histórias de cães, gatinhos abandonados e criancinhas perdidas na floresta.
- Tenha um pouco de paciência, logo você completará seus sete anos e já poderá ir para a escola aprender a ler e escrever. Aí então você poderá ler todos esses livros e vai entender bem melhor essas figuras que você vê.
- Falta muito mamãe, estou com pressa.
Mamãe empurrou para o lado a calça que estava costurando e falou:
-Não sei o que seu irmão faz, vivo só consertando as suas roupas, mas ele é mesmo um moleque sem jeito.
-Mamãe, conte uma história.
- Vou lhe contar, mas é uma história de verdade.
-Sabe filha, nasci em São Pedro de Piracicaba, todos meus irmãos são de lá. Éramos nove, mais papai e mamãe. Uma família bem grande. Que saudade de minha mãe. Ela parecia uma formiguinha, trabalhava sem parar, e além de trabalhar em casa, ainda costurava para a elite de São Pedro. Eram vestidos requintados, maravilhosos, com preguinhas, rendas, bordados e miçangas. Nas festas era quando ela trabalhava mais porque as encomendas aumentavam. Nessas ocasiões eu ajudava a minha mãe nos trabalhos mais fáceis e assim aprendi um pouco a costurar.
-As moças usavam espartilho, uma peça que apertava e deixava a cintura
bem fininha. As moças ficavam muito elegantes, muito charmosas naqueles ricos vestidos. Eu também tinha um espartilho. Guardei muito bem guardado, mas só como lembrança.
- A senhora também usou esse espa...
- Espartilho, filha, eu também usei, até tenho um retrato em que eu estava de espartilho.
- Eu nunca vi.
- Sabe filha, a vida era muito mais difícil. Agora eu posso costurar à noite,
Antigamente não podia, não tínhamos a lâmpada elétrica, ficava tudo muito escuro, a gente ia dormir bem cedo.
-Então mamãe, de noite a gente não enxergava nada?
-Quem tinha a lamparina ainda levava uma vantagem. Ela nos livrava da escuridão completa. Numa garrafinha a gente punha o querosene mais um cordão, acendia a tocha de pano ou cordão e tínhamos uma luz bem fraca que pelo menos nos livrava da escuridão completa. Agora, se naquele tempo tinha caixinha de fósforo eu não me lembro, mas sei que no fogão de barro estavam sempre pedaços de madeira queimando e muita brasa.
O fogão de lenha nos dava a claridade e o calor, a lamparina nos deixava com o nariz preto. Graças a Deus os homens descobriram outros meios para termos a luz.
Nas noites frias todos ficavam conversando ao pé do fogo. Eram muitas histórias. E cada um contava uma, só histórias de dar medo. Então a gente rezava para espantar o demo.
Certa vez apareceu um rapaz que era amigo de seu tio Zeca e mudou as nossas conversas. Por um bom tempo deixamos de contar histórias de arrepiar.
-A gente dizia que o Robertinho era muito inteligente e sabido.
-Não é nada disso, é que eu leio muito e estou sempre acompanhando tudo o que acontece aqui no Brasil e no mundo.
- Você que sabe tudo, diga de onde vem o querosene, gritou minha irmã Isabel.
- O querosene vem de muito longe, é preciso atravessar o mar, viajar muito para comprá-lo lá nas terras dos árabes.
- Mas a dona Nhanhã me disse que o seu tio tira o querosene lá do fundo de seu quintal. Ele faz um buraco bem fundo, desce por uma corda e pega o querosene, retrucou a sabe tudo, a Isabel, sua tia
- Pode até ser que um dia isso aconteça, disse o Roberto sorrindo.
- Outro dia eu li num jornal, lá em São Paulo que o Sr Monteiro Lobato, aquele homem que escreve histórias para crianças, que aqui no Brasil tem petróleo, tem muito petróleo.
-Mas nós precisamos do querosene, ora bolas, respondeu a Mariinha.
-Acontece que o querosene é um produto do petróleo.
- O moço continuou contando muita coisa que a gente não sabia.
- Mamãe, peça para o papai me trazer um livro desse homem que escreve história para crianças.
-Sim, eu vou falar para o seu pai, mas agora vamos dormir que já é tarde.
-Bença mãe, estou morrendo de sono.

Um comentário:

Anônimo disse...

Assim como essa mãe tão amorosa, minha mãe também tinha uma singer e costurava minhas roupas e dos meus irmãos. Naquela época faltava alguns recursos, mas jamais amor como mostra essa crônica. O amor supera qualquer falta. Um abraço!
Ivana.