As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

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sábado, 27 de fevereiro de 2010

A Ousadia da Mulher - Leda Coletti

A Ousadia da Mulher
Leda Coletti

Carolina a bisavó, não se conforma com o que aconteceu com a bisneta. Está grávida aos 16 anos.
- Como vai ficar a situação de Patrícia? E dirigindo-se à neta Bete, mãe de Patrícia:
- Como você vai trabalhar essa nova ocorrência? Já pensou o que os vizinhos irão dizer?-Bete calmamente expõe, que hoje em dia, uma gravidez precoce é muito comum entre adolescentes de todas as classes sociais.E continua:
- Não devemos encará-la como desgraça. É preciso pensar no lado bom: nossa família vai ganhar uma criança e isto é motivo de alegria e não tristeza.
A bisavó se cala, mas pensa baixinho:
- “ Ainda bem que logo vou embora desse mundo, que está virado de pernas para o ar”.
Esse foi um exemplo de como os conceitos: virgindade, sexo antes do casamento estão cedendo lugar a visões diversas de anos atrás. Não vamos tecer comentários favoráveis ou contrários nesse momento, pois estamos constatando apenas as diferentes realidades atuais.
E o que falar do trabalho profissional da mulher?
Nos anos dourados - década de 60-, poucas eram as mulheres engenheiras, médicas, dentistas, pesquisadoras, políticas e com outras atividades só permitidas para os homens. A maioria se dedicava ao magistério, uma das únicas portas abertas para a ala feminina.
Hoje elas já têm um lugar ao sol e disputam com o outro sexo, posições de destaque e prestígio.Mas, ainda são vítimas de injustiças salariais, por serem mulheres.Alguns privilégios já conseguiram e ousadas se tornaram, pois quando se sentem ameaçadas, tornam-se bravas guerreiras e vão à luta, com muita garra.
E há ainda quem diga que as mulheres pertencem ao sexo frágil!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Outonais - Carmen Pilotto

Outonais
Carmen M. S. F. Pilotto

No varal peças coloridas ao sabor do vento. As formigas enfileiradas anunciam um inverno rigoroso. Vaticínio das avós que prediziam o tempo. Verdades que sobrevivem por gerações.

CAOS - Ana Marly de Oliveira Jacobino


CAOS
Ana Marly de Oliveira Jacobino

O buraco aparece do nada. Não se podia ver o fundo. A luz ilumina até uma parte, depois, a escuridão, o caos. O vazio ilimitado, infinito ronca suas feras no seu intestino. A população o arrodeia. Por segurança, uma cerca foi colocada entre o buraco e o povo. Um espeleólogo é contratado para explorar o buraco. O especialista desce pelo equipamento. Cronos, o senhor dos tempos, vomita o espeleólogo para fora. O homem não encontra o fundo. Hades, sem dúvida, mora no buraco, e reconhece a sua casa em que vive com seus seguidores. A multidão precisa saber o motivo do buraco rasgado no meio de um logradouro público. Uma autoridade chega para fazer seu discurso, afinal as eleições estão chegando. “Senhoras e senhores estou aqui para reivindicar o buraco como um empreendimento do nosso governo para a cidade.” O povo grita: “Ladrão, mentiroso, salafrário ...” O tempo esquenta. A tropa de choque fica entre o prefeito e os briguentos. Algumas pessoas reivindicam para si as obras do buraco. Um geólogo mostra que o buracão é obra da natureza. Insubordinação! O profissional toma umas cacetadas e vai para a prisão. No microfone o prefeito, tal qual, Possêidon: “A realidade é que, o buraco é uma experiência para um piscinão, afinal, a minha cidade está sob as águas”.

Cotidiano - Lidia Sendin


O COTIDIANO
Lídia Sendin

“Todo o dia ela faz tudo sempre igual”..Chico Buarque que já poetava a respeito, alertava os fãs de como os dias podem ser iguais; acordar, escovar os dentes, tomar café e começar a fazer seu trabalho, como ontem, como amanhã, como sempre, cada um a seu modo, porém sempre do mesmo modo. Por conta disso, nossos neurônios, sem nada que os espantem, resolvem dormir temporariamente e quando entramos na casa dos “enta”, isto é, quarenta, cinqüenta, sessenta,..os coitadinhos já estão pra lá de enferrujados.

Se quisermos colocar novamente o cérebro pra funcionar é necessário que lhe apresentemos novos desafios, não será, portanto, vendo todas as noites a novela, de pijama, comendo pipoca, que nossos neurônios despertarão. Tentar buscar novos desafios em atividades para as quais nos consideramos inaptos a vida toda é sacudir a poeira da sopa de moléculas que habita nossa cabeça e talvez até descobrir prazer onde nunca imaginássemos que haveria.

Novas atitudes, mesmo pequenas, devem fazer parte do nosso cotidiano. Aprender alguma coisa nova e desafiante é uma das muitas maneiras de fazer o sangue correr mais depressa e oxigenar as áreas emboloradas da mente. Você pode estudar física quântica ou aprender a dançar, tanto faz, o que importa é um dia ou outro sair da rotina imposta pelo cotidiano: acordar, lavar, passar, trabalhar, cuidar dos outros. Para uma dona de casa exemplar seria completa falta de juízo, numa laboriosa tarde de segunda feira, deixar a roupa suja no cesto e a louça do almoço na pia e ir ao cinema ver uma deliciosa comédia romântica. Mas que faz um bem danado, isso faz!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

MONTE VERDE - Ivana Negri


Monte Verde
Ivana Maria França de Negri

Todo mundo tem direito a férias, tempo de descansar o corpo, arejar a mente e apaziguar o espírito.
É o tempo de repor as energias para enfrentar o batente com ânimos renovados e melhor disposição física.
Meu marido e eu passamos alguns dias em Monte Verde, uma parasidíaca vila ao sul de Minas Gerais, incrustada na Serra da Mantiqueira.
O mês de junho costuma ser bem gelado em lugares montanhosos, mas o ar é puro e o sol brilha bastante, sem no entanto aquecer muito.
As construções de Monte Verde seguem o estilo leto e alemão, herança dos colonizadores da região. E também lembram bem a cidade de Campos de Jordão nesta época do ano.
Ficamos hospedados num aconchegante chalé que lembrava as casinhas dos contos de fadas dos Irmãos Grimm. Janelinhas de madeira com cortinas de tecido xadrez arrematadas em crochê por mãos caprichosas. Enfeites de cerâmica, lareira e chaminé completavam o visual repleto de magia. Para quem se arriscasse, havia até uma tina de madeira ao ar livre, para imersão em águas de temperatura bastante elevada.
Por entre a vegetação e caminhos de pedra rodeados de hortênsias azuis e lilases, parecia que um gnomo ou um duende dariam o ar de sua graça a qualquer momento... Ou uma bruxa, no melhor estilo Branca de Neve, emergiria, com seu gargalhar estridente, da floresta de pinheiros que cercava o chalé.
Pequenos e ágeis esquilos vinham buscar pinhas e frutas em nossas mãos, sem apresentar medo algum dos humanos.
À noite, apenas o murmúrio de um riacho quebrava o silêncio da madrugada. E pela manhã, a grama ficava úmida de orvalho e quando o dia se apresentava mais frio, amanhecia coberta de geada. Aos primeiros raios do sol, pássaros diversos faziam sua algazarra matinal despertando os sonolentos hóspedes ainda embrulhados em pilhas de cobertores macios, o chalé recendendo a cinzas do que restou da lenha perfumada da lareira acesa na noite anterior.
Celular desligado, nenhum ruído irritante, e a natureza gritando silenciosamente aos nossos corações. O café da manhã vinha bem cedo, numa cesta coberta com alvas toalhinhas. O fumegante café preto, leite quentinho, sucos, frutas, pão de queijo, bolos e pães caseiros feitos na hora, eram irresistíveis!
Havia várias trilhas a serem exploradas. Escolhemos uma que chegava ao topo de uma das inúmeras montanhas. Logo no início da fria manhã iniciamos a caminhada. O céu muito azul convidava ao passeio, mas medrosa, pensei em desistir muitas vezes. Por fim, após a íngreme subida dos caminhos ora pedregosos ora encharcados, conseguimos chegar ao pico da “Pedra Redonda”. A visão panorâmica, acima das nuvens, me fez sentir como a própria Julie Andrews no filme “A Noviça Rebelde”. De braços abertos sentindo a força do vento, um momento de arrebatamento, o mundo a nossos pés a se perder de vista, fazendo com que a pequenez do ser humano, a nossa insignificância saltasse aos nossos olhos.
Enfim, as pequenas férias terminaram rapidamente e retornamos. Mais fortalecidos e enriquecidos com as experiências. Mais uma vez, a natureza mostrando sua grandiosidade, força e beleza. É dela que fluem as energias que necessitamos para viver.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A fila da vida

A fila da vida
Marisa Bueloni


A vida tem uma fila implacável e ela anda. Já fui a dois velórios este ano. Os bons vão indo embora e tem um montão de vaso ruim ficando. Dona Morte não brinca em serviço. Ela organiza o funesto cadastro e, um a um, os nossos amados vão saindo de cena.

Sinto uma agonia mortal nos velórios. Não me conformo. Jamais irei me conformar. Ô hora dura!... Hora dolorosa. Que triste é receber o telefonema avisando o falecimento. Mesmo sabendo do estado grave da pessoa em questão e tendo-a visitado, seja em sua casa ou no hospital, o desfecho sombrio é sempre uma dor sem nome.

Jovem ou idoso, com saúde ou sem saúde, todos se vão.É uma regra impiedosa. Num dos velórios a que fui, depois de encomendar o corpo, o padre saiu dizendo: “É a fila da vida...ninguém escapa”. Diante desta impotência, sucumbimos mais ou menos consolados, mais ou menos convencidos, mas sempre tristemente inconformados.

O primeiro velório foi no mês passado. Uma amiga querida e muito especial. Estava nos seus oitenta, mas era uma mulher magnífica, extraordinária, que fará falta ao mundo. Por quase 20 anos, realizou o cenáculo de Nossa Senhora em sua residência, com um assíduo grupo de oração, toda quarta-feira à noite. A casa era um relicário, um santuário, decorada com quadros, estátuas, imagens de santos e anjos. Havia uma capela de paredes azuis, com desenhos de estrelas e luas, e no altar a Virgem de Fátima.

Todo o acervo sacro foi oferecido aos amigos e aos fiéis do grupo de oração. A família permitiu que cada um levasse algo de lembrança. A mim, coube uma pequena escultura da “Pietá” em mármore branco, uma peça de rara beleza. Há um altarzinho aqui em casa, com porta-retrato do meu lindo, e a coloquei ali. A Mãe dolorosa carrega nos braços o Filho morto. Uma cena estática, uma representação inconsútil, como sólidos e íntegros serão os amores dos corações partidos.

O segundo velório foi na semana passada, de um amigo querido que residia aqui no meu condomínio, numa chácara próxima à minha. Estava nos setenta, recentemente completados. Forte e dinâmico. Tricolor roxo,assim que se mudou para cá, mandou colocar o emblema são-paulino no portão de entrada da casa. Quando alguém perdido pelo caminho vinha nos perguntar onde ficava a sua chácara, era só explicar “é a que tem o emblema do São Paulo, logo ali”. Seu corpo foi velado envolto pela bandeira do clube bem amado.

Ele cultivava uma horta dessas bem verdinhas, os canteiros geometricamente ordenados, com aquela ruazinha entre eles, uma beleza. Dizia que a produção da horta era muito boa, ele e esposa não davam conta de consumir tudo; então, saía de carro a distribuir verduras aos amigos. Deixava regularmente uma sacola pendurada no nosso portão. Mandava um pouco de tudo: salsinha, cebolinha, chicória, alface roxa, alface verde, rúcula, couve, almeirão novinho, hortelã, erva-doce, e algumas variedades exóticas, que eu ligava para saber o que eram.

Muitas vezes, fui até lá – ligando antes, claro –domingo de manhã, quando resolvia fazer aquela macarronada com molho de tomate e manjericão. Ele se postava de pé na calçada, esperando. “Entra!”. E a gente tinha mesmo de chegar até a horta, enquanto ele ia apanhando o manjericão fresco. Além de um bom punhado das folhas cheirosas, eu ainda ganhava uma sacola de mexericas ou de limões.

A horta vai sentir saudades dele. Não sabemos se a esposa, nossa amiga querida, vai continuar ali. Há pessoas que não se sentem bem de permanecer na mesma casa, mudam-se no dia seguinte. Consegui superar isso e fiquei morando sozinha em minha chácara, sentindo um amor imenso por tudo e pelas lembranças do meu lindo. Minha mãe sempre dizia que é preciso temer os vivos e não os mortos!...

Esta fila ingrata da vida vai andando e pegando uns de surpresa, a outros preparando com antecipado sofrimento. É a tal da Dona Morte chegando, sorrateira, sempre cedo demais. Ninguém estará preparado para ela. É de fato a “indesejada das gentes”.

Um amigo jornalista daqui publicou um texto no site dele – um primor - sobre as conversas de velório. O morto fica lá, mortinho, descansando, e os presentes se esbaldam a bater papo. Deixei meu comentário, aludindo a uma esperança que pode não ser tão descabida: e se muitos de nós não passarmos pela morte? E se existem mesmo os “eleitos da última hora”, já marcados com um selo divino em suas frontes, sementes humanas para habitar a Nova Terra e contemplar os Novos Céus?

Estes sinais da natureza, estes “avisos” tremendos que a Terra está nos dando, não seria o prenúncio das dores de parto que vão gerar o novo tempo? Deixo a pergunta no ar. Só Deus conhece a resposta. A nós, especuladores do sonho, cabe-nos juntar as mãos e rezar.

Traquinagem aos 50

Traquinagem aos 50
Maria Iraci Pinto

Pele morena, olhos negros, cabelos grisalhos e sorriso maroto.
Pele clara, olhos verdes, cabelos ruivos naturais e sorriso indagador.
Poderíamos afirmar tratar-se de um casal de jovens apaixonados, mas não é.
Trata-se de um casal de pessoas de 50 anos e as brincadeiras, as risadas, a alegria, soam tão traquinas quanto às dos jovens, mas trazem em si um diferencial: não há cobranças, não há desconfiança.
O que há, é a certeza de se sentir leve, flutuando como uma pluma ao vento e repousar no aconchego da maturidade, na paz da confiança mútua.
Há o doce balanço da traquinagem madura, mas bem dosada, sem atropelos e sem medos, sem contudo esquecer a leveza e magia do riso solto, das emoções agitadas (como formigas carpideiras) a sutileza do bater das asas da borboleta e a entonação encantada do canto do rouxinol. O embalo da voz de Deus no hino de Louvor à Vida, ao compasso de dois corações felizes.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

TEKA E EU - Richard Mathenauer

TEKA E EU
Richard Mathenauer

Ontem, esparramado no sofá solitário de casa, assisti a "Marley e Eu", indicação do primo John. Ao ver tratar-se de mais um filme com cães, torci o nariz. Ah, o erro da precipitação! Confesso que chorei no final... Tudo bem, dizer isso publicamente pode me trazer o prejuízo de ser diagnosticado como "sensível demais", porém, advirto, cuidado com o erro da precipitação. Não é que o cão morre no final? Eu não me lembro de ter visto filme em que o cão morra no final, morte bem contada, comovente, diga-se de passagem. E pensei inevitavelmente em Teka. Essa aí de cima.Mas antes de falar de "Teka e Eu", a mensagem final de "Marley e Eu" é algo que vale a pena refletir: um cão não precisa de celular, mansões, carro do ano, um simples graveto o torna feliz; ele não faz distinção se o dono é rico ou pobre: ama-o indistintamente. E de quantas pessoas podemos falar assim, que nos amam indistintamente? - Mais ou menos com essas palavras termina o filme e Eu ainda chorando... Era um graveto que me fazia assim, tristemente feliz.Teka foi adotada. Não estava em promoção como Marley. Deixaram-na no meu trabalho, sem saber direito o que seria dela, todos dizendo que se fosse possível a levariam, porém, porém, porém, e ninguém se prontificando. Ela ficou sentadinha com os seus 45 dias à porta da minha sala, com suas orelhas grandes. Eu sabia que não poderia levá-la, também tinha lá os meus poréns. Porém, arrisquei: liguei para casa dizendo ter ganhado um cão. E presente não se há de recusar! E veio Teka, que no princípio era Verônica, mas que fora rebatizada. Disseram que os cães respondem melhor a nomes curtos; por isso é que de Frederico passou a Fred e Frederico Jr. a Feio.Voltemos à Teka. Ela entrou trêmula na casa nova, cheirou tudo o que o nariz suportou, e ganhou o sofá de canto, bem a curva dele, para dormir. Era uma santa. Uma semana durou a santidade. Logo ninguém podia sentar-se no sofá; sapatos eram mastigados... E para ninguém educar com a pedagogia do jornal enrolado ou do chinelo mesmo, dizia Eu defendendo a cria: "isso é bom pra aprender a guardar o sapato no lugar!"Logo ela não pode mais ficar dentro de casa. Ganhou toda a lavanderia para si, mas não perdeu os vícios de criança mimada: se deixasse a porta aberta, lá estava Teka no sofá. Era a única que me acompanhava até o portão quando ia ao trabalho, e a primeira a me esperar. Um dia ela não fez festa. Só subiu no colo e ali ficou. Ela que braço algum conseguia segurar por mais de um minuto! No segundo dia parou de comer. Logo veio o diagnótico: uma virose. Remédio não surtia resultado, pedir que não morresse parecia também não resultar... Chegou a pele e osso. Só os olhos eram duas bocas me falando, falando, e Eu não podendo fazer nada. Mais uma vez o amargo gosto da impotência.A soro caseiro de tempo em tempo, Eu suplicava que não morresse. E ela me olhava. Veio, enfim, o dia em que a encontrei caída rente ao muro, coberta de formigas. Pensei não a deixar sofrer e que a sacrificaria. Sacrificar tem um significado bonito... Tomei-a às formigas, limpei-a com as mãos primeiro, depois com um pano umedecido e a coloquei num quarto de despejos porque se formou temporal. Eu sabia que no dia seguinte ela estaria morta. Na manhã seguinte fui ao encontro da minha pequena amiga, ou, como esperava, do que fora ela. Quem me recebeu foi uma Teka esquálida mas saltitante. Fiquei parado à porta do quarto sem entender. Milagre? Eu sou ateu, embora tenha conversado muito com Francisco de Assis por aqueles dias... Hoje ela já deu cria duas vezes, todos filhotes de tão feios, foram lindos, e é o tormento dos pássaros que se aventuram aterrisar no quintal, e é uma destemida caçadora de sapos, e é a primeira a me dizer bom dia, a me receber de volta do trabalho e a pular nos meus amigos até que lhe deixem "beijar" a boca.Por enquanto, "Teka e Eu" não tivemos o fim de "Marley e Eu", apesar de alguns encontros de coincidências no roteiro. Sei, todavia, que não somos um seriado, e mesmo que o fossemos, teríamos inevitavelmente de ter um fim. Podemos durar mais, mas teremos. Eu penso no graveto. Na alegria simples que ela me dá. Até quando? No momento, essa é uma dúvida passageira. Hoje nós temos o graveto que é a vida.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O RIO - Ludovico da Siva

O RIO
Ludovico da Silva

Absorto e parecendo sonhar, me chamou a atenção uma voz macia e doce que me despertou para a realidade à minha volta.
Estava sozinho naquele abandonado espaço vazio e onde meus olhos alcançassem nada me detinha, como na alegre paisagem que ficou, mas vislumbrava uma profunda e infinita tristeza.
Seria um fantasma a provocar um sentimento no fundo de minha alma?
Vi fios grossos e escuros escorrendo pelos vãos das pedras, exalando odor que manchava os ares. Observei as margens e o leito mutilados.
Custou-me acreditar. Mas esse não é o rio do meu passado.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A vida na cidade grande e no campo - Leda Coletti

(desenho de Matheus de França Cabrini)
A vida na cidade grande e no campo
Leda Coletti

É madrugada. A cidade e a maioria de seus habitantes ainda dorme. No entanto, vão saindo aos poucos dos barracos, das casas populares, seus moradores ainda sonolentos, com mochilas desbotadas às costas.Nelas levam as marmitas de comida. Misturam-se aos companheiros de jornada, nos trens de subúrbios ou metrôs.Muitas vezes coincidem os horários de “picos” e grande parte vai em pé, corpo grudado a outros. Quando isso acontece no retorno é sufocante, pois o cheiro de suor chega a provocar mal-estar nas pessoas mais sensíveis. O destino desses trabalhadores: patamares altos de prédios, indústrias, comércio, etc.Há também os de cidades interioranas, os quais muitas vezes se utilizam de ônibus, ou das conduções das indústrias em que trabalham. Isso sem contar os liberais, que se servem de seus próprios carros.
Também não têm vida diferente os trabalhadores do campo, os bóias-frias. Levantam-se muito cedo e enfrentam muitos quilômetros em ônibus rurais, em péssimas condições, para chegarem às fazendas e sítios. Em cada região do país se dedicam aos diferentes setores da agricultura: cana,cereais, frutas, granjas, hortas,etc.Nas primeiras décadas do século XX, até à metade dele, a situação rural era outra. Essa população morava no próprio campo de trabalho. Uma série de fatores sociais provocou o êxodo rural, sobretudo a introdução de grandes latifúndios, em detrimento das pequenas e médias propriedades rurais.
Diferentes são as funções dessas categorias. Os trabalhadores do campo ajudam a preparar, semear o solo, o qual fecundado dá vazão ao cio da terra, propiciando o milagre do grão, que se transformará em pão na mesa de todos nós.
Já os que se ocupam de afazeres industriais, muitas vezes chegam a ser vítimas das engrenagens das máquinas, quer do ponto de vista físico, quer psicológico. Um infeliz tropeço, um cochilo fora de hora, pode levá-los a um fim trágico.Dizem muito, as palavras da música de Chico Buarque de Holanda, completando esse meu pensamento: “...tropeçou no céu como se ouvisse música/ e flutuou no ar como se fosse sábado/ e se acabou no chão feito um pacote tímido”...
Mas, a vida continua e como diz outro grande compositor da música brasileira- João Bosco-“ a esperança, equilibrista/ sabe que o show de todo artista/ tem que continuar”.E nós que ficamos de fora, como expectadores e consumidores dos seus serviços, mas executando outros – os chamados imateriais- e ligados à cultura, não podemos deixar de exaltá-los e nos darmos as mãos nessa difícil, mas fascinante corrente da vida. Exultemos pois os trabalhadores do Brasil!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Eu torço sempre pelo touro - Ivana Negri

Eu torço sempre pelo touro
Ivana Maria França de Negri

Em junho, representantes da UNESCO se reunirão em Sevilha, na Espanha, para definir quais festas espanholas se converterão em Patrimônio Cultural da Humanidade. Entre elas, a abominável Corrida de Touros, uma estúpida tradição que consiste em deixar os animais extenuados e nervosos durante perseguição pelas ruas, e culmina com a tortura dos touros dentro das arenas, seguida de morte por afiadas lâminas fincadas sem piedade em seu dorso. Isso tudo sob os aplausos de uma multidão ensandecida que grita “olé” a cada performance do toureiro que traiçoeiramente esconde sob a capa vermelha as bandarilhas que perfuram o couro do desditoso animal.
Uma tourada, o que é? Uma festa? Um espetáculo? Arte? Uma tradição cultural? Um show? Diversão? Esporte? Para mim, a touromaquia é um crime legalizado, uma prática criada para aflorar os instintos perversos ocultos nos homens.
Certos comportamentos “humanos” jamais vou compreender. O que leva pessoas comuns, que são pacíficas no seu dia-a-dia, mães com seus filhos, pais trabalhadores, jovens estudantes, a se transformarem numa turba sanguinária ávida por assistir a morte e o sofrimento de uma criatura que poucas horas antes era um animal belo e vigoroso, cheio de vida, e horas depois jaz inerte, tombado ao solo, esvaindo-se em sangue?
Enquanto existir quem financie, quem apóie, quem organize e quem pague para assistir, esse circo de horrores vai continuar. Mas daí a oficializar a barbárie como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO, já é demais!
Não há graça nenhuma em ver um touro, que não está lá como voluntário e sim obrigado, lutar até o fim numa batalha desigual, tendo as bandarilhas espetadas em sua carne que se rompe deixando o pobre animal sangrando até quase desfalecer, e depois de muito fraco, ser traiçoeiramente espetado por uma espada que lhe atinge o coração com o golpe “de misericórdia”, a estocada final.
Vira e mexe algum grupo aficionado dessa mostra de sadismo pressiona o governo para trazer essa prática para o Brasil, mas graças a Deus ainda não conseguiram. Grupos de proteção aos animais ficam atentos para que não seja aprovada. Enquanto isso, os pervertidos satisfazem sua sede de sangue com a farra-do-boi, outra bestialidade semelhante, proibida por leis recentes, mas que continua sendo praticada nas praias catarinenses, sob a complacência das autoridades.
Quando acontece de um ou outro touro levar a melhor, eu fico feliz pelo touro, afinal, ele não pediu para estar ali, apenas tentou se defender de seus algozes.
Atirar pessoas aos leões em arenas foi uma tradição que durou muitos séculos e nem por isso a UNESCO vai colocar essa prática como patrimônio da humanidade...

Retalhos da Vida

RETALHOS DA VIDA
Leda Coletti

Na maioria quadrados: de todos os tamanhos e cores. Certinhos sem senões. São muito fáceis de construir.
Sei que a vida é uma bola que gira e quanto mais rápida mais atordoa; por isso no lugar dos círculos, ainda prefiro os retalhos quadrados. Até que os retangulares servem pra pensar na possibilidade de sair da bolha. Só ilusão, porque quando o caminho parece continuar, já vira pra outro curtinho e faz o medo aparecer. Daí pra disfarçar, a gente remexe igual a balão subindo, subindo pro céu, dançando um sambão lascado, esnobando qual losango pintado de vermelho, branco, preto, dourado. Essa euforia no firmamento dura até o seu lume apagar.
Chega a noite. Extasio-me com a colcha estendida, exibindo no seu centro, retalhos luminosos estrelando a constelação Cruzeiro do Sul!
Relaxo então meu corpo sobre esse azul repousante, onde brincam quadrados, retângulos, losangos, círculos multicores e sinto nos sonhos, uma nova estrela nascer dentro de mim !

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Testemunhas do passado - Lídia Sendin

Testemunhas do passadoLídia Sendin
Li certo dia num jornal local uma frase atribuída ao Dalai Lama, que dizia: “Só existem dois dias do ano em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e outro se chama amanhã; portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e viver.” Eu acrescentaria recordar e sonhar.

Na verdade o presente é tão rápido que é preciso certa agilidade e presteza para aproveitá-lo. Quando, com a idade, os movimentos ficam pesados, uma coisa a fazer é lembrar o passado com carinho e a outra é sonhar com o daqui a pouco, pois amanhã pode ser muito tarde...

Como o sonho ainda não é coisa nossa, palpável, tangível e desfrutável, o que a gente tem mesmo é o passado. Nossas lembranças, fotos, filmes, certificados, diplomas, cartões de Natal, de aniversários, dia das mães, livros que lemos, o quadro surrealista que ganhamos do amigo esquisito, o vaso cafona que a velha amiga nos deu, o anel feito de papel de bala, presente do primeiro namorado e a embalagem do Sonho de Valsa, junto com a pétala de rosa seca, dentro do caderno de poesias. Enfim, pedaços do passado, guardados com carinho, como se fossem preciosas testemunhas do que passamos.

Ah! Como são importantes as testemunhas! Quando são chamadas elas acusam e destroem vidas ou libertam o inocente de uma pena injusta. Não podemos passar sem elas. Mas temos também testemunhas que não podemos guardar nas gavetas da vida. São as pessoas. Elas se vão, escorrem entre nossos dedos e nos deixam sem o seu olhar aprovador, sem a possibilidade de um: não é mesmo? De uma aprovação ou negação da nossa fala. Aquelas que nos mostram o nosso erro, bem no nosso nariz, mas que só o olhar amigo vê e sabe apontar com amor.

Onde está aquele colega de classe que nos viu tirar a melhor nota da prova oral? Onde está aquela vizinha que testemunhou os primeiros passos do nosso filho no parquinho do prédio? Onde está o namorado que viu nossas primeiras lágrimas de amor? O passado é a única coisa que temos.

Sem as testemunhas do nosso passado o pedaço mais concreto das nossas vidas vira fumaça. O que já vivemos é nosso, podemos usufruir dele com propriedade.

Não esqueça, porém, que se não vivermos o hoje, que “é o dia certo para amar, acreditar, fazer e viver”, não teremos o que recordar amanhã.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Toque no coração


TOQUE NO CORAÇÃO
Elda Nympha Cobra Silveira

João sempre se preocupava em prover uma vida financeira melhor para sua família e por essa razão pouco tinha convívio familiar com todos, sua esposa procurava compreender, mas sentia muita falta desse relacionamento. Onde ficaram seus sonhos de parceria e companheirismo formadores de um verdadeiro lar? Seus filhos pouco o viam e o sentia excluso de suas vidas . Ele diariamente saia com o raiar da aurora e só voltava com o luar, encontrando seus filhos ainda pequenos dormindo em suas caminhas. Só pensava na parte financeira, no consumismo, galgar um status condizente com a exigência da sociedade.
João pensava que a vida era efêmera e que era necessário se tornar realizado o mais breve possível, para poder gozar melhor sua vida com sua família e assim visando só vivia para o futuro e não vivia o presente.
Os seus sentiam falta do colo que acolhe, a carícia de um olhar, um sorriso contagiante e a disponibilidade de trocas de amor e momentos lúdicos.
Certa noite pode chegar mais cedo em casa e ao passar pelo quarto do seu filhinho ouviu-o orando:- “Papai do Céu meu papai está vivo e não posso vê-lo, nem brincar com ele. Ele só está comigo quando sonho com ele. Se ele morrer ele terá tempo para mim, como nos sonhos. ? Mas não quero assim!”João ouviu tudo e emocionado percebeu que a vida era muito curta e que nada de sua vida teria sentido se não tocasse o coração das pessoas que amava, que era seu maior tesouro e dava sentido ao seu viver enquanto durasse

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Aprendizado

APRENDIZADO
Maria Cecília Graner Fessel
O menino enfiou na boca uma última jabuticaba e saboreou seu caldo doce quando ela se arrebentou num “ploc”. Seu pai plantara aquela fruteira no dia de seu nascimento. Ele tinha crescido escalando seus galhos, cada ano subindo mais alto.
“-Obrigado, Árvore”, disse ele, enquanto descia correndo ao encontro dos moleques que o chamavam.
Ao redor da mesa da oficina abandonada todos sentiam a excitação do fruto proibido: lá estavam as pilhas de folhas coloridas. A cola. O arame. O querosene. A mecha de estopa. A tesoura.
Trabalharam seriamente. Um media e dobrava o papel. O mais experiente escolhia as cores que combinavam e colava tudo com cuidado. Quando pronto, ele ficou lindo: bem grande, leve, parecia querer escapar-lhes e alcançar a liberdade do céu azul. Mas não era hora ainda.
Voltaram à noite. Numa algazarra feliz eles soltaram o Balão e viram-no subir, subir, até se confundir com as estrelas, balançando seu brilho amarelo na noite ventosa. Gritaram sua vitória. Acompanharam-no até que as colinas o encobriram. Então, rindo e se vangloriando, foram dormir cansados.
Ele acordou com os gritos do pai. Levantou correndo, descalço, acompanhando o movimento da família. Na porta que dava para o quintal, seus olhos se arregalaram: os restos coloridos do Balão queimavam juntos com os galhos da Jabuticabeira, unindo num abraço fatal os dois amores de sua infância!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Por quem os sinos dobram - Ruth Assunção

POR QUEM OS SINOS DOBRAM
Ruth Carvalho Lima de Assunção

(texto em homenagem à Maria Cecília Bonachella por ocasião de seu falecimento)

Uma poetisa nos deixou. Gotículas de chuva, lágrimas caídas da imensidão pranteavam seus últimos momentos entre nós. Um suave aroma pairava no ar, vindo das coloridas pétalas de rosa espalhadas sobre sua campa.
Partiu. Sua trajetória terrena marcou a leveza de seus gestos, a magnitude de suas palavras, o encantamento de seus versos na transparência de uma realidade mística.
Partiu,deixando para nós a herança do arrojo, da persistência e fé nos dias do amanhã.
Em toda a sua fragilidade física alçou para a eternidade como um pássaro buscando nas alturas espaços mais amplos de espiritualidade.
Maria Cecília nos deixou órfãos de seus futuros versos, que, com certeza, nos encantariam.
Em suas oficinas a ternura e o amor estavam sempre presentes. Sua mansidão e carisma garimpavam em profundidade buscando no imaginário das mentes poéticas aquela seiva que iria forjar talentos que dormiam na essência de cada aluno.
Hoje, uma estrela pequenina e cintilante fazendo a diferença numa constelação de cores e variadas formas.
Sua luz continuará sempre a brilhar, iluminando o caminho do poeta, que busca em metáforas, percorrer o caminho da poesia e da arte neste universo imaginário. Uma âncora aos anseios dos artistas simples que buscam palavras para projetar suas inquietações.
No recolhimento de sua alma afetuosa e simples burilou palavras, acalentou ideais, procurando no convívio projetar para todos um mundo melhor e mais humano.

Bissexto - Ludovico da Silva

BISSEXTO
Ludovico da Silva

O dia 29 de fevereiro, que aparece no calendário a cada quatro anos, foi criado como forma de reajustamento das horas sobradas a cada dia e somadas nesse período. Por causa disso é que ganhou um apelido meio esquisitão, que é Bissexto.
O que é meio complicado é para quem nasceu nesse dia, na comemoração do aniversário. Muitos fazem a festa no dia anterior e outros no posterior, dependendo do dia da última semana do mês ou da primeira de março, se é sábado ou domingo. Alguns deixam para comemorar mesmo de quatro em quatro anos, o que pode ser prático, mas pouco interessante. Agora, problema foi resolvido, com o registro no dia seguinte.
E a questão do nome?
O brasileiro tem uma cabeça bastante criativa em relação ao registro de nascimento.
O folclore é tão rico que fornece nomes esdrúxulos para vários volumes. Um dos mais conhecidos é o chamado Um Dois Três da Silva Quatro, sempre citado.
Agora, quando se pretende prestar uma homenagem, o nome acaba se tornando mais hilariante, dentro da família e entre amigos.
Foi o que aconteceu no dia de um ano bissexto qualquer, que ficou na história: Último Quadriênio da Silva.
É mole?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Poeta não morre, retorna à essência

Poeta não morre: retorna à essência
Maria Iraci Pinto

Na verdade, nós nos vimos pessoalmente duas ou três vezes, nos falamos por telefone e poucas vezes também, mas tínhamos uma ligação muito forte e verdadeiro: Maria Cecília e eu sempre estivemos ligadas pelo amor à poesia, ao amor à vida de poetisas que sempre fomos.
Estávamos ligadas por um elo invisível de amor à literatura há quase vinte e seis anos.
Nos idos de 1981 eu lhe enviei dois cadernos de poesias de minha autoria para que ela analisasse e me dissesse se eu teria futuro. Algum tempo depois, ela pediu que um amigo me devolvesse os cadernos devidamente corrigidos, muito pouca coisa se salvou, mas ela me disse que lesse muito, escrevesse também e que insistisse, pois talento eu tinha, era um diamante bruto que a vida lapidaria se seu me deixasse lapidar. Mandou também de presente seu livro “três Fases” e a dedicatória mais linda que recebi na minha vida:” Maria Iraci – A vida de um poeta nem sempre é poética, mas cabe ao poeta fazer dela uma poesia”, e foi aí, nesse dia 18/06/1981, diante daquele mensageiro dos correios, sentados jovialmente na calçada de minha mãe, no auge dos meus 23 anos, os olhos cheios de lágrimas, jurei que minha vida seria uma eterna poesia a partir dali. E o mensageiro (meu amigo até hoje), disse que eu estava certa.
Nunca mais me afastei da Maria Cecília, e nestes 26 anos colaborei na sua página literária “Palavras e Versos” com o maior prazer. As correções dos primeiros tempos foram se espaçando, espaçando, embora não tenha se extinguido de todo, pois afinal, não tenho grandes estudos até agora e a Maria Cecília sempre exigente e convicta em ensinar aos menos escolados, com a mansitude e maestria da grande mestra das letras.
Não gosto de falar de dores, tristezas e nem faço apologia à infelicidade, por isso, peço licença à queridíssima Maria Cecília Bonachella, e em nome da admiração e amizade mútua, quero falar de sua partida com a alegria que invade o coração de uma filha que retorna à casa paterna para merecidas férias, após anos de pesados estudos.
Sim, Maria Cecília, com certeza os anjos a receberam com cantigas de roda e pincéis coloridos para que você os ajude a colorir nuvens e sonhos.
O rio da vida eterna respinga gotas em você amenizando-lhe a fronte cansada, a brisa suave da eternidade refrigera sua alma refeita do cansaço terreno e o mestre dos mestres, entrega-lhe penas que se soltam das asas dos anjos e tintas indescritíveis, lindas e fluorescentes para que você escreva nas nuvens seus novos e eternos poemas.
Novamente menina, moça, mulher, mãe e avó, mas indisfarçavelmente Poetisa.
Não consigo ver tristeza ou dor numa alma que volta à sua essência Maria Cecília, por isso, falo de alegria, de beleza e de vida, minha queria poetisa, da exuberante felicidade que se vestiu o reduto das almas poéticas eternamente louvando o belo, o bom e encantador, para recebê-la com pompas de uma rainha e na magnitude de sua singela humildade.
Até um dia, se Deus permitir que eu a reencontre.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Felicidade - Ludovico da Silva

FELICIDADE
Ludovico da Silva

Ao abrir a janela, logo pela manhã, deparei com uma paisagem que prenunciava um dia triste. O céu estava encoberto por nuvens escuras, barrando o sol, que lutava com seus raios fortes, para dar vida à natureza.
Uma chuva começou a forçar as pessoas a apressar os passos.
As flores, que enfeitavam os jardins, se encolhiam entre os ramos dos arbustos, à procura de abrigo. Pareciam tristes, como o próprio tempo.
Fios de água escorriam pela sarjeta, ganhando força ao alcançar a ladeira escorregadia e se perdiam no encontro do rio la embaixo.
Mas tudo passou de repente. Então, vi os raios do sol atravessando a chuva mansa, colorindo o céu, com a beleza de um arco-íris.
Meus olhos encheram-se de felicidade.

A longa noite do adeus

A longa noite do adeus...
Maria Coquemala

A menina dorme, meninos já voltaram à escola na capital... Marido se foi, a tristeza o arrastando para longe, não quer vê-la nos últimos momentos. Estou sozinha com ela. Arfa muito, temo que não passe desta noite, a barriga inflou desmesurada, a rústica costura da cirurgia recente quase desaparecendo... Converso com ela em pensamento, pergunto se aguenta o tranco, falo de quanto a amamos, é cedo ainda pra partir... Ela parece serenar, procura se ajeitar... Tento não chorar, vou à sala de TV ao lado, procuro me distrair com um programa qualquer, um filme está ainda no começo, vou acompanhando, a atenção dividida entre a cachorrinha que sofre e a trama do filme, um barco virando, dois meninos envoltos pela água, o afogamento de um, o salvar-se do outro, nadando até a margem...
Volto ao quarto, ali está ela tentando se arrastar até a porta, quer sair, ajudo, vamos juntas até o quintal. Mesmo sofrendo, não quer sujar a casa... Num esforço que a esgota, urina, quer voltar, ajudo, acabo carregando-a nos braços, malgrado o peso... Como engordou nos últimos anos... Sequela das drogas anticoncepcionais, pobre animal, uma única gravidez, mas sete cachorrinhos focinhudos, a marca dos vira-latas... Que ninguém queria... A malandrinha escapou uma noite da nossa vigilância, quase adolescente, mas engravidara, posso imaginar a grande aventura, o parceiro tesudo, o espanto quando tornada mãe de tanto cachorrinho, tantas as bocas, nunca que as tetas descansavam... Pobre Tita... Que altos juros pode ter o preço do amor...
Acomodo-a, volto ao filme, ao menino adolescente com seus traumas, advindos da morte do irmão... Por que não tentara ajudá-lo? As cobranças nos gestos, no silêncio, nos olhares acusadores, até da própria mãe. O irmão, o que era ótimo na escola, o que ajudava nas tarefas domésticas, o que pescava com o pai, o filho bem amado, este morrera... Ele, o preguiçoso, o desobediente, o relapso, sobrevivera, sequer estendera a mão ao irmão se afogando, sequer um gesto, uma tentativa... Confessa ao amigo, talvez melhor seja voltar ao rio, morrer também, livrar-se da cruz que lhe puseram às costas... Volto a me preocupar com Tita, tinha me concentrado mais do que desejava naquele menino angustiado, vítima das contingências da vida... Mas, como pudera esquecer-me dela, um momento que fosse?
Respiração mais acelerada, apoiada nas patas dianteiras, Tita busca sôfrega o ar, mas ar que parece nunca suficiente... Volto à sala, preciso saber o que o menino vai fazer na sua extrema angústia... Lá está o pai com a mala, por algum motivo que já não posso saber, deixa o lar... Espero um pouco, quero saber sobre o menino, se pôs fim à vida, se... Mas preciso ver Tita... E lá está, o ar já não lhe falta, deitada de lado, olhos abertos, imóveis, a boca aberta... Morta. Tento fazê-la voltar à vida, chamo, choro, menina acorda, chora comigo, perdemos Tita... A que um dia chegou à nossa casa da praia, filhote ainda, com sua coleirinha incrementada, a que não tinha dono, ou tinha, mas não encontramos, ou não quisemos encontrar, de tal modo nos apegamos a ela desde o começo. E certamente nos escolhera, assim racionalizávamos. A que destruía meias e sapatos, brigava com os gatos, impunha distância a quem tentava se aproximar, mas nunca, nunca mesmo, tinha mordido alguém. Tita, a que viveu por 12 anos em nossa companhia... A que nos deu lições de humildade, de afeto, de fidelidade estrema... A primeira a correr para o carro, quando nos via pegar uma mala... A que sempre nos acompanhava, aonde quer que fôssemos...
Mal dormi algumas horas... Com a chegada e ajuda da faxineira, a envolvemos em seu cobertorzinho entre as flores que a menina colheu no jardim. Então a levamos de carro a um lugar alto e bonito, onde, sob uma grande árvore, um trabalhador rural nos ajudou a enterrá-la. Restam as doces lembranças da nossa cachorrinha...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Manhã luminosa - Maria Cecília Fessel

Manhã luminosa
Maria Cecilia Graner Fessel
Ontem a manhã estava fresca, o céu começando a azular e a luz do sol ainda era só alegria.
Então fui caminhando pelas ruas até a padaria e voltei para casa com bem mais que pães quentinhos num saco de papel.
No ar limpo e fresco misturavam-se muitos odores. Havia o cheiro da chuva noturna evaporando dos telhados, das paredes, do solo. E havia também o perfume natural, forte, puro e adocicado, das muitas árvores no meu caminho. (Com certeza, confusas no verão chuvoso, supondo que ainda fosse primavera).
A mistura de aromas exalava das florinhas brancas de murta, invadindo as narinas e tonteando os sentidos; das goiabeiras nos quintais, fazendo-me lembrar do sabor agridoce das frutas comidas ainda no pé, na minha infância; dos jasmins manga, das ameixeiras e pitangueiras, as árvores todas exalando oxigênio por suas folhas lavadas e brilhantes.
Nas calçadas, os resedás explodiam em cachos cor de rosa e lilases, enquanto as quaresmeiras formavam ramalhetes roxos aqui e ali, e os raios de sol transformavam em diamantes as gotas d`água aderidas às suas folhas peludas.
Até as pessoas que passavam pareciam transfiguradas pela luminosidade do dia. Um velhinho de bengala me cumprimentou sorrindo, uma criança passou correndo atrás de uma bola e um bebê olhou-me do colo de sua mãe e começou a gorgolejar alegremente.
Ah, bendita bonança pós tempestade! Naquele momento amei a tudo e a todos, pois me senti no próprio colo do Pai, que me mostrava suas obras carregando-me com o mesmo carinho com que um dia carreguei meus filhos nos braços...

A mutação das fadas

A MUTAÇÃO DAS FADAS
Cassio Camilo Almeida de Negri

O quintal da casa continuava em um bosque, igual àqueles que existem na imaginação das crianças.
Grossas árvores centenárias coloriam de verde a paisagem. O chão, forrado por grossa camada de folhas secas e em decomposição, pincelavam o local com nuances que iam do amarelo ao avermelhado.
A cada passo dado seu amassar ecoava singela melodia junto com agradável odor de musgo úmido.
Raios de sol por entre as árvores espaçadas se desenhavam ao refletirem-se nas gotículas de vapor e pólen suspensas no ar.
Um ou outro pássaro quebrava o silencio com seu cantar, convidando ao descanso do corpo e elevação do espírito.
Então, no pé da arvore, a terra começa a fender. Racha, e de dentro dela começa a sair horrendo ser escuro, parecendo asqueroso verme, com pernas angulosas e peludas e com espécie de gancho nas pontas .
Após um longo sono de dezessete anos, aquele monstro acorda. Ninguém sabe o que o despertou. Da terra mater, surgem aos milhares, milhões, incontáveis.
Com suas patas em gancho, vão subindo pelos troncos arbóreos quando desce o véu da noite negra.
Iluminados pela lua cheia, forram os troncos das árvores, como um horrendo exército de monstros. Param, agarrados em diversas alturas das plantas .
Em dado momento, seus dorsos se partem, numa metamorfose fantasmagórica ao luar. Dali emergem seres alados, com suas asas transparentes e rendilhadas, parecendo feitas de papel de seda.
No dia seguinte, um verdadeiro concerto musical ecoa pelo bosque.
São as fadas cigarras, anunciando o verão. Emergiram das trevas onde estiveram hibernando por dezessete anos, para, por alguns dias cantando, procriar o eterno ciclo da vida.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Reminiscências de um Carnaval Mágico

Reminiscências de um carnaval mágico
Ivana Maria França de Negri

Que se lembrasse, desde que se entendia por gente, não gostava de carnaval. Achava aquilo tudo uma grande bobagem, o barulho atordoante, uma afronta aos seus ouvidos acostumados a ouvir música suave.
Nunca entendeu o significado daquela agitação toda e quais os benefícios que essa loucura coletiva, regada a suor e bebida alcoólica, poderia trazer às pessoas.
Sua mãe até que tentara fazer com que gostasse da festa. Levou-a mais de uma vez às matinês infantis dos clubes da cidade. Ficava desesperada e não via a hora da tortura terminar, de poder tirar a fantasia sufocante e livrar-se do batuque infernal que feria seus ouvidos delicados. Queria chegar logo em casa, tomar um bom banho, livrar-se da fantasia e recolher-se no refúgio aconchegante e silencioso do seu quarto. Daí sim, sentia-se muito bem, envolvida na penumbra do quebra-luz e podia devanear à vontade.
Amava ler, e lia muito, tudo o que lhe chegasse às mãos. Seu pai a compreendia. Ele também gostava do mundo mágico dos livros e, por isso, num carnaval da sua infância, mais precisamente no décimo, ele presenteou-a com uma jóia rara que a acompanhou pelo resto da vida: uma coleção completa dos livros de Monteiro Lobato. Começou a devorar livro por livro e mergulhou no voo que lhe ofereciam as asas da fantasia infantil. Conheceu a impagável boneca de pano Emília, espevitada Marquesa de Rabicó, e também o erudito Visconde de Sabugosa, a sonhadora Narizinho, o travesso Pedrinho, amou a dona Benta como se fosse a sua própria avó e ficava com água na boca pelos quitutes da Tia Nastácia.
Ficava por horas seguidas lendo e relendo cada trecho, como que para assimilá-los e nunca mais esquecê-los, vivenciando cada um deles, como se ela própria fizesse parte da história, e chegava assim às raias da felicidade. Depois daquele presente, nunca mais foi a mesma. Tinha entrado no mundo maravilhoso da literatura, e pela porta encantada que nem todos têm a sorte de ter acesso no decorrer de suas vidas.
Na adolescência começou a escrever romances e nunca mais parou. Enquanto as amigas iam se divertir nos bailes de carnaval, ela produzia textos e mais textos, criava histórias, tramas, e ficava muito tempo confinada no refúgio seguro do seu quarto enquanto a festa pagã rolava lá fora e os batuques soavam distantes do seu mundo.
Alguns anos mais tarde, tornou-se escritora de renome e obteve merecido sucesso com as histórias que tecia, apreciadas por leitores do mundo todo.
Não ficou rica, mas tinha uma vida sem privações. Até comprou um pequeno sítio, seu grande sonho, onde plantou as mais variadas espécies de flores e mantinha animais que recolhia das ruas, gatos, cachorros, pequenos roedores, e todos compartilhavam de harmoniosa convivência.
Quando se aproximavam os festejos de Momo, ela se recolhia ao seu paraíso particular para escrever e, de seu fértil imaginário, surgiam os mais belos contos e romances, que enterneciam os corações cansados e sofridos de milhares de pessoas, tão carentes da beleza pura que irradiam palavras bem colocadas.
E pensar que tudo começou num longínquo carnaval da infância, quando seu pai lhe deu o melhor presente que uma menina sonhadora poderia ganhar: conhecer o mundo mágico de Monteiro Lobato e enveredar pelas trilhas enfeitiçadas da literatura.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Mergulho interior - Aracy Duarte Ferrari

MERGULHO INTERIOR
Aracy Duarte Ferrari

Olhando-se no espelho, oval, quadrado, redondo, retangular, com ornamento, sem ornamento, sente seu semblante compactuado com o tempo no seu tempo exato.
Observava tudo além, bem além das imagens de seus ais e das indagações e vê nesta reflexão:ocorrências, fatos, sui generis, momentos marcantes salpicados de doce amor, os quais não pode exemplificá-los porque são pessoais e só a ela pertencem. São até pensamentos desconexos.
Estes não se encontram no espelho, nem em sua face, mas no coração. Um coração maduro que bate forte, emitindo raios côncavos e convexos, à distância, atingindo outras pessoas.
Só as rugas altamente vulneráveis sabem de seus segredos e tesouros que conservam e que estão criteriosamente guardados e das vivências promissoras para presente.
Ah! Continua a olhar no espelho. Com um pouco mais de prudência e muita sabedoria, considerando os mistérios da vida e do amor.
Tudo tem seu exato momento, nada acontece por acontecer. É só aguardar sem ansiedade , mas com serenidade!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Primeira reunião do ano

Em meio a presença amiga dos livros, cujas almas de papel inspiram os escritores, a primeira reunião do ano do GOLP


Primeiro, matar as saudades e depois, apresentar os projetos para 2010 e escrever textos, a finalidade primordial do Grupo Oficina Literária de Piracicaba


Professor Cornélio, Maria Emília Redi, Aracy Ferrari, Leda Coletti, Elda Silveira, Ivana e Cassio Negri

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Histórias de Psiquiatra - Ana Paterniani

HISTÓRIAS DE PSIQUIATRA
Ana Lucia Paterniani

De manhã cedo, começamos o expediente...

- " Comadre Gioconda, cadê o primeiro cliente? "

- " Fulano não apareceu... Mas se a senhora quiser,
pode ir atendendo o sicrano,
que estava agendado para amanhã,
mas veio hoje por engano..."

- " Pois então entre, sr. Sicrano
e me diga como está passando...? "

- " Não melhorei nada, doutora...
Parece que até piorei..."

- " Mas o senhor tomou a medicação
direitinho como eu lhe recomendei? "

- " Eu não, doutora! Tenho medo
desses remédios "fortes"...

- " Pois então eu vou lhe mandar num outro
doutor japonês... Fazer um tratamento alternativo...
Ele vai lhe dar umas agulhadas, uns tapinhas,
uns golpinhos de caratê... E o senhor vai melhorar... "
( e eu raiva não vou mais passar... )

- " Próximo paciente! "

- " Doutora, o senhor fulano chegou
e o paciente do horário não apareceu..."

- "Pois bem então... Que entre o senhor fulano!
... Como vai? "

- " Doutora, aquele citalopram que a senhora
me deu... Quase me matou!
Bom está o meu vizinho... O doutor petisco acertou
o remédio dele direitinho... Está aqui ó... Eu até
anotei o nome nesse papelzinho...:
Fluoxetina!... É esse que eu também quero tomar! "

-" Bom remédio também, senhor fulano...
Que azar que eu não passei logo esse para o senhor,
não é mesmo?!? Pois tome essas amostras grátis
e as receitas da sua fluoxetina então... E passe bem! "

-" Próximo! Dona Carmelina!! Cada vez mais jovem,
até parece uma menina!!! "

- " Eu, hein, dra... Até seria, se a senhora
não me obrigasse a tomar essa tal
Fluoxetina!... Eitah remedinho ultrapassado esse!
Minha comadre foi consultar um professor
em Campinas e está tomando esse aqui, ó,...:
É esse que eu quero tomar: ci-ta-lo-pram ! "

- " Então tá, dona Carmelina... Tome aqui
as amostras e receitas do seu citalopram
e me devolva as suas fluoxetinas que eu vou
aumentar a minha dose..."

Asas do Amor - Maria Emília L.M.Redi

ASAS DO AMOR...
Maria Emília M. Redi

Era uma linda manhã de sol! O mar deslizava suavemente seus encantos por toda orla.
Da janela, semi aberta, daquele apartamento do sexto andar, Luca, um rapazinho de uns sete anos, preso em uma cadeira de rodas, observava tudo lá fora e vibrava com a euforia das crianças brincando, mesmo sabendo que não podia compartilhar daqueles folguedos infantis, nada alterava o seu ânimo e alegria de viver.
O céu escureceu de repente. Lá para os lados da serra, as nuvens, que há pouco tempo estavam espalhadas como flocos de algodão, concentraram-se em um manto negro. A tempestade não tardaria!
Luca chamou a mãe para ajudá-lo a fechar a janela escancarada pela ventania que, além de fazer esvoaçarem nervosamente as cortinas, ia derrubando tudo o que encontrava em seu caminho. Tudo foi tão rápido. Mas, a espera pela mãe parecia uma eternidade.
O menino, desesperadamente, tentava com todas suas forças fechar a janela, mas não conseguia. De repente, um objeto foi atirado em seu colo com uma fúria indescritível. Neste exato momento chegaram a mãe e a empregada.
No colo de Luca o objeto trazido do céu movimentava-se indelével.
Era um pequenino pássaro, caído do ninho, ainda com a penugem rala e com o coraçãozinho disparado pelo susto.
Luca o abrigou com carinho. Voltou para a mãe um olhar suplicante - pedindo para ficar com o pequenino ser alado até que ele pudesse voar. A mãe consentiu.
O menino, muito feliz, passou a cuidar diariamente deste seu novo amiguinho enquanto ele crescia transbordando vitalidade e encanto. O tempo voou... até que chegou o dia de soltá-lo em seu habitat.
Toda a família acompanhou Luca na entrega do pássaro às suas origens.
Abrindo as mãos que seguravam carinhosamente o seu protegido, deu um suspiro, e lançou-o ao ar - Voa livre pelos ares meu amigo! Um dia nos reencontraremos...
O menino voltou para casa e todas as manhãs observava de sua janela a vida vibrando lá fora. Às vezes, seu olhar perdia-se no infinito, viajando nos sonhos de criança ou esperando ver o amiguinho alado. - Só mais uma vez...
Numa manhã ensolarada, destas que nos trazem bons fluídos, Luca encontrou uma bela surpresa no parapeito da janela - não só era o seu amiguinho que ali encontrava-se, mas, também, sua companheira para mostrá-la ao grande amigo, que, um dia, tinha-lhe restituído a chance de voar.






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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Jeito de amar - Camilo Quartarollo




JEITO DE AMAR
Camilo Irineu Quartarollo

Esses cantos repetitivos dos pássaros, como um tititi. Uma brisa quente vem às narinas, com os diversos aromas do mato e penso que se pudesse invadiria a mim e a esta escola. Seria seu jeito de amar. Uma linguagem? Os planos verdes em barrado das paredes e o prédio de humanos seriam abraçados por cipós e caules amorosos. Para uma consciência, uma linguagem. Qual a sintaxe das árvores? Nessa gramática verde não existem conectivos, mas uma onda constante, uma imanação de amor.

Absurdos - Plinio Montagner

ABSURDOS
Plinio Montagner

São tantas as coisas boas, e tantas as ruins.
O bonito sabemos que existe, mas sabemos porque existe o feio. E o feio é feio e o bonito é bonito porque a cultura ensinou assim. Bicho não sabe do feio e do bonito, nem criança.
E existe ainda o feio no belo. Como se explica? E beleza no feio?
Outros paradoxos há.
Havendo amor, o baixo e o alto não se colidem nem brigam. O gordo e o magro vivem em paz.
O inteligente sobrevive sem o néscio porque um precisa do outro.
O esperto precisa do bobo e o bobo se faz de bobo para se aproveitar do esperto.
O bobo é mais feliz, disse a escritora Clarisse Lispector, senão mais sábio que o próprio sábio. O bobo não discute nem tem interesse de ganhar brigas.
E lhe sobra tempo para gozar o que o esperto faz.
Quem realiza sonhos é feliz. Isso é mais fácil para quem tem dinheiro e excesso de tudo.
Quem tem só uma camisa é o quê?
Se o moço pobre não tem nada, mas tem uma mãe ou um governo que lava e passa sua roupa, oferece uma cama, um teto, comida, e universidades, e bolsas, muitas bolsas - quer mais o quê? Trabalhar, para quê? Quem é o bobo?
Bobo tem tempo para ouvir música, refletir, escrever, comer devagar. Não paga contas, ganha, e não trabalha. O esperto e inteligente trabalham.
O pobre é como o bobo, é próspero porque tem em abundância o tempo e escassez de preocupações.
A ascensão das mulheres favoreceu o aparecimento do tipo despreocupado desempregado.
Procurar serviço para quê?
O vagabundo não nasce, ele se forma porque se acostuma.
Um telefonema demorava horas. O telégrafo funcionava, os navios e locomotivas a vapor e os aviões bimotores chegavam ao destino.
O “chique” e o romântico existiam em cada baile da vida.
Tempo para aconchegos havia, namoros românticos no cinema, paz. Pais e filhos e filhas e netos se viam, e jantavam à mesma mesa.
Correntes puxavam veículos. A taramela (leia - tramela...) fechavam portas e janelas.
As invenções encheram a casa de trecos, a medicina prolongou a vida, o mundo ficou maior. A comunicação velocíssima era para sobrar tempo para passear, pescar e prosear.
Tudo ao contrário. Correria, para chegar antes, ganhar mais, produzir mais, saber mais, aprender mais, e morrer triste, e só.
Cadê o tempo para escrever, ler, refletir, namorar e tomar sorvete?

sábado, 6 de fevereiro de 2010

CONVITE


LIVRO NA RODA®
I SEMANA INTERDISCIPLINAR NACIONAL DO LIVRO E DO LEITOR
CONTADORES DE HISTÓRIAS E MEDIADORES DE LEITURA

CONVITE PRE SELEÇÃO
Se você é Escritor, Contador de histórias, Cirandeiro, Grupo de Teatro Infantil ou de Bonecos ou Musico / Violeiro é nosso convidado, pois estão abertas as Pré Inscrições para trabalhar no LIVRO NA RODA® - I Semana Interdisciplinar Nacional do Livro e do Leitor – Mediadores de Leitura e Contadores de histórias, a ser realizado na Região Metropolitana de Campinas – (19 cidades).
O Mega evento será realizado na Semana de 26/04 a 02/05, pelo Pontão de Cultura Livro na Roda- NHL Produções Culturais e as empresas Emporyo das Artes e Fair Trade.
As inscrições abertas serão para:
A - oficinas – 12 h; em 03 dias de 03 hs, duplas (realizada 2x – manhã e tarde) - 40 vagas
B - palestras - (60 minutos) – 07 vagas
C - shows teatrais literários - (até 120 minutos) – 07 vagas
D - sarau de musica e poesia – (30 minutos a 01h) – 21 vagas
E - mesas redondas - (exposição de idéias – 20 minutos e debate 01h) -
F - histórias rápidas - (conte apenas uma historia – 10 minutos no máximo);
G - show de bonecos – (até 60 minutos);
H – relato de experiências de leitura - (10 minutos - aberto para professores e ONGs).
I – Girahistórias nas Escolas – (16 apresentações de 01h) – 84 vagas.
Aguardamos a sua disponibilidade; nome e ementa da sua oficina ou palestra, nome e ementa de seu show (daremos preferência para shows baseados na literatura ou ambientais); sua história e os valores para sua participação. Haverá o pagamento de cachê para as atividades selecionadas, hospedagem, alimentação e transporte para os convidados que residam fora de Campinas. O prazo para respostas é 11 de fevereiro de 2010.
Abraços, aguardando a sua resposta ou pedidos de maiores esclarecimentos, no email http://br.mc651.mail.yahoo.com/mc/compose?to=livronaroda@yahoo.com.br
Maria Inês Saba / Suzana Montariol
Comissão de Eventos Pontão de Cultura Livro na Roda®

A chance - Maria Emília L.M.Redi

A CHANCE
Maria Emília M. Redi

Jaime homem resoluto, trabalhador exemplar, mas, extremamente ambicioso.
Vivia para satisfazer suas vontades, pouco preocupando-se
com os sentimentos das pessoas, as quais ele achava – tinham a obrigação de agradá-lo sempre. Não admitia uma contrariedade sequer, fosse no trabalho, fosse em casa, em qualquer lugar era ele quem dava sempre a última palavra.
Era um sujeito simplesmente detestável.
Estava sempre dizendo: – não deixo faltar nada para minha esposa e filhos, lhes dou tudo o que precisam, casa, comida, educação, clube, conforto, enfim eles não têm do que reclamar.
Porém, nunca tinha um minuto de atenção e carinho disponível para sua esposa ou para a prole. Sua preocupação era garantir-lhes o sustento e o próprio padrão de vida.
Vivia para o trabalho. Não podia perder tempo, pois tempo é dinheiro.
Com esta filosofia de vida, não parava nem para tomar um café da manhã em paz. Fazia tudo correndo. Alimentava-se muito mal. Fumava muito.
Enfim, nunca achava tempo para ser, vivia frenéticamente em busca do ter. Era o protótipo de uma sociedade onde a posse de bens materiais dá “status”.
Assim, Jaime consumia sua vida, sua saúde, seus dias...
Quando a esposa o abraçava ele a afastava ríspidamente e dizia:- que é que você está querendo? A esposa dedicada, mãe extremosa, sentia-se como um objeto sem valor, baixava a cabeça e chorava silenciosamente toda a solidão de afeto.
Os filhos, um casal de gêmeos, nunca podiam dar um beijo ou um abraço no pai, sempre arredio a qualquer aproximação, eram com a mãe que encontravam os braços amigos, a palavra orientadora e o que precisavam para compensar a ausência da figura paterna.
Numa manhã de primavera, uma brisa fresca e suave tocou ligeiramente o coração de Jaime, fazendo aparecer em seu rosto o brilho de um bom dia para os familiares, que, boquiabertos, não entendiam nada; mas, contagiaram-se por esta felicidade improvisada.
Os filhos, saltando no pescoço do pai, beijaram-lhe o rosto barbeado, também lhe desejando um bom e feliz dia.
A esposa, agraciada pelo momento de angelical transformação do homem de sua vida, recebeu um terno beijo e um caloroso abraço. Seu coração foi aquecido pela esperança de dias felizes...
Naquela manhã, onde as flores se fizeram mais perfumadas, pela primeira vez em muito tempo, Jaime em aparente felicidade, despediu-se da esposa e filhos para dirigir-se ao trabalho.
O destino já estava traçado.
No meio do trajeto, Jaime sentindo-se mal, perdeu a direção do automóvel e foi de encontro a um caminhão que trafegava no sentido oposto da pista.
Por entre os escombros uma súplica se ouvia :
- Deus! Só mais uma chance!!!
E, Jaime, ainda com vida, foi levado pelos socorristas...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A Sétima Estrela - Marisa Bueloni


A sétima estrela
Marisa Bueloni

A você, que me faz tantas perguntas, dedico o texto desta semana. A você, que me escreve tão lindamente, por favor, não pergunte o porquê deste título - “A sétima estrela”. Eu não sei. Surgiu, assim, de pronto, um título profético, mais ou menos como “O segundo sol”, uma música de Nando Reis.

Com o título desta crônica, estou também homenageando um dos meus autores preferidos, Rubem Alves, quando cita “A terceira margem do rio”, um conto de Guimarães Rosa. Não existe a “terceira margem do rio”, Rubem argumenta. Só conhecemos duas, a direita e a esquerda; a de cá e a de lá. E qual é a terceira? Seria a da palavra? A da literatura?

A você que me criva de indagações, deixe-me pensar. Está bem, vou mandar bala. Você também tem veia literária, pois se expressa com clareza e limpidez. Um texto tem de ser claro, ou não alcança o nosso entendimento. E não me refiro à parte cognitiva e intelectual.

Estou sendo clara? Shakespeare disse que “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”. E é isso que move cada um de nós nas suas respectivas direções. Quando rompe o dia, algo tem de transformar a base da nossa alma pequenina. Ou não valerá a pena. Se existem mortes e ressurreições à nossa volta, é porque estamos todos imersos no sonho diário de viver. Isso é tudo que importa: viver um dia de cada vez.

Uns assimilam perfeitamente esta proposta e acolhem, fascinados, o primeiro raio da luz nascitura. Até o momento da reverência à sétima estrela que aponta no céu noturno. Tiveram do tempo uma visão apocalíptica, viveram um dia inteiro. Para outros, esta conversa mística constitui um enigma tolo e pedante. Talvez inútil. Uma linguagem de metáforas improdutíveis.

Mas, ah! E quando se entende a profundidade deste tema cotidiano? E quando capturamos a beleza do invisível, a jactância do que nos arrepia, a sensação de que o corpo ultrapassa a si mesmo, qual um cavalo solto na planície? Então, de minha parte, busco vos dar isso: um texto que represente a redenção. Um poema de vida e de morte. Algo muito óbvio, muito evidente, sob nossas fuças, e que não vemos por cegueira absoluta.

Creio não estar apta a responder todas as suas perguntas. Possuo apenas a competência da minha fé, e preservo este dom espiritual como meu bem mais precioso. Para onde vamos depois da morte? Quem me dera saber! Existem crenças e uma delas é que vamos para o julgamento diante de Deus. Nessa hora crucial, espero ter as mãos limpas, um coração puro, sem muita vaidade e um tantão assim de amor.

Você prefere o texto de rasgar o peito, aquele que beija o assombro, ou as respostas? Sabe, sinto uma profunda gratidão pelas palavras. Com elas, me derramo aqui e em qualquer lugar.Há momentos em que elas são: tomate, queijo, maçã. Depois, mudam para: banho, cabelo, creme. Também podem ser: cama, coberta, sono. Mas me pegam mesmo: tílburi; roldana; anacoluto; inconsútil; ameba; catapulta; solstício... E eu desfilaria aqui um dicionário dessa estripulia vocabular.

Nunca sei se há luz demais no meu texto. Se ele escancara uma boca enjoativa de verbos. Se também preciso depurar esta hemorragia textual, excessivamente feérica, recorrendo à estratégia de pintar alguns sombreados, um pouco de penumbra, para que um bruxuleio misterioso o torne mais poético – a conselho dos sábios poetas.

Estou disposta a negociar tudo isso, em troca da beleza a qualquer preço. Aquilo que nos toca a alma: sabedoria, liberdade, inteligência, beleza. Esta última, por exemplo - a beleza –, habita os lugares mais recônditos. Para que ela apareça é uma luta. Quando quer, se mostra, de graça. E há quem perca essa hora divinal, preocupado com as seduções deste mundo.

Eu não. Monto campana. Estou sempre de vigia, esperando por ela. Não dorme quem guarda Israel. Não durmo eu, sentinela das coisas profundas. Começo pelas mais simples, a imagem da menina empoleirada no galho alto da mangueira, aquele no qual se amarrava um balanço de corda, para o corpo balançar o sonho. Acima da árvore, um céu puríssimo.

Eu sonho, meu anjo. É isso que, afinal, você quer ler aqui? Que eu sonho. E partilho essa ousadia com os leitores. Sonhar faz um bem enorme à alma, ao corpo, à mente, à vida. Se vai nos dar longevidade, não sei. Mas acredito que somos feitos da mesma matéria dos sonhos. Ela não amarrota, não enferruja, não cria vincos. E é eterna.

Portanto, uma existência toda vislumbrando o que habita o invisível, lá no fundo do coração, no reino da esperança, e já não se pode baixar a guarda. Ou esquecer o mais importante. Notou como andamos distraídos? Que triste ir embora sem ter visto o essencial! Não permita, Deus, que eu morra sem ter visto a beleza. Ou o segundo sol. Ou a terceira margem. Ou a sétima estrela.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Gatos do Cemitério - Leda Coletti

Gatos do Cemitério
Leda Coletti

O sol daquela manhã convida os gatos a se esparramarem gostosamente sobre os túmulos do cemitério. Há muito que os jornais da cidade apresentam artigos sobre eles. Muitas pessoas repudiam o abandono desses bichinhos pelos próprios donos, nesse recinto de respeito aos mortos.
Ao adentrar nesse logradouro público vi a bondosa senhora alimentando muitos deles. Ela vem diariamente tratá-los. É uma ação paliativa bem o sabemos, mas enquanto as autoridades constituídas não tomam outras providências e os cidadãos não se imbuem de suas responsabilidades frente aos animais adotados, somos gratas a ela. Mas, continuemos a contar o sucedido. Fui deixar uma rosa no jazigo de Jussara e, me surpreendi com o gato amarelo dormindo tranquilo sobre a lápide. “Sossegado como fora a meiga prima”, pensei. Mais adiante, fui rezar para tia Rosa. Não havia iniciado a primeira ave-maria, quando um bichano branco e preto veio ronronar aos meus pés. Como tentei me concentrar na oração, olhando fixamente para o centro do jazigo, ele mais que depressa se colocou em evidência, acariciando as flores artificiais, resvalando o mato que crescia no vaso de cimento. Devagar veio se aproximando de mim. Instintivamente procurei retroceder e, nesse lapso de segundos, lembrei-me da boa tia, do seu carinho pelos gatos, que de certo modo contagiara a todos da família. Também me vem à lembrança, o último que tivemos no sitio. Era inteiro preto e ganhamos de amiga muito querida. Dizíamos que era “gato de madame”, pois mamãe só o tratava com “wiska” e tinha o seu colo e o de todos nós. Era o seu companheiro mais querido e chegava mesmo a dialogar com ele. Mas, talvez por ser acostumado mais no interior de casa, a primeira vez que saiu (acreditamos que atrás de namorada), nunca mais voltou. Desse dia em diante nossa mãe não quiz ter outro. E este lembra bem o Neguinho (era este o seu nome). Bem que gostaria de levá-lo para o sítio. Aqui na cidade moro em apartamento e constantemente viajo. Com quem irei deixá-lo? E,falando em gato de cidade, vale aqui um comentário sobre o desaparecimento dos gatos urbanos. Uma colega ainda não se conformou, pelo fato do seu lindo gato angorá ter sido envenenado por vizinhos! Que estupidez e falta de amor a um bicho amigo e inofensivo! Muitas pessoas se descuidam da castração e de outros cuidados necessários, optando por desfazerem-se deles. Mas retornemos ao “nosso novo amigo”. Apesar do desejo imenso de adotá-lo, não esbocei sequer um gesto de carinho para o “meu pretendente”, pois temia que me acompanhasse. Dei uma de “indiferente”, me afastando devagarinho. Não é que o bichano veio caminhando à minha frente, miando de mansinho, e de vez em quando entreparando e me fitando! Parecia suplicar que o levasse em minha companhia. Nem mesmo sei como resisti firme, sem corresponder aos seus chamegos.Acompanhou-me até o final do quarteirão. Eu segui adiante. Ao dobrar para nova rua, com receio espiei. Ele se encontrava no mesmo lugar. Pensei: “Deve ser o anfitrião dessa quadra e quis ser gentil para mim, visitante”. Fiquei mais aliviada, quando vi a boa senhora que trata os gatos do cemitério, indo em sua direção e ele todo faceiro vir ao seu encontro!Observação: Essa crônica foi escrita no final do século passado, pois nessa 1ª década do novo, a mama já adotamos dois. Um foi o Corisco, que morreu misteriosamente, e no momento temos uma gatinha, a Nanà, a que só sabe fazer carinhos, arranhando todos nós. Nós a amamos muito!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Meus noventa anos! Lino Vitti


MEUS NOVENTA ANOS
Lino Vitti

São raros os felizardos que alcançam, abençoados por Deus e pela vida, aos generosos e apreciados 90 anos de idade, lúcidos, dotados de uma visão feliz, dando para trincar almoço e jantar sem problemas, com possibilidades de ler 4 jornais diários, caminhar, passear de carro levado pelos filhos ou netos, ao lado de uma amada esposa octogenária, enfim vivendo ainda com todos os direitos e atuações advindos de uma vida memorável e repleta de atos e fatos que perlustram os anos.
Incluo-me entre esses felizes viventes humanos. Observo porém que tenho dois dias de aniversário: um, a dezesseis de janeiro, segundo aquela que me gerou e me trouxe ao mundo; outro, segundo registro do cartório de Vila Rezende, marcado em 8 de fevereiro de 1920. Explico: naqueles longínquos tempos, os que nasciam na roça, eram registrados oficialmente semanas depois ou até meses, quando o pai ou algum parente cioso em prestar favores, vinham à cidade para outros fins, aproveitando a oportunidade para passar no cartório do Mario Telles, da Vila Rezende ou dos Godoys aqui na cidade, e oficializar o nascimento. E nem sempre colocavam a data exata, daí o quid-pró-quó.
Pelo sim, pelo não, estou nos noventa anos, e me sinto uma pessoa grata a quem o Criador concedeu vida longa, sem os traumas que em geral acompanham os que desfrutam de idade avançada.
Alguém, entretanto, poderá perguntar se valeu a pena atingir a provecta idade, e ser agraciado por alguma felicidade por isso? Digo que sim, pois correndo os olhos pelos idos de vida, verifico que muito coisa de útil, de valioso, de importante, de necessário, de social, de religioso, de sonhado, de esperado, de realizado, enfim. Verifico que servi quanto pude e me permitiram as forças humanas à sociedade onde vivi,à terra onde nasci, à Fé que os pais me transmitiram, à cultura onde me envolvi, realizando sonhos e realidades, distribuindo os talentos de cultura com que Deus me dotou, criando uma família numerosa, servindo por mais de 40 anos ao povo de Piracicaba, como servidor municipal (Diretor da Secretaria da Câmara de Vereadores),escrevendo(até hoje) prosa e versos para os jornais da terra, dando instrução superior a todos os meus sete descendentes, todos engajados em altos postos da sociedade, unido em matrimônio a uma única esposa (Professora Dorayrthes S. SchmidtVitti), praticando a mesma religião católica, herdada dos pais e da família) respeitando a sociedade e seus lídimos princípios, preservando a própria família unida e amada, vivendo a felicidade de quem faz o bem e cumpre a vontade de Deus.
Acho assim ( devem outros concordar comigo) que vivi muito bem meus 90 anos, e (sem balofo orgulho) digo quiçá, possa ser imitada e melhorada muito por quem vem caminhando atrás. Quem sabe até ela poderá servir de um apagado modelo, o que me traria felicidade e prazer.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Visita ou novela? Plínio Montagner

Visita ou novela?
Plínio Montagner


As visitas estão na rabeira da tabela de qualquer compromisso.
Está com saudades da vovó? Do cunhado? Telefona, e pronto.
Mas, e o contato, a emoção, a etiqueta e o cafezinho que fortalece relações? Para que vão servir aquelas xícaras e talheres maravilhosos?
Visitar faz bem. Não é como conversar ao redor de uma mesa de bar, com barulho e presença de outros.
É bom conhecer ambientes, a decoração e como vivem seus donos. Isso não é bisbilhotar. É como um abraço social.
Visitar parentes próximos, até nossa mãe, a etiqueta ensina: avise, ou não vá, mesmo seja seu amigo de infância.
Trabalhamos em casa, nossa diversão é em casa, o computador é a ferramenta de nosso trabalho, a internet e a televisão nossa diversão impessoal.
A população sai de casa? Sim! para ir aos shoppings, à padaria, ao açougue, à farmácia, ao banco. A conversa minguou. Conversa de rua não vale, no banco é fria e desatenta, no hospital é triste. As visitas ficaram sem espaço e sem tempo.
O abraço escasseou; o sorriso ficou insosso, e a sinceridade duvidosa. Fofocar é divertido, piadas descontraem e falar sobre coisas boas e engraçadas fazem bem. Mas, onde conversar?
Aquelas salas de visitas lindas, com sofás e poltronas caríssimas, só deixam a sala bonita. Mas vazia. Os tapetes raros, as pinturas caras, os outros poderiam apreciar. Coisas belas e raras, e conforto, são como dinheiro, nada valem se escondidos e sem uso.
A cozinha - ah! A cozinha... Que lugar aconchegante era, cadeiras de palhinha do tempo dos nossos avós. As casas deveriam ser assim: uma cozinha enorme que servisse de sala de visitas, de almoço e de jantar.
Salas de jantar? São usadas só no dia de Natal e Ano Novo. Mas até nesses dias elas ficam intocáveis, e as conversas aguardadas - guardadas.
Como o corpo atrofia pelo desuso, a linguagem e a conversa também, ficam chochas. Estamos tão atarefados, e são tantos os compromissos, que perdemos o ímpeto de sair de casa para visitas; além de não ficar bem constranger um amigo, obrigando-lo, talvez, àquele corre-corre para se recompor e arrumar a bagunça dos netos. Daí, a TV liquida o assunto e a visita fica para depois.
Nossa vida ficou longa, mas socialmente breve.
Temos mais coisas, mas menos espaços; mais diversões, e menos tempo, mais amigos, e menos contatos.
Vemos mais os e-mails, o House, a Ophra, o Faustão, novelas e futebol.
Enturmar é preciso. Se as salas de visitas ociosas não acolhem tanto, nos instalemos então noutras mesas e poltronas para não perdermos o hábito de falar.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

TEMPO II - Maria Lucia Prado Almeida


Tempo II
Maria Lúcia Prado Almeida

“ O tempo é a imagem móvel da eternidade” ( Platão )

Da eternidade não temos compreensão. Como entender o que não teve um começo nem terá fim?
Nossa história não responde a grandes indagações. Nós nos situamos num tempo-espaço determinado e na eternidade não há limites. Seremos moléculas num universo que se expande, mas qual a relação entre ele e a eternidade? Nenhuma? Mas nosso tempo está inserido na eternidade.
Na impossibilidade de entender a eternidade, fazer uso da imagem da antiga ampulheta, do vagaroso e inexorável vazar da areia, marca do nosso tempo que se esvai; mas nem do antes de nós, nem do depois, não há ampulheta, não há imagem.Acode-nos a fé.
Ficar com Platão. Baste-nos pensar como o filósofo, ser o tempo a imagem móvel da verdade maior, da eternidade.