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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Malditos gerúndios


 Marisa Bueloni

         Era um sábado de manhã. O quarto devia estar mergulhado naquela doce penumbra do amanhecer, as grossas cortinas de lonita vedando a entrada da luz. O frio lindo do Campestre, as cobertas maravilhosas e quentinhas. Escrevi que o aposento “devia” estar na penumbra, porque eu “devia” estar dormindo.
 Mas o telefone tocou antes das 9 horas. E acordei. E atendi. Do outro lado, a voz indefectível da moça do telemarketing.
    - Bom dia. Com quem eu falo?
     - Quer falar com quem? – minha voz era uma pasta de sono e ódio mortal.
     - Com a senhora Marisa, por favor.
     Engatei uma conversa.
     - Meu anjo, que horas são?
     - Quase nove, senhora.
     - E que dia é hoje?
     - Hoje é sábado, senhora.
     - Eu estava dormindo e você me acordou. Esperava dormir um pouco mais, sabia? Por que vocês nos ligam em pleno sábado, às 9 da manhã?
     - Qual o melhor horário em que posso estar ligando, senhora?
     Começou o gerúndio infernal. Eu queria estar xingando esta moça que me tirou de um sono maravilhoso, mas não pude estar tendo coragem. Até porque ela esteve avisando, no início, que nossa conversa poderia estar sendo gravada. Assim, não estando querendo parecer mal educada demais, resolvi estar respondendo a que horas ela poderia estar me ligando. E me lasquei no gerúndio dela, de propósito...
     - Um horário bom seria aquele em que a gente não esteja estando dormindo... 
     - A que horas posso estar ligando, senhora Marisa?
     - Pode estar sendo ali pelas 10 horas, sem estar sendo no sábado.
     - Eu vou estar retornando na próxima semana. Tenha um bom dia.
     - Menos no sábado, hein? Senão, eu vou estar matando você, minha filha.
     - Como?... Ah, senhora, entendi, tenha um bom dia.
     - É... eu vou estar tendo um bom dia, já que  você resolveu estar me acordando...
     - Desculpe, senhora Marisa – e desligou.
     De outra feita, soltei os cachorros. Mansos. Que não sou de latir muito. Ligou-me um rapaz educadíssimo, de um banco, oferecendo vantagens.
     - Boa tarde, com quem eu falo?
     Aí, já estando pressentindo o tipo de serviço, fui logo respondendo num impulso:
     - Aqui é a senhora Marisa. E você, quem é?
     - Eu sou o Edson, senhora Marisa. Senhora Marisa, preciso que a senhora esteja me dando um pouco da sua atenção para que eu possa estar explicando sobre o nosso plano econômico.  A senhora pode estar me dando?
     Ah, gerúndios odiosos! Quem é que inventou esta língua?
     - Sim, senhor Edson, eu posso estar dando um pouco da minha atenção. Diga.
     - Senhora Marisa, a senhora pode estar aplicando 60 reais todo mês no nosso plano econômico e estar concorrendo a sorteios mensais em dinheiro...
     - Senhor Edson... – tentei interromper, em vão.
     - Senhora Marisa, pense bem. Dou um tempo para a senhora estar pensando. O que a senhora poderia estar fazendo com 30 mil reais?
     Ah, senhor Edson. Não me obrigue a responder, cara... Você me perguntou e agora vai ter de estar ouvindo a minha resposta.
     - O que é que eu poderia estar fazendo, senhor Edson?
     - Sim, o que a senhora poderia estar fazendo, senhora Marisa?
     - Nada, senhor Edson, eu não estaria estando fazendo nada. Eu não ligo para dinheiro. O que tenho me basta.
     - ... (silêncio sepulcral).
     - Senhor Edson? O senhor está aí?
     - Sim, senhora Marisa. Vou estar explicando melhor e...
     De súbito, fui acometida daqueles famosos cinco minutos que todos temos na vida...
     - Me escute, senhor Edson. Escute-me, por favor. O senhor não me deixa falar. Não estou interessada no plano. Perdi meu marido recentemente e meus valores mudaram ainda mais. Vivo com muito pouco, em grande simplicidade. A vida para mim é viver um dia de cada vez. Um prato de comida,  um canto para morar, um carrinho na garagem e isso tudo, com saúde, é maravilhoso, senhor Edson. Agradeço seu telefonema, o banco, e desejo muito sucesso nos seus próximos contatos com o seu plano econômico, meu anjo.
      - Mas, Senhora Marisa, vou estar explicando as vantagens, senhora...
     Interrompi com firmeza:
     - Boa tarde, senhor Edson, passar bem – e desliguei.

Bem, amigos do primeiro programa, agora eu vou estar tomando um chá. Servidos? Vou estar abrindo um pacote de torradas e estar passando geleia de amoras nelas. Chá do quê?  Um chá de gerúndio... NÃÃÃÃO!!! É de capim-limão. Delicioso! Um chá que espanta gerúndios repetidos à exaustão, e torradas que não torram nossa paciência na audiência da vida...

Um comentário:

Anônimo disse...

Querida Marisa,
adorei e entendo perfeitamente tais situações embora existam outras piores.
Outro dia fiquei duas horas no telefone tentando descobrir o motivo de um valor tão alto num débito automatico...Naveguei, ou melhor surfei de 0800 em 0800...Nem lhe conto a tragédia toda!!! Mas ria com esta\; atendo o telefone e alguém pergunta? está me ouvindo? respondo não e desligo..

Dirce Ramos de Lima