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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Lise


 Marisa Bueloni

 Já andei contando aqui que vivi os anos 60 em toda a sua trepidante beleza. Qual era a sua idade, meu anjo, nos anos 60? Lembra ou ouviu falar do festival de Woodstock? Eu não estive lá, mas foi como se estivesse. Você não ouvia os Beatles, não acompanhava os festivais de música da Record? Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Nara Leão, Elis, MPB 4, Zimbro Trio, Milton Nascimento, Gal Costa, Rita Lee?
 E os hippies, meu Deus? Você nunca usou nadinha deles? Nem um chaveiro de couro, minha flor? Não colocou um adesivo de margarida no vidro do seu carro? Não fez o V com os dedos indicador e médio, o conhecido gesto de "paz e amor"? Eu faço até hoje, quando alguém me cede passagem no trânsito, ou me permite estacionar com calma. Terminada a baliza, quando o carro passa por mim, faço o sinal de "paz e amor". Se é alguém jovem, me olha assustado. Hi hi hi...
 Quando alguém me trata com uma gentileza especial, eu ainda faço o V típico de “paz e amor”. Acho que sou a última riponga sobre a face da Terra. Mas sou. E luto bravamente para guardar este espírito intrépido de quem acreditou no sonho.
 As expressões "riponga" e "bicho-grilo” eram as que mais se ouviam nos anos 60 e 70. Quando fiz minha terceira faculdade, de jornalismo, em 1990, eu já era casada, mãe de duas filhas, e estava com 39 anos. Havia uma típica representante desse movimento na classe. Uma só. O nome dela era Lise.  Bem alternativa. As roupas dela!!! Eram de matar de diferentes. Ela era baiana, o cabelo bem onduladinho, cheio, solto, pelos ombros, os ocrinhos a la John Lennon , sabe? Comprava morim baratinho e tingia, no estilo tie-dye, aquele que parece manchado. Sabia costurar e fazia as próprias roupas. Fez uma blusa laranja para mim, toda torcida e amassada, eu adorava.
 Lise se virava para pagar a faculdade, fazia cuscuz de peixe e vendia para os colegas de classe. Ia oferecer nas salas dos outros cursos, nos intervalos. Eu comprava sempre, para ajudar.
 Morava numa pensão, usava espiriteira para cozinhar. Só legumes. Comia bolachinhas de fibra. Dava umas aulas de música para ganhar um dinheirinho. No frio, fiquei com pena das sandalinhas dela, os pés gelados, dei de presente minhas botinhas de tecido verde-musgo, com cadarço de amarrar no peito do pé, cano baixo, estilo militar, ela enlouqueceu. Calçávamos o mesmo número.
 Ela ia às aulas com vestidos longos, colares, uma jaquetinha surrada por cima e com as botas verdes que eu lhe dera. Sempre muito perfumada. Diziam que ela tinha um "cheirinho". Falava com forte sotaque nordestino, que eu amava de paixão! A classe inteira (modéstia à parte) vinha pedir meu caderno emprestado e eu negava. Eu só emprestava mesmo para Lise, porque sabia do esforço dela para sobreviver e estudar.
 Um dia, veio na minha casa, tínhamos um trabalho da faculdade para fazer. Toquei violão para ela e ela cantou para mim. Um  vozeirão lindo, igual ao de toda cantora baiana. Cantou uma música da flor do mandacaru. Arrepiei. Ela era toda toda. Só ela. Riponga de corpo e de alma. Tinha o que hoje chamamos de “atitude”. Como eu a entendia! Afinal, 20 anos antes, eu estudara naquele mesmo prédio, mais ou menos como ela. Se não com roupas idênticas, com o mesmo coração sonhador.
 Se Lise pusesse na cabeça aqueles chapéus de couro usados pelos homens do bando de Lampião, virava uma cangaceira legítima. Eu a chamava de “Maria Bonita”. E como Lise era bonita! Só eu podia ver sua beleza, pois ela sofria forte discriminação pela maioria dos colegas.
 Lise e eu fazíamos faculdade de jornalismo e ficamos amigas, nos queríamos bem. Ela sabia que eu era uma de suas únicas amigas na classe. Mas nos estimávamos sinceramente. Eu tão urbana, tão chiquezinha com minhas calças jeans e camisas. Lise tão cheia de sertão, olhar de terra seca, maravilhosamente nordestina e riponga.
 Mas uma vez, para espanto das moças lindas da classe, num intervalo da aula, dois moços bonitos de um outro curso –bonitos de verdade – entraram na sala, foram até Lise e um deles a carregou. Ela era magrinha, magrinha. Uma pluma. Ele rodopiou com ela nos braços. Foi espetacular. Eu vi. As outras, de queixo duro e caído. Só.
 Quando deu o sinal para a próxima aula, Lise voltou para o seu lugar e ela se sentava do meu lado. “Uau!...” – eu disse - “putzgrila, rodaram a baiana, hein?”. Ela respondeu: “É que fomos a uma festa juntos ontem, até às 5 da manhã”. Aí, eu que não sou boba nem nada, perguntei: “E o que rolou lá, minha flor de mandacaru?”. Lise, impávida, olhando-me por trás dos ocrinhos John Lennon respondeu: “Nada. Foi só uma festinha”.
 Lise não pronunciava direito o ene e o agá, como todo bom baiano. O dígrafo consonantal “nha”, por exemplo. Ela não dizia “festinha”. Saía uma espécie de “festia”. Ai, Lise, que baiana arretada você era, minha doce Lise do curso de Jornalismo!
 Inesquecível Lise. A riponga mais legítima que já encontrei na vida. “A vida é dura, Marisa”. Leia com sotaque nordestino, por favor. E o jeito que ela pronunciava meu nome, o erre da sílaba “ri”, era música para meus pobres ouvidos de paulista, feita de poesia concreta e moderna.
 Lise, minha homenagem a você, baiana de todos os santos. Lise da canção do mandacaru. Lise do olhar de terra seca. Lise do morim tingido. Lise da flor no cabelo, do brinquinho de madeira, do “cheirinho”, das pulseiras e colares, da sandália de couro cru. Lise dos dentes bem alinhados e do cabelo enroladinho. 

 Lá se vão 21 anos. Por onde ela andará? Lise, cara, você continua na moda. Pode crer.

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