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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Amanhã é meu aniversário


Olivaldo Júnior

  Nada de mais, mas, amanhã, vinte e seis de fevereiro, é meu aniversário. Amanhã, mais uma folha virada na folhinha de minhalma. 
O que é a alma, senão uma luz candente, presente até que o corpo a prenda e apreenda dela o mistério? Amanhã, minha alma aniversaria com meu corpo, cada vez mais outro, cada vez mais longe do que pensou que seria. Onde a poesia? Em meu corpo? Em minhalma? Não, em nenhum deles. A poesia independe de mim, porque poesia não é poema. Amanhã, poesia, é meu aniversário, e sei que prossegue sem mim, caindo das pétalas da lua quando chove fino sobre as flores secas da existência, como lágrimas de um anjo que nos olha de cima e nos sabe acima de tudo o que nos arrasta para baixo, onde só temos raízes, não flores, nem perfume.
        Não, não queria "volver a los diecisiete", ou melhor, voltar aos dezessete, mas, quem sabe, ter feito mais do que fiz até hoje, entre pedras e espinhos, tentando, como Drummond, encontrar a flor no asfalto dos dias. Suspiro e me separo, um ausente. O passado já não é, mas é difícil de passar. Futuro é sempre um trem que não passou. Ou se fica em um, ou se fica em outro, e o presente ali, como uma corda que nos laça e não enlaça, um abraço que nos ata e não desata nenhum nó, nem um dos nós da garganta. Amanhã, é meu aniversário. Amanhã, não voltarei aos dezessete. Sim, "eu tenho mais de vinte anos". Amanhã, bem mais.
        Deixo, aos pés de quem me ama, umas palavras, que me tem dado um tempo, um gelo, e me feito mudo por dentro e, consequentemente, por fora. Amanhã, não agora, é meu aniversário. O itinerário é um solitário que se estende pelo tempo, como um náufrago que pensa em casa, em ter com os seus mais um jantar. Não, não hoje, mas, amanhã, é meu aniversário. A quem se fez o meu adversário e quer que eu volte ao pó, amanhã, é meu aniversário. Não levo isso como um troféu, mas como um fato. Ainda estou aqui e me ponho entre os vivos. Sonho que os vejo e por eles sou visto. Tenho visto para a vida. Onde o "green card"?
 

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei!
Seu modo de pensar e de encarar a vida combina com o meu!
E, não é maravilhoso encontrar gente que pensa como a gente e escreve exatamente o que teriámos escrito se nos fosse dado tal dom?
A vida continua bela e o que tanto nos agrada são os mistérios dela...

Dirce Ramos de Lima