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domingo, 7 de setembro de 2014

Crônica tecnológica




Marisa Bueloni


     A crônica pede passagem. Concedo-lhe. Ah, a sequência dos dias, a solidez das coisas feitas e findas! Estas coisas, muito mais que lindas, ficarão, disse o poeta.
     Amar o perdido também deixa confundido o meu pobre coração. As coisas tangíveis, disse também o poeta, tornam-se insensíveis à palma da mão.
     O livro do Eclesiastes, da Bíblia, vem em nosso socorro: “Tudo é vaidade e vento que passa”! Ó, a vaidade das mulheres bíblicas, Clarice Lispector já a notara, ornadas e belas.
     E a vaidade do homem enredado na internet? Cheguei onde queria. O computador, os aipedes da vida e tudo o que nos conecta com o mundo todo, num piscar de olhos.
     Houve um tempo em que abominei tudo isso e jurei, beijando os indicadores em cruz, que jamais sucumbiria ao frio apelo da moderna tecnologia.
     Sempre achei que máquinas e eu somos de uma incompatibilidade mortal. Até para tirar dinheiro em caixa eletrônico eu me atrapalho toda e demoro tanto para digitar minha própria senha, que a operação é cancelada.
     Maravilha era ter uma Olivetti Lettera 32 cor-de-rosa, a postos sobre a mesa, podendo prescindir de um cérebro eletrônico, julgando que um texto saído da máquina de escrever tinha mais alma.
     Por um tempo, achei abominável a visão da tela acoplada a um teclado e pensava nos nossos avós, bisavós, nos nossos pais que não tiveram computadores em suas casas e viveram tão bem. Oras, conheço pessoas que ainda sobrevivem sem celular.
Enfim, as exigências da vida moderna me obrigaram a capitular e a sucumbir.  Cérebros eletrônicos constituem uma concepção destinada a quê? A melhorar a vida das pessoas, certamente. A comunicação de hoje é algo fantástico, embora se questione se esta tecnologia não teria eliminado algo importante em nossa vida: a emoção. Quem sabe, a emoção de receber uma carta pelo correio.
Mas um e-mail de amor, ou de amizade, vem recheado de beijos, corações e flores. Rendo toda a minha mais profunda admiração ao beijo virtual, à nova linguagem, às cifras e formas de expressão, às mensagens e sua arroba indefectível.
     Sim, enterramos a máquina de escrever, a caneta-tinteiro, o bonde, o leiteiro das manhãs; o dinheiro virou um cartão de plástico, cuja senha é preciso decorar e o que mais temos na vida hoje é isso: senhas para decorar. Haja memória!
     Compreendo os rumos da modernidade, vejo multidões digitando uma maquininha, as expressões absortas, perdidas, distantes. O mundo pode acabar e eles estarão ali, sérios ou rindo, mas concentrados, digitando sem parar. Passando com o dedo indicador sobre a tela, arrastando imagem após imagem, num gestual que tomou conta do mundo, dos mais pequeninos até os mais idosos. A humanidade se encantou com esse brinquedinho.
     A crônica ainda se espreme. Passou por um processador de texto e chegou até aqui. Não parece exausta, tampouco perplexa. Apenas viu como flui rápido um texto no teclado ágil e necessário.
     O que é necessário, meus caros? Que não se perca a emoção. Que ainda reste um pouco do romantismo e do lirismo de outros tempos, embora embalados na tecnologia do assombro.

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