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domingo, 29 de junho de 2014

GRITOS E SORRISOS



Para Pedro Francisco por Zilma Bandel

Precisava de um estímulo para sair do meu esvaziamento de alma e mente que não me permitia ordenar ideias e brotar palavras para escrever ou me comunicar de maneira tranquila e prazerosa com quem tem, generosamente, me acompanhado neste espaço. Mais uma vez, estou aqui. Que bom para mim, que bom!
Não sou escritora. Mas, como diz Leminski, “Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso, preciso porque estou tonto. Ninguém tem nada com isso.…Eu escrevo apenas. Tem que ter porquê?”
Sem nem a mais longínqua pretensão de me comparar a Leminski, poeta incomparável, apenas escrevo. Outra noite assisti – mais uma entre tantas vezes – ao filme “O Poderoso Chefão -3”. Não tolero violência, agressões e transgressões de qualquer natureza. Elas me agridem e incomodam. Só que não consigo deixar de amar essa trilogia, esse cinema da melhor e especial qualidade. Al Pacino está perfeito, como sempre. Escrevo sobre isso porque esse foi o estímulo de que precisava e a que me referi no início deste texto. Há uma cena nesse filme que está gravada na minha memória, pelo impacto que me causou desde a primeira vez que assisti: o grito de Michael Corleone (interpretado por Al Pacino) ao lado da filha assassinada. Difícil que eu seja tocada de modo mais forte por qualquer outra cena de qualquer outro filme. Impossível falar dos sentimentos de que esse grito fala. Dor talvez resuma todos.
E impossível também não vir à lembrança o quadro “O Grito”, do pintor norueguês Edvard Munch. Mais simbólico, menos real, ao menos para mim, mas também com muita angústia e desespero nas formas e cores escolhidas pelo talento de seu autor.
Já me vi algumas vezes, em especial, em situações recentes de minha vida, com esse grito preso na minha garganta. E ele ficou sempre preso. Al Pacino consegue, de maneira magistral, soltá-lo. Ele grita por mim. Talvez por causa disso ame essa cena.
Tenho sido invadida – pena não conseguir a blindagem necessária para me proteger – por uma grande perplexidade diante de posturas de pessoas no público e privado, em situações que me assombram, tanto no nosso país como no mundo, pela rudeza, pela violência, outras vezes pela falta de refinamento e elegância, de sensatez e lucidez, que tanto prezo nas relações de todo o tipo, sejam pessoais ou institucionais.
Não falo em indignação, porque sinto que essa palavra carregue certo julgamento. Não sou perfeita – ninguém é. Não sou dona da verdade – ninguém é. Portanto, procuro não julgar. Estou simplesmente perplexa a ponto de sentir dor na alma. E essa dor veio também por ver o sofrimento de muitas pessoas que, por sua dignidade, não poderiam sofrer as consequências de violência gratuita, sem noção, oportunista.
Essa dor veio também por causa do sofrimento de uma criança, – e de tantas que foram se somando por terem histórias semelhantes – que veio ao mundo feliz, esperada, amada, mas teve que passar por momentos que não desejo a nenhum e a qualquer ser humano. Essa dor veio também pelo sofrimento dos seus pais que não a deixaram por nenhum momento, lhe dando a boa energia, boas vibrações, suas orações, sua fé. Essa dor veio também pelo sofrimento de sua irmã, separada dos pais e irmão, sem entender bem o que acontecia.
São tantas as dores que sinto também por causa de crianças abandonadas, molestadas sexualmente, soltas no mundo, expostas e aproveitadas pelo crime. Todas sem o aconchego, sem o amor de uma família. E acredito que seja assim com vocês também. Dor. Quantas vezes, por tudo isso, tive esse grito preso na garganta. Adélia Padro, portadora de um mundo interior de grande exuberância, em uma de suas entrevistas, diz: “o sofrimento é importantíssimo porque ele é condição de mais consciência. Fugir da dor é perda de tempo. E é possível sofrer em paz”. Acredito em Adélia. Não é fácil, mas é possível sofrer, e crescer com isso, em paz.
A criança, um lindo menino, a que me referi junto com seus pais e irmã, assim que pôde voltar ao colo da mãe, voltou também a sorrir. Ainda tem um longo processo de recuperação, exigindo cuidados especiais – e que lhe sobram – a serem dados por profissionais e pela dedicada e amorosa família.
E seu sorriso voltou a ser sua marca registrada. Sorri de alegria, mas sinto que, principalmente, sorri de gratidão por todo o amor, toda a boa vibração, todas as orações de sua família, e todo o excelente trabalho e cuidados dos profissionais a que foi entregue. Sorri de gratidão por todas as pessoas muito queridas que, generosamente, não o abandonaram em nenhum momento e que, à distância, lhe deram o suporte e a força espiritual necessários para a difícil e longa recuperação. Terna vivência de afetos que a vida não apagará de sua vida e de sua família, pelo tanto que os amparou e fortaleceu em sua fé.
Meu sorriso, hoje, também é de gratidão. E sorrio em paz. A paz que veio do tanto sofrer que não me tirou a lucidez, a luz. É um encantamento. Transborda. Hoje sei que não preciso do grito do Al Pacino. Basta, porque me faz feliz, o lindo sorriso do meu valente, guerreiro e muito amado neto Pedrinho.

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