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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Adelle


Christina Ap. Negro Silva

Abriu uma porta. Nada. Outra e mais uma. Nada. Ouvira  aquele barulho novamente e vinha do andar de cima. Parecia o ronco de um despertador do celular – há dias o escutava e não conseguia identificar sua localização. O que seria aquilo? Não se lembrava de ter deixado  nenhum aparelho ligado nos cômodos da casa. Era sim uma casa grande e velha, já estava mobiliada quando se mudara ali há tantos janeiros, que nem mais se lembrava com exatidão do ano. Àquela época, tinha verificado em todas as gavetas, portas de armários e não se lembrava de ter visto nada além do mofo nas paredes. Estava só, completamente só. Este incidente, porém, até trouxera-lhe algum alento – tinha algo para ocupar –se : descobrir o causador do barulho.
O que parecia uma brincadeira, com o passar dos dias, tornou-se uma obsessão – era preciso encontrar a COISA SONORA a qualquer custo. Planejou com cuidado de detalhes sua inspeção pela casa – ou melhor, pelo andar de cima, pois tinha certeza de que o som vinha dali.
Primeiro o banheiro, palmo a palmo vasculhado – dentro do armarinho, encontrou apenas a pasta e escova de dentes e um velho aparelho de barbear – Será que funciona ?  pensou, enquanto o colocava na tomada ... rooommm – gemeu o dito sob suas mãos . Como o jovem imberbe que anseia por fazer sua primeira barba, levou-o com cuidado à face enrugada. Sensação boa, lembranças de um tempo engravatado, trabalho de abotoaduras, vida apressada em pasta de couro. Desligou-o e voltou à sua obstinada tarefa. No banheiro não estava.
O quarto da filha, sua próxima parada. Entrou devagar, talvez com receio de acordar as recordações que ali jaziam. A filha tinha casado há dois anos, mas seu perfume ainda rescendia nas paredes. Parou um instante para observar ao redor – teto claro, chão limpo e encerado, cama arrumada, escrivaninha organizada, penteadeira vazia. Onde havia guardado a imagem da filha na moldura do espelho que lhe sorria? Agora, parecia que a via ali, presa em um tempo-espaço de sempre – atenciosa para com ele quando  a procurava para uma conversa, uma dúvida, um carinho em palavras. O silêncio, porém, reinava implacável. Vasculhou tudo, nada encontrou. Receoso, foi andando de fasto, pés  para trás, para não se despertar daquela memória: a filha sorrindo, penteando seus cabelos, passando o batom, o som cálido de sua voz de menina-moça. Chacoalhou a cabeça, ele tinha um propósito, não devia dar-se ao desfrute de sentir essas sensações todas, não depois de tudo o que lhe havia ocorrido.
O quarto do casal – nunca mais tivera coragem de penetrar seu corpo naquele recinto, sua alma o visitava com frequência, isso sim, mas a carne, o sangue, todo seu ser, arrepiava-se ao tocar na maçaneta da porta. Mas agora, não tinha jeito, ele precisava encontrar a COISA SONORA. Fechou os olhos por um instante e tocou a porta, empurrando-a com força. Talvez quisera espantar a imagem que tinha diante dos olhos da sua recordação – a mulher sem vida jazia naquela imensa cama, seus brancos cabelos emolduravam seu rosto pálido e sereno. De um salto, pulou sobre a cama vazia, chorando como uma criança que tem seu brinquedo arrancado à força. Que saudades ! Quanta falta sentia dela. Quantos beijos secos, abraços estragados, palavras ocas ,  o tempo – este inexorável senhor – levou embora ? ! A solidão era sua melhor companhia, se não fosse aquele terrível barulho a tirar-lhe da zona de conforto que sua nova amante lhe propiciava, ele jamais teria entrado no quarto do casal.
Tramm- trammm- ouviu o som tão perto. Ah, então era ali que ele brincava de pique esconde ? Foi aproximando-se mais e mais do criado mudo. O diário da esposa cuidadosamente deixado sobre o tampo, seus óculos de leitura ao lado, a gaveta entreaberta e ... ali estava o que tanto procurava ! Um pequeno porta-joias de madrepérola – trammm- trammmm  - tremeu o maldito. Até que enfim, a busca estava terminada. Mas o mistério persistia. Depois de tantos anos , como a corda ainda funcionava ? ou melhor, emperrara , provocando o barulho do desassossego ? Pegou o objeto nas mãos e deu-lhe cordas – uma melodia, uma valsa vienense ou algo parecido, encheu o quarto. Ele deixou-se bailar nos pensamentos. Viu-se jovem, elegantemente trajado,  tirando a menina de cabelos encaracolados para dançar. Valsou pelo salão, sussurrou-lhe palavras de amor...Valsou pela cidade, viu-se bem sucedido em seu negócio. Valsou pela vida – viu-se novamente só, sem a mulher amada, sem qualquer humana companhia, tocou o diário e ato contínuo, viu-se abrindo o caderno e lendo o último registro feito – Querido, sei que um dia você acabará por encontrar-me (...) aqui , você estará com meu amor em palavras escritas. Eu sabia que partiria antes de você, (...) não fique triste, vivemos felizes e isso é tudo o que importa. Por favor, nunca se esqueça de mim, de nós, do que fomos (...) Com carinho, tua Adelle.

Meu Deus ! Ela já sabia que estava morrendo. Ele fizera segredos, proibira as visitas dos parentes, ela fora tão forte. Chorou, soluçou, chamou-a pelo quarto vazio, passou não se sabe quantos minutos naquele estado de descoberta e saudade. Por fim, carregando o diário e o  porta joias, desceu para o primeiro pavimento. Agora teria sua Adelle a fazer-lhe companhia. Uma vírgula, porém, interpunha-se nesta sua nova fase de lobo solitário – como a corda do aparelho voltou a funcionar / emperrar depois de tanto tempo ?

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