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domingo, 1 de setembro de 2013

Altos papos com Danuza

Altos papos com Danuza*
Ivana Maria França de Negri

Movida pela curiosidade acerca da socialite mais famosa das décadas de 50/60, fui com uma amiga assistir ao talk show de Danuza Leão.
Uma mulher linda que viveu uma vida recheada de glamour, jóias, vestidos assinados por costureiros de renome, rodeada de personalidades, que curtiu festas, viagens, flertes, casamentos, casos, que fumou a vida toda, o que lhe rendeu uma voz grossa e rouca, que bebeu litros e até experimentou algumas drogas na juventude.
Enquanto ia abrindo o leque de sua vida, por alguns momentos a vi como uma senhora decadente, fútil, frívola e um tanto egoísta, com muita plástica e botox, aconselhando as mulheres presentes a serem sóbrias na maquiagem (?) e na maneira de se vestirem. Uma mulher que se nega a ser chamada de avó, refere-se à neta como “filha da minha filha” e diz que sua casa nunca foi feita para crianças, que só tem água na geladeira e que preza a sua privacidade, não gosta de visitas e sim de estar só. Não conta a idade em hipótese alguma, mas a mediadora do bate-papo deu a entender que tinha o dobro da idade da Loba, ou seja, 80 primaveras muito bem vividas.
Mas aos poucos fui deduzindo que essa capa de aparente frieza é apenas uma maneira de defender-se dos percalços da vida para não sofrer em demasia. Analisando suas vivências, deu para perceber que ela foi forjada no aço, passou por muita coisa que a maioria dos mortais nem imagina, criada por um pai de personalidade forte que emancipou as filhas muito cedo e incutiu nelas o valor da liberdade e independência numa época em que as mulheres eram criadas para serem donas de casa, casar e ter muitos filhos, e uma mãe que se anulou e pouco influiu em sua vida.
Avessa às modernidades como celular, telefone sem fio, redes sociais, IPADS, usa um telefone de fio e refugia-se em seu apartamento em frente à praia.
Assim como se mostrou extremamente sincera, dizendo o que pensa sem se importar se agrada ou não, me sinto à vontade para externar minhas impressões.
Casou-se muito cedo com um homem influente, que tinha o dobro de sua idade e teve 3 filhos. Mas isso não a impediu de ser independente e fazer sempre o que quis.
Viveu glamurosamente, mas acontecimentos trágicos deixaram indeléveis e doloridas marcas, como a morte prematura do filho num acidente, o suicídio do pai, que era seu ídolo, a morte da irmã caçula, a cantora Nara Leão, de um tumor maligno inoperável que a foi consumindo e por fim, o falecimento da mãe, extenuada pelo  sofrimento. Em seu livro de memórias, conta que quando foi enterrar a mãe, no mesmo jazigo do filho, do pai e da irmã, orou a Deus para nunca mais ter de levar ninguém àquela sepultura.
Gostei e guardei uma citação dela, que dizia mais ou menos isso: “a gente passa metade da existência adquirindo bens, juntando coisas e passa a outra metade tendo o trabalho de se desfazer delas, de destralhar-se,  para ter uma vida mais leve”.
Uma mulher inteligente e culta que diz que a vida é “algumas coisas melhorando e outras piorando” e vencer é a capacidade de aceitar o que é ruim e aproveitar o que é bom,  uma das poucas pessoas que pode se dar ao luxo de fugir, sempre que necessita, e sem data para retornar, às cidades que aprendeu a amar: Paris e Veneza.

Sem sombra de dúvida, Danuza foi e é uma mulher admirável, que viveu intensamente, sempre à frente do seu tempo, experiências boas e outras extremamente ruins, uma vida permeada de altos e baixos, alternando tristezas e alegrias, e ainda teve a ousadia de ser feliz e fez por merecer o lugar de destaque que conquistou.

*Texto publicado na Gazeta de Piracicaba

Um comentário:

Clarice Villac disse...

Gostei muito do seu texto, Ivana.
Gosto de sinceridade.