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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Vestido de anjo



Raquel Delvaje
     Quando Querubina completou 70 anos achou que já era hora de morrer. Porém, não queria ser enterrada com qualquer roupa, pensou então em fazer o que imaginara. Numa sexta feira cedo foi à feira na banca da Rosalda:
        - Filha, me dá uns metros de um tecido bem branquinho.
        Rosalda  já a conhecia, pois ela estava sempre comprando em sua banca, ora um pano, ora uma linha, ora uma agulha. E Querubina sempre aproveitava para contar seus causos, que era um verdadeiro deleite.
        - Olha esse tecido vó, branquinho como as roupas dos anjos. E vou lhe dar um bom desconto.
        A avó sorriu, satisfeita com a comparação.  Em posse de seu pano, foi para a casa e em dois dias estava pronto seu vestido: simples, longo e de mangas compridas. Vestiu e se sentiu um anjo. Estava pronta para morrer. Chamou as filhas e comunicou que queria ser enterrada com aquela roupa, não aceitaria outra.
        Naquela semana, a doce velhinha recebeu a visita de sua netinha, ainda um bebê, que logo ela se apaixonou e ficou tão feliz ao lado da menina, que esqueceu de morrer. Foram anos de muito companheirismo e muita luta, mas enfim de muitas felicidades vendo aquela criança crescendo. Passado um tempo, ela precisou reajustar a roupa, havia engordado. Depois mais uns anos e teve que diminuir, havia emagrecido. Enfim, os anos passavam e a criança crescia e o vestido ia sofrendo inúmeros reajustes.
        Após 25 anos, uma surpresa para a doce vovó. O vestido de morrer estava amarelado. Ficou muito preocupada, pois os anjos se vestem de branco e não de amarelo, mas acabava indo fazer outras coisas e por fim esquecia do vestido, tomou um susto quando percebeu que já passara mais de um ano que viu o vestido amarelo e não fez nada, resolveu que faria outro.
        Dessa vez não foi mais à feira, pois essa já não tinha mais banca de tecidos e Rosalda havia falecido. Foi à loja, uma singela moça a atendeu, muito simpática e chamando-a de vó, assim com a feirante.
       - Vó, eu vou pegar o tecido mais branco que eu tiver na loja. – Disse isso após ter recebido o pedido.
       Muito tranquila a doce velhinha aguardou e ela chegou com o pano.
       - Olha vó, esse tecido é branquinho como as roupas dos anjos!
        Ao ouvir essas palavras os olhos de Querubina marejaram. E uma doce lágrima verteu em seus olhos. Lembrou-se das palavras de Rosalda, foram exatamente as mesmas. Sabia que estava pronta. Sua neta estava com 27 anos e já era mãe.
        Fico aqui imaginando Querubina chegando ao céu e os Querubins a rodeando , todos encantados com a brancura de suas vestes. É que quando ela chegou ao céu, seu vestido ficou mais alvo ainda, da cor de sua alma.

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