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Com o escritor Ignacio Loyola Brandão

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Reunião na Biblioteca

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A extraordinária arte de escrever


Cida Carvalho

A arte de escrever me fascina! Desde menina me encantava com os livros, com os jornais que chegavam a casa embrulhando algum produto comprado na venda do Sr. Mané... Mesmo antes de aprender a ler, eu fingia ler com um livro na mão, no portão de casa. Queria que as pessoas vissem que eu já era uma leitora, achava importante, bonito! Fico encantada com cada texto que leio, ouço e vejo:  num livro, num filme ou num programa inteligente na televisivo. Há tempos me pergunto: Que ser é esse que escreve? Que sensibilidade e inteligência apurada e extraordinária têm um escritor!Podem dizer que escrever bem está relacionado a escrever sempre. Isso é fato, mas não responde e não expressa com valia sobre quem está por trás desta arte intrigante, fascinante que é dar à simples folhas de papel em branco - vidas, amores, emoções, problemáticas; numa harmonia plural, capaz de nos transportar a lugares distantes, numa riqueza de detalhes e impressões que exigem algo mais da nossa inteligência, provocando sentimentos e contemplações. A linguagem pode ser coloquial ou erudita, romântica ou pragmática, política ou humanitária, um retrato da realidade ou uma ficção, não importa! O autor de um bom texto é alguém em sintonia com o macro e microcosmo, sempre para além do imaginado, aquele que nos provoca e nos envolve!
Nas mãos de um escritor uma folha em branco tem em si milhares de possibilidades, isso é sedutor! Uma folha em branco degustará satisfeita: um conto o qual pedirá várias páginas risonhas ou tristes ou ainda temerosas por um final trágico. Uma poesia pode fazê-la suspirar e entrar em estado introspectivo, metafísico. O autor escolhe ver e sentir o mundo diante de uma folha de papel ou do teclado de um computador, ele decide jogar-se por inteiro na dança das palavras, dando ritmo às idéias que chegam espontaneamente ou racionalmente ao papel.
Que ser é esse, o escritor? Ele se atreve chegar ao limiar da loucura, com um desprendimento, que lhe confere a capacidade de criar, permitindo-se transcender o mundo fático. O escritor é aquele que escreve enquanto inspira e respira porque escreve!
Sempre pensei no autor como um ser de um planeta superior, conectado com dimensões paralelas. Como pode tanta idéia se formar a revelia do senso comum, tomar corpo singular em forma de palavras na mente de um ser humano? Imagine, por exemplo, um escritor de novelas, gênero tão difundido aqui no Brasil. Ele cria o enredo, a trama dramática ou cômica da novela, ou as duas; cria cada personagem com o seu perfil psicológico, escreve cada fala e ação da mesma, pesquisa universos distintos do seu dia-a-dia para servir de pano de fundo a narrativa. Não. Definitivamente o escritor não é uma pessoa comum, com faculdades comuns!
Li um conto uma vez, não lembro o título, mas lembro do livro – Contos de amor e morte – do escritor austríaco Arthur Schnitzler, ele viveu a riquíssima transição entre os séculos XIX e XX.  Este autor era também médico, foi muitas vezes comparado a Freud, tinha um estilo no mínimo intrigante, escrevia usando a técnica do monólogo intimo. A psicologia e a psiquiatria muito influenciaram este médico escritor, em seus livros ele mostrava de forma dramática o inconsciente de suas personagens, com tanta intensidade que o imaginário dos seus protagonistas, nada deixava a dever a realidade aos seus pacientes. Bem, voltemos ao conto do qual não me recordo o nome. Nele Arthur Schnitzler, conta a história de um escritor que se apaixona pela protagonista do seu romance, a qual toma as rédeas da trama, chegando a rejeitar o seu enamorado criador, este por sua vez não suportando a indiferença da amada pensa em matá-la, em levá-la a morte para que com ela morresse também a sua indiferença, o  tormento acusador da rejeição no coração dele – o autor. Rejeitado que era, no entanto sem coragem para eliminá-la com a pena, ao final das contas é o autor que morre de amor não correspondido, as mínguas, esperando as migalhas da amada mal agradecida. Fiquei presa a ele, ao autor real e ao autor criado por Arthur Schnitzler, ambos me renderam, me fizeram refém por querer. O bom escritor  é assim, nos faz apaixonados por sua obra, ele  se confunde a ela, e nos prende a ele através dela.
Pensar o impensado faz do escritor um gênio em si mesmo. O escritor faz contato com o mundo externo e interno ao mesmo tempo, contato, com o mundo dos outros e com o seu mundo. Um escritor é antes de tudo um leitor. Sim um escritor lê o que está a sua volta, coloca-se no lugar do seu leitor e decodifica a vida, o cotidiano a sua maneira, com os olhos do seu interior, é também um leitor de outros autores. O interior de um escritor fica exposto e camuflado ao mesmo tempo, assim ele nos alimenta nos acorda, nos faz amantes da leitura, da palavra, nos faz pessoas melhores!
Quero aplaudir apaixonadamente todos os escritores, parabenizo estes encantadores de gente, que com sua sensibilidade e entendimento, nos transportam a mundos inimagináveis, e nos fazem entrar em contato com a nossa complexidade. Ao autor que assume a responsabilidades múltiplas em compromisso com a cultura, como o saber, com a emoção e descobertas, responsabilidade ética e estética.

Cida Carvalho 

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