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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

BAGUASSU (Passado e presente)



Plinio Montagner

Baguassu lembrou-me de meu pai com saudade.
Era uma pequena estação de trem entre as cidades de Santa Cruz das Palmeiras e Pirassununga. O nome, talvez seja pela beleza de coqueiros (babaçu) da fazenda São Luis, hoje sede de uma Usina do mesmo nome.
Meu pai era ferroviário, e morávamos numa casa ampla, construída pela Paulista, com um quintal sem fim, à beira do leito da ferrovia.
A década de 50 foi o tempo do romantismo, do amar à distância, das novelas de rádio, do terno e gravata, da brilhantina Coty.
As ferrovias esbanjavam limpeza, zelo, pontualidade. Os assentos dos vagões e encostos de cabeças eram tão limpos que dava receio de usá-los.
Trabalhar na ferrovia era um privilégio. As terras cortadas pelos trens eram muito valorizadas e o apito da locomotiva denunciava progresso. Trem era o único meio de transporte de passageiros e de escoamento da produção agrícola.
De repente, veio uma promoção e transferência do meu pai. Fomos morar em Araras, e depois em Pirassununga. A estaçãozinha ficara para sempre esquecida.
Trinta e cinco anos depois, não aguentei, voltei a minha infância. Levei minhas filhas Renata e Ana Paula, de dez e oito anos. A estação parecia aguardar a chegada de algum trem.  Segurava as mãos das meninas como quando criança eu agarrava a alça da minha bolsa de couro que abrigava cadernos e meu lanche de pão com goiabada.
A paisagem e a estação, quase tudo estava como antes: a plataforma, a sala do chefe, o telefone de manivela, o reservatório de água das locomotivas a vapor, as casas dos funcionários. Zumbidos de insetos quebravam o silêncio e potencializavam o abandono e a nostalgia.
Emocionei-me quando vi os dois pés de manga espada que eram os alvos preferidos das pedradas, minhas e do Zito, afilhado do chefe da estação, meu amigo de infância.
Manoel Carlos de Oliveira Pinto, o Zito, estudou violino e mora em Campinas onde mantém uma empresa de eventos sociais.
Passados outros trinta anos, voltei. Desta vez, sozinho, mas com uma máquina digital.
A plataforma e o leito da ferrovia, agora sem trilhos, deixaram a estação capenga. Coisas do tempo - faltava uma mangueira e as placas “Alt” (altitude), “Km”, “Baguassu”, “Chefe” e “Bagagem” haviam sumido, talvez retiradas por algum colecionador esperto.
A pia de ferro também desaparecera. Era onde as crianças lavavam mãos e cotovelos escorridos do amarelo das mangas.
Fiquei na plataforma a cismar por horas. Não sei se voltei leve. Talvez triste. O mundo está sem brilho, sem inocência.
Um fato. Eu tinha a mania desatinada de saltar do trem em movimento. Um dia não deu certo o pulo e caí. Fui parar aos pés do chefe da estação. Ouvi assustado - “Me dá seu passe”! Era o padrinho do Zito, chefe da estação, querendo o impossível.
Filho de ferroviário viajava de graça. Eu, sem passe? Deixei o chefe com a mão estendida, e fui... – como se diz.
Dizem que o passado deve ser esquecido, que é lenha calcinada. Bobagem.  Existem fatos e momentos inesquecíveis.
Sendo o futuro finito e incerto, viver o presente é decisão sensata.
Hoje, sem trens, goiabeiras e mangueiras, sem petecas, sem piões e sem espaços as crianças brincam e conversam sozinhas, virtualmente.
Os brinquedos antes adorados, hoje são desprovidos de lembranças; eles não têm passado sofrido, por isso se perdem em caixas e gavetas. Meus foram uns três ou quatro, e duraram a vida toda. Ainda guardo meu jogo de botão.
A causa de muitas tristezas é ter muito e o apego ao exagero.
Filosofando: “Nada é bastante para quem acha que é pouco o suficiente. O que importa é o que está em nós, pois quem tem muito dentro precisa ter pouco fora”.
Velhos amores devem ser esquecidos?
Sei lá!



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