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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

PRIVILÉGIO


Maria Cecilia Graner Fessel


Da janela de meu pequeno apartamento tenho uma vista que me alegra todas as manhãs, pois é um bairro com muitas árvores e assim também com muitos passarinhos. Até os barulhentos bandos de maritacas vem fazer suas revoadas por aqui! E quarteirão acima, do outro lado da rua, há uma antiga entidade beneficente que recebe crianças em tempo integral ou não, enquanto suas mães trabalham, creio que isso  faz já mais de 40 anos.
É uma pequena chácara cercada por muros e rodeada por novos conjuntos habitacionais mas que não se deixou sufocar pela expansão imobiliária. Há um prédio antigo, um grande sobrado com muitas janelas, talvez antigamente um orfanato, mas que nos dias de hoje deve englobar salas de aula, salas de recreação, biblioteca, brinquedotecas, administração
e outros departamentos necessários a quem acolhe dezenas de pequenos diariamente. Certamente terá refeitórios e salões para os dias de chuva.
Logo cedo vê-se lá um grande movimento de pessoas chegando, trazendo suas crianças ou entrando com seus carros para lá cuidar delas. Há então um período de calmaria,
talvez com um café matinal ou atividades internas e então vem a explosão de vida nos gramados que circundam o educandário!
De repente, os grupos de crianças, meninos e meninas vestidos em cores alegres, invadem as áreas verdes da antiga chácara, com seus gritos, sua pressa infantil de desfrutar os momentos de liberdade, de chegar primeiro aos balanços, gira-giras e escorregas da área de lazer, que a calmaria vai se esconder por trás das cortinas nas janelas vazias. Então ouço à distância o ranger das correntes num  nhécnhéc  contínuo enquanto cabecinhas de todas as cores surgem e desaparecem por entre os galhos das árvores baixas, ou giram velozmente
enquanto a roda vai virando. Também há crianças exploradoras, que ficam procurando galhos secos para brincar, ou chamam uns aos outros para ver algum novo ninho de pássaro nas grandes árvores mais antigas - parecem jabuticabeiras- ou simplesmente brincar de pega - pega pelo gramado.
Então volto a me ver em minha velha casa, com sua grande goiabeira perto do muro,
suas jabuticabas gigantes e lustrosas grudadas nos ramos, o pequeno gramado de minha mãe,
suas roseiras e lírios enfileirados, a parreira toda verdinha com seus cachos roxos amadurecendo, as cheirosas limas da pérsia  de meu pai , o grande gato rajado dormitando nas sombras e o tempo...ah, a lerdeza com que o tempo passava naquela época!
Depois um sinal chama as crianças, os balanços vazios inda ficam a balançar alguns segundos, o gramado suspira aliviado quando se vão os pezinhos que o pisavam, as árvores colhem o silêncio e as janelas agora emolduram atentos rostinhos afogueados...

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