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sábado, 13 de outubro de 2012

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Professora, escritora e poetisa Clarice Villac


O Saci-Pererê – Resultado de um Inquérito – Monteiro Lobato

Editora Globo, SP, 2008, 384 pp.

Estou lendo um delicioso livro de Monteiro Lobato, “O Saci-Pererê – Resultado de um Inquérito”.
Publicado em 1918, na verdade Lobato é seu organizador, participa com prefácio, introdução, comentários, conclusão, epílogo.
Trata-se do primeiro livro publicado por ele, antecedendo Urupês.
Intrigado ao passar pelo Jardim da Luz, em São Paulo, e ver somente gnomos europeus, passa a sentir falta de ipês, quaresmeiras, música brasileira tocando no coreto, estátuas de escritores brasileiros, referências genuinamente nacionais...
Assim, inicia a empreitada de valorizar nossos mitos, e principalmente o Saci, até então não considerado seriamente por nossos ‘ilustres’ e ‘elegantes’ ‘intelectuais’...
Foi então que Lobato lançou um convite aos leitores do jornal Estadinho, edição vespertina do jornal O Estado de S. Paulo, para que escrevessem relatando suas histórias sobre o Saci-Pererê, o que tinham ouvido contar sobre ele, como o conheciam desde crianças...
O resultado foi tão positivo, que ele reuniu todos os depoimentos nesse livro, que tem também desenhos de sua autoria, de Voltolino, Norfini e outros artistas, assim como fotos de esculturas ‘sacizísticas’.
São relatos vindos de variadas regiões brasileiras, alguns escritos no linguajar próprio dos caipiras, habitantes das áreas rurais, e por isso tão saborosos.
Ao ler as histórias, somos remetidos a um universo em que a escuridão da noite era imensa, os matos cheios de ruídos e vozes dos pássaros, e demais animais notívagos...
Lobato apresenta cada relato com sua verve especial, inventiva, perspicaz e cômica, quase sempre ironizando os ‘ilustres eruditos’ que desvalorizavam a rica cultura genuinamente colorida e criativa de nossa gente simples. 
Por exemplo, abro ao acaso uma página, e lá está o “Depoimento do senhor Belmiro Aranha – Vem de Pitangueiras. Não está averiguado que lá haja pitangas, mas há sacis, o que é uma compensação.”.
Há depoimentos em versos, muitos contam os causos que ouviram de antigas amas e caboclos, outros narram seus próprios encontros com os sacis. 
Variam as formas físicas e de caráter do saci, alguns garantem que ele é um moleque brincalhão que não faz o mal de verdade, outros o descrevem como capaz de provocar confusão, outros ainda asseguram que ele até ajuda as pessoas nos passos importantes de suas vidas, ainda que seja de modo um tanto inusitado.
Tem até o relato sobre um poeta que encontrava inspiração numa cabecinha de saci risonho e de gorrinho, esculpida num tampo de tinteiro que conservava em sua escrivaninha, e sempre lhe acudia com belos versos...
Ainda não acabei de ler este livro, e não tenho pressa, tem sido muito bom conviver com ele... Sentir a vida como antigamente, sem o ritmo insano das grandes cidades barulhentas e apressadas...  Perceber os mistérios do desconhecido, conhecer o imaginário de nossos antepassados... 
Este livro é um grande panorama, multifacetado e ágil de nossas raízes mitológicas, orquestrado pelo espírito vivo, intensamente matizado e expressivo de Monteiro Lobato.



Um comentário:

Clarice Villac disse...

Ivana, Amigos do GOLP, é uma grande alegria participar destas 'páginas' !
Agradeço a oportunidade !
:~)