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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A professora Marly e... Ana Bolena



Maria de Fátima Rodrigues

Tive ótimos professores, tanto no primário como ginásio e colegial que fizeram a diferença em minha vida, e gostaria de escrever sobre todos eles, mas decidi começar  por uma professora que admirava muito, onde estudei no Instituto Estadual de Educação Sud Mennucci, em Piracicaba-SP, durante sete anos, ginásio e colegial. Minha admiração por ela era por vários motivos: seu modo peculiar de lecionar e pela sua, digamos, “exuberante” personalidade e inteligência... minha professora de História Geral, Marly T. Germano Perecin! Hoje é historiadora proeminente nessa cidade, e com vários livros publicados.
... “Primeiro dia de aula de História Geral, da quarta séria ginasial: entrou na sala uma senhora elegante, de cabelos negros, pele alva e com uma bolsa lindíssima. O detalhe de um lenço de seda delicadamente nela enlaçado, era fantástico. Usava um batom vermelho, e o que mais me chamou a atenção foi seu anel no dedo, que era um relógio.
Imaginem um anel relógio? Alunos costumam prestar atenção na maneira de vestir de seus professores! É claro, que há diferença entre as observações das meninas e dos meninos! rs.
Apresentou-se, fez a chamada e disse à classe:
- “Não adotarei nenhum livro em especial, pois vocês é que o escreverão, porque prefiro consultar vários autores. Não quero que decorem a história, mas tenham o prazer de ouvi-la, tenham a curiosidade de saber como e por que os protagonistas tomaram essa ou aquela atitude. Tenham vontade de saber seus costumes, e anotem o que acharem interessante, os nomes, as datas, não só porque lhes será perguntado nas provas, mas para se situarem na época. E, ao ouvirem o nome deles, saibam em que eles contribuíram para a história da humanidade, mesmo que tenham realizado obras boas ou más, certo? Espero conseguir esse intento.”
E assim foi. Eu gostava de suas aulas, mas houve uma que nunca esqueci, pela maneira ousada com que relatou a história, e não “perdoou” nada sobre o rei, o bispo, a rainha, ninguém mesmo! Naquele dia ela estava inspirada:
- “ Hoje vamos falar sobre o rei Henrique VIII da Inglaterra, de sua corte, suas 300 esposas e mais 200 amantes! (nós sabíamos que era só “força de expressão”, é claro), e seu injusto e corrupto reinado e sua amante, que depois se tornou sua esposa, a qual, acredito eu, a que mais amou: ANA BOLENA.
 Ah! Quando ele se apaixonou por ela, coitada de Catarina, sua atual esposa, que morreu não se sabe como, nem de que... Bom, o bispo deveria saber, mas deixa prá lá!
Como definirei Ana Bolena: ela era solteira, mas não fanática ” (achei aquela definição, a maneira mais sutil e criativa de falar sobre uma mulher, para aquela época, muito independente. Nós rimos muito, com certeza!).
E continuou contanto a história, não só de sua trajetória como esposa de Henrique VIII, mas também das injustiças da administração do rei, descrevendo como viviam os pobres ingleses, do poder que a Igreja Católica tinha sobre a corte, etc... mas ele se decepcionou com Ana porque ela não conseguia ter um filho homem, é, acho que foi isso. Então, infelizmente alguém, se encarregou de arranjar um adultério para que o rei “não a perdoasse” e fosse condenada a morte. Acho que foi mais ou menos assim!
Sim, professora Marly, a senhora conseguiu seu intento: inspirou-nos a querer saber e compreender a História, e mais ainda, nos ensinou como contar uma história, pois se não fosse isto, eu não teria conseguido contar em apenas uma hora e meia para uma colega de classe, a Ivete, um livro de 600 páginas: “Quo Vadis?”,  de um escritor judeu, de um nome tão complicado que nem sei escrever direito, o qual nos foi solicitado ler para uma prova oral, para a nota mensal, e justamente para a matéria História Geral.
 Ela fazia parte de meu grupo, que eram cinco alunas, e contou-me que não tinha lido o livro, nem uma linha sequer, nem sabia do que se tratava a história, e teríamos uma prova oral de História Geral na última aula sobre do dito cujo. O que fizemos? “Matamos” duas aulas anteriores e eu tentei contar-lhe “meio estilo professora Marly”, e não é que deu certo?
Bom, chegou à última aula e a professora Marly “sorteou” os nomes,  para apenas um representar, portanto responsável pela nota do “grupo todo”. Adivinhem quem foi “sorteada”? Ela mesma, a IVETE!
Ela quase teve “um treco”, mas eu disse: vai lá e responda só o que tiver certeza, não “chute”! Pois ela conseguiu responder 60% das perguntas e sua, ou melhor, nossa nota foi 6,5 e a professora Marly, ao final, perguntou:
“- Ivete, só por curiosidade, por que você ficou olhando o tempo todo para a Maria de Fátima, quando respondia as perguntas?”
Ela deu um sorriso sem graça, e respondeu: -“Sei lá, acho que foi nervosismo, então olhei só para uma pessoa e me concentrar, só isso.”
Pois bem, professora Marly Therezinha Germano Perecin, depois de 34 anos a senhora ficou sabendo a verdade! rs.
E a Ivete teve que saber quem foi Nero, porque disseram que ele colocou fogo em Roma, quem foi Ligia, Marcus Vinicius, Caio Graco e Brutus. O que era um gladiador, qual o símbolo ou a “senha” dos cristãos (um peixe), e quando e onde Jesus disse:
 - “Quo Vadis Pedro?”
Tenho certeza de que esse foi o livro que a Ivete nunca leu... rs, e o qual jamais esqueceu, e nem eu!
Professora Marly, obrigada pelas suas prazerosas e “peculiares” aulas e exemplo de criatividade, como grande educadora que foi, e hoje historiadora que é.

Um comentário:

Maria de Fátima Rodrigues disse...

Que bom, obrigada Ivana... esta crônica me traz tantas lembranças. Bjs.