As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

SEGUIDORES

MEMBROS DO GOLP

MEMBROS DO GOLP
FOTO DE ALGUNS MEMBROS DO GOLP

domingo, 15 de julho de 2012

Caderno de receitas


Ivana Maria França de Negri

Dia destes, tentando me lembrar de uma receita de bolo, ao invés de digitar no Google, resolvi ressuscitar um antigo caderno esquecido numa gaveta.
Sentei-me para folhear com calma suas páginas amarelecidas, algumas até manchadas por algum descuido da cozinheira, talvez por uns pingos de calda, gordura de manteiga, não deu para reconhecer a origem do líquido respingado.
Emocionei-me ao reconhecer a caligrafia de minha mãe. Letra redondinha e bem torneada, típica letra de professora. Fui virando as páginas e fartando-me de doces lembranças, de aromas, de sabores, de doçuras feitas por mãos encantadas.
Havia receitas de sonhos recheados, de bolos de chocolate, tortas de nozes e bolos cremosos de fubá. Algumas continham os dizeres: “receita de minha mãe”, isto é, a mãe dela, minha avó.
Imagino quantas vezes essas receitas foram consultadas e reproduzidas em panelas, tachos, assadas em fornos a lenha ou a gás. Não havia ainda a praticidade do forno elétrico ou do microondas.
E as gostosuras sucediam-se, arroz doce, beijo-de-mulata, pavê, cocada de sol, pão de mel, fios de ovos e geleias. De dar água na boca...
Até a receita da tradicional cufa alemã, especialidade de minha Tia Antoninha, quase pude sentir o gosto! Ela assava, colocava quentinha na mesa e acabava na hora! Não sobrava um só farelinho de tão deliciosa. Sempre acompanhada de um café fumegante, doce e encorpado.
E havia as roscas trançadas e polvilhadas com açúcar cristal, manjares, massas folhadas... No Natal era tradição fazer panetones, rabanadas, e o grispede, uma espécie de massa frita, receita italiana.
Minha madrinha, tia Linda, era especialista em balas de coco e de café e  incumbida de fazê-las em todas as festas familiares. Ela “puxava” a massa branquinha, mistura de leite de coco, açúcar e gotas de limão. Depois cortava com tesoura os quadradinhos que eu roubava enquanto ainda quentes. E ela dizia: “espere esfriar!”. Mas o gostoso mesmo era devorar as molengas balas recém cortadas.
As de café eram outra delícia que minha madrinha fazia, e havia também as balas de ovos, bem mais trabalhosas porque a massa de coco tinha que ser envolvida em fina calda de açúcar. O segredo era encontrar o “ponto de bala”. Se ficasse muito mole, escorria, se passasse do ponto, as balas ficavam duras demais.
O pudim de pão velho era receita de minha mãe. Ninguém podia imaginar que um punhado de pão duro amanhecido pudesse virar uma iguaria tão fina e saborosa.
A especialidade da tia Vivica era o quindim lustroso, amarelinho e forrado de flocos de coco na base. Um manjar dos deuses!
E curiosamente, éramos crianças saudáveis e magras. Nada daquilo engordava, apenas adoçava nossa infância. Época em que comer era sagrado, toda a família reunida ao redor da mesa.
Quando dei por mim, haviam se passado horas! Mergulhei naquelas páginas, afundei no marshmallow, me derreti nos sequilhos, me lambuzei em alfajores, bom-bocados, glacês, embriaguei-me com geleias de pinga, rememorei o gosto de infância, e redescobri pedaços de vida de minha mãe, minha avó, tias e madrinhas queridas.
Apenas um caderno de receitas... Segredos culinários que passaram de geração em geração, verdadeiras liturgias celebradas ao pé do fogo, que aqueciam o coração, abrandavam a alma e tornavam a vida mais doce.
Clique nos links abaixo:

Nenhum comentário: