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sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal, tempo de Magia e Saudade...

Eu criança e minha tia querida...

Ivana Maria França de Negri

Natal tem que ser mágico, não importa se somos adultos ou crianças. E quem me ensinou a olhar o Natal com olhos de encantamento foi uma tia muito querida, tia Vivica, uma das irmãs mais velhas de minha mãe.
Tia Vica, tal como Peter Pan, era uma adulta com alma de criança. A alegria e a capacidade de se encantar com tudo que a vida tinha de bom era algo inato nela. Extasiava-se com tudo e passava uma borracha nas coisas ruins e logo as esquecia. Só não gostava de seu verdadeiro nome, Genoefa, e sempre que podia, assinava Vivica. Foi dela que herdei o gosto de enfeitar a casa toda muito antes do Natal.
Até os dez anos ela pensava chamar-se Genoveva, por isso o apelido, “Genovevica”, mais tarde abreviado para Vivica. Quando precisou da certidão de nascimento para o diploma do quarto ano primário é que descobriu que seu nome havia sido registrado com grafia diferente. Contava que ficou muito chateada e demorou a acostumar-se. Acabou aceitando, mas gostava mesmo do “Vivica”, apelido com o qual ficou conhecida e a acompanhou até os últimos dias de sua vida.
Perdi minha avó materna aos cinco anos, mas tia Vivica supriu essa lacuna, pois nos mimava, a mim e a meus irmãos, e fazia parte de todas os momentos de nossa vida, aniversários, formaturas, casamentos e nascimentos dos sobrinhos-netos.
Cerca de um mês antes do Natal, ela já enfeitava a casa inteirinha e chamava o eletricista para instalar lâmpadas coloridas nas árvores do jardim e na sacada. Era uma festa para nós, seus sobrinhos, que ela amava como filhos que nunca teve.
Tia Vivica foi casada por onze anos com seu primeiro e único amor. Enviuvou cedo, aos 41 anos. Teve vários pretendentes, mas jamais quis se casar novamente. E meus pais vieram de Campinas fazer-lhe companhia. Sorte nossa que a tivemos como segunda mãe por muitos anos.
Como minha mãe não dirigia, tia Vivica acordava bem cedo, nos servia o café da manhã e nos levava de carro ao colégio. Até nos fazia engolir uma gema de ovo quente na colher, coisa que detestávamos, mas ela dizia que era bom, fortificava, pois eram ovos de gema bem vermelha, comprados de uma vizinha que criava galinhas soltas no quintal.
Todo ano, na véspera de Natal, minha tia contratava um Papai Noel. Ouvir o tilintar do sininho ao longe, antes dele chegar ao portão, nos deixava eufóricos!
E eu notava que ela dava, às escondidas, depois da distribuição dos presentes, um panetone e dinheiro ao bom velhinho. Na época eu não entendia porque Papai Noel tinha que ganhar coisas, pois não era ele o incumbido de trazer os presentes? Mais tarde descobri que o pobre homem fazia aquele bico para ganhar uns trocados e era o jardineiro de uma vizinha.
O presépio era uma festa à parte. Todo ano ganhava peças novas compradas na Livraria Católica. E a cada ano, ficava maior e mais interessante. Além das peças tradicionais como bois, carneirinhos e camelos, tinha elefante, leão, peru, um laguinho de papel laminado onde colocávamos peixinhos coloridos, tartarugas, patos, sapos, tinha de tudo! E não podia faltar o papel-pedra amassado que dava forma à gruta onde se aninhava o Menino Jesus velado por seus genitores.
Tia Vivica se foi antes de minha mãe. E os Natais nunca mais foram os mesmos sem sua alegria espontânea e contagiante, mas ela deixou a lição de que todas as coisas podem ser maravilhosas dependendo da importância que damos a elas. E nos fez conhecer o sabor da saudade, que sempre brota quando lembramos das pessoas queridas que fizeram parte de nossa vida e já não se encontram mais entre nós.

Texto publicado na GAZETA de Piracicaba em 25/12/2011

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