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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A sátira do papagaio divino





Bianca Lobo 

Céu enluarado e uma solitária estrela cadente a sondar o movimento do início da madrugada. Estradas ermas e ruas quase em total silêncio; como se todos os moradores daquela pequena cidade do interior tivessem resolvido dormir mais cedo.
Na tradicional Travessa dos Relicários, um homem moreno de baixa estatura e aparência pouco confiável, corre e pula o muro que esconde uma antiga casa. Entra esgueirando-se e pisando na ponta dos pés. Uma janela de madeira com os vidros quebrados, escancarada, deixa que a claridade de uma distante lâmpada acesa na varanda da casa vizinha, ilumine a astuciosa entrada. Uma grande sala, com a pintura branca descascada, totalmente vazia e o estreito e longo corredor que dá acesso ao primeiro quarto - um cômodo cheio de caixotes de madeira empilhados, que abrigava alguém, desconfortável e silencioso, apoiado em uma Bíblia ─ o papagaio abandonado pelo último morador da velha casa.
O ladrão assusta-se com a grande sombra na parede, mas logo vê que é apenas uma pequena ave de cauda longa, plumagem acinzentada e aspecto solitário.
─ Senhor, por que me abandonaste? ─, perguntou o expressivo animal.
O ladrão soltou uma estridente gargalhada; acreditando ser a frase dita, apenas uma repetição de um trecho contido na Bíblia. O papagaio continua o improviso...
─ Sou o porta-voz de Deus; ele está sempre comigo e mais perto do que você imagina ─, continua a ave, de maneira prodigiosa.
O franzino e astuto homem enruga a testa, coloca as mãos na cintura e grita:
─ Não acredito em Deus!
Em seguida, retira de dentro da camisa, um revólver calibre trinta e oito e aponta a arma na direção do animal. O papagaio continua:
─ Só caminhe na direção da luz, porque a porta está aberta!
─ Chega de palavras santas, eu vim buscar o baú com imagens de ouro da antiga igreja, que toda a cidade diz estar enterrado aqui, na Travessa dos Relicários, em algum lugar dessa casa. Vou levar tudo!
─ Deus não permitirá que isso aconteça, porque ele já o espera! ─, arremata a extraordinária ave.
Ao olhar para trás, o ladrão esbarra em um robusto cão vira-latas, que atendia pelo nome de “Deus”. O valente canino reconhecera o ladrão ─, era o homem que o abandonara em um terreno baldio, há poucas semanas; mesmo assim, o animal permanecia imóvel e com os olhos fixos em suas pernas.
─ Papagaio desgraçado! Onde está o tão maravilhoso Deus nesse instante?
─ Ele está no meio de nós ─, repeti o papagaio mais de vinte vezes, até o ladrão deixar o revólver cair e correr como um louco, conseguindo pular o muro da velha casa; escapando assim, da corrida do destemido “Deus abandonado”.
O ladrão ? Foi salvo por um triz; na verdade, foi salvo pela generosidade de um cão abandonado, que resolveu não atacá-lo, apenas educá-lo, porque quem tem vocação para ser amigo, jamais se tornará um inimigo!

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