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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

FORMATURA


Rebeca Serrano

- Por que é tão difícil colocar essa roupa?
- Eu não sei, mas ela é ridícula, como nós.
Elas explodem em risadas. Risadas nervosas, porque no fundo estão sentindo borboletas no estômago. Hoje é o dia da formatura, depois de cinco anos fazendo festa e trabalhos, dormindo tarde e acordando cedo.
Talvez pareça um ritual comum para você, leitor. Mas para as duas é especial e, ao mesmo tempo, um pouco trágico. Especial porque nunca nenhuma das duas imaginou que chegaria a ver esse dia. Todos os eventos conspiraram para que isso nunca acontecesse. Trágico porque num dia de festa como esse é comum que as famílias compareçam e nenhum membro da família de Sofia e Laura estava lá.
“Tudo bem”, pensa Sofia. Ela já se acostumou às ausências, assim como Laura. As duas se conheceram melhor no segundo ano do curso, quando puderam passar mais tempo juntas. Compartilhavam suas dores e alegrias, estórias de vida tristes, de famílias desestruturadas. De algum modo, elas conseguiram sobreviver bem, com sequelas invisíveis.
Durante o curso formavam uma dupla, digamos, temida. Não estavam sorrindo sempre, e isso afastava os outros. Apenas poucas pessoas tiveram coragem de ultrapassar o superficial e aparente e realmente conhecê-las.
Estar num ambiente em que todas as pessoas estão de roupa de gala, num dia quente e com trilha sonora de formatura traz certa melancolia. Em alguns momentos Sofia sente um nó na garganta e não pára de pensar que gostaria muito que algumas pessoas estivessem lá. Sente revolta porque ninguém reconheceu seu esforço apesar de todas as cobranças. Um segundo depois se livra de todos os pensamentos e tenta aproveitar o momento sublime que está vivendo. “Só Laura entende e sente isso como eu. Isso me basta”.
Depois de todo o cerimonial, juramentos de amizade eterna, choros, despedidas e trocas de falsos elogios elas querem ir para casa. Ainda tem uma festa para ir. A casa está cheia de convidados. Sofia e Laura têm em comum o incômodo de estar durante muito tempo entre pessoas estranhas.
“Esqueci o celular”.
“Eu também. E agora não sei o número de ninguém de cor. Que ótimo”.
“Esquece, vamos andando. É longe, mas fazer o que?”
E seguem as duas a pé, voltando pra casa, com um canudo roxo na mão. Finalmente conseguiram.
“Agora, se a gente for parar na cadeia, podemos ficar em cela especial!” diz Laura.
“Imagina! Grande coisa. Queria saber pra que serve tudo isso que a gente aprendeu”.
Silêncio. O sol está se pondo, a cidade é sempre quente. Sofia nem imagina que no futuro seus pensamentos sempre voltarão para sua vida e seus momentos sob o sol escaldante e muitos passeios a pé.
“Você acha que vai conseguir mudar alguma coisa?” - pergunta Sofia.
“Não sei. Acho que nós mudamos. E talvez isso modifique tudo” – responde Laura, pensativa.
“É. O duro é saber o que fazer a partir de agora”.
E as duas seguem seu caminho para casa. O que virá ninguém poderia prever. Assim é a vida.

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