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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

EIS-ME



Richard Mathenhauer 
(Pelo Meu Natalício)


Deveria começar como David Copperfield, “Eu Nasci”? Que importa é que nasci! E prova disto, é estar sentado escrevendo o que para muitos nada mais é do que nada. Embora nada seja uma grande coisa, como o meu nascimento foi para mim e para os meus. Primeiro filho homem, primeiro neto homem... Essas coisas. Que importa é que nasci... A – chamemos de química – de meu pai atraiu a de minha mãe e vice-versa, e passados os intróitos e indo para os prosseguimentos, obedecendo a Natureza o espermatozóide mais ligeiro, ansioso sabe lá pelo que, fecundou o óvulo, e o resto todos sabem. Presumo não ter sido o Anjo Gabriel, mas o médico (que poderia chamar-se Gabriel) que anunciou a minha mãe a vida que ela albergava. E passados os meses da gestação, nem mais nem menos, a dor anunciadora como trombetas alardeando a chegada de alguém de significativa importância, “Eis-me!, deveria ter dito se já pudesse dizer algo tão logo saído do útero. “Eis-me, mundo!”, era uma boa frase, porém, mal saído e mal tendo tempo para qualquer esboço de exclamação, admiração ou tempo para cumprimentar os presentes pelo excelente trabalho, veio-me um tapa (dizem que é um tapinha de nada... dizem...) justificado como sendo para que o pequerrucho tome fôlego. E a bem da verdade se há de ter muito fôlego neste Mundo, tantos são os tapas na jornada de nascido.

Deve, quem perde tempo lendo-me, perguntar-se por que cargas d’água estou falando do meu nascimento, posto não ser Ministro, Prefeito, Papa, Pop-star, Jogador de Futebol, etc. É que nesta semana comemoro meus... bem, comemoro mais um ano de nascido desde aquele primeiro tapa. Pensar no nascimento faz-nos pensar na vida presente, na passada, na futura (embora esta não exista em termos reais). E fiquei a pensar na minha, como sói acontecer uma vez por ano desde que, depois de nascido, pude pensar...

Dizem que nasci pesado e grande, fato que comprova que nem sempre o começo sugere o fim. Foi em um 21 de setembro, numa sexta-feira às 9h00. Não sei se chovia, fazia frio, sol, se ventava como ventava quando algo importante acontecia a Ana Terra. Curioso escrever sobre o tempo daquele dia, porque, justamente eu que sou tão dado a observar e a falar do tempo, “sem a responsabilidade de meteorologista”, não perguntei a minha mãe como estava o dia. Provavelmente a coitada estivesse em dores, e fizesse calor senegalesco, frio siberiano ou uma agradável manhã de setembro, isso seria tão irrelevante que nem registro na memória ficou! Da minha parte, assim que nasci, não me interessou o tempo, mesmo porque, depois de um tapa de boas-vindas qualquer interesse fica relegado a segundo ou terceiro plano, e somado ao tapa, o fato de a luz quase me deixar cego, o barulho deixar surdo, ter a pele lesada com tantos toques estranhos e de estranhas texturas...!

Não foi meu pai quem me foi buscar à Maternidade. Conta a lenda que estava a contribuir com as pesquisas etílicas. Delegado à função de conduzir o recente nascido, foi titio Wolfgang (gosto do seu nome, “aquele que caminha com lobo ou como lobo”... enfim). E assim, nascido, buscado e entregue, passados os primeiros dias de beija-mãos, já fui tratando de aprender a me conduzir sozinho para não ter de pegar carona, haja vista que na vida tem-se de andar com as próprias pernas. Então, desenvolvi a técnica peculiar às crianças: engatinhar. Incentivado por mamãe que me botou no chão e bradou: “Vais encontrar o mundo... Coragem para a luta” (mais ou menos como em “O Ateneu”) eu fui. Fruto do tirocínio ia e vinha pelo chão da casa, porém, por cansaço ou por características atávicas, embora não tendo Morato no nome, era-o de sangue - e como bom Morato - gostava de dormir. E dormia debaixo do sofá, debaixo do armário da cozinha, no vão formado pela quina da geladeira e da parede. No princípio houve desespero; seqüestrado não podia ter sido porque não se seqüestra filho de pobre. Poderia ter sido um rapto, uma mulher invejosa de outra cujo filho tinha lindos cabelos negros encaracolados e pele clara e já sabia engatinhar e filosofava... Depois, perceberam que era o sangue. E tornou-se um hábito puxar-me pelas pernas para retirar-me de debaixo de algum móvel. Assim, todos sabiam que silêncio reinante, era sono dominante. Ou... Veja bem como sofre um nascido, sobretudo quando antes dele outro havia chegado. No caso, outra. Minha irmã. Um ano e meio antes de mim, ela sentia-se com aquela típica sensação de que o uso faz a posse. E como a inteligência é uma virtude de família (perdoem-me a falta de modéstia, mas as coisas devem ser ditas conforme são), minha irmãzinha era uma adepta de Charles Darwin, e sentia-se no direito de testar freqüentemente a tal teoria da sobrevivência dos mais fortes. Grosso modo, claro. Então, como dizia lá encima, quando não era o silêncio pelo sono, era por uma banana inteiramente introduzida na minha boca pela maninha cientista que considerava esta minha cavidade que prestava para algumas coisas, como berrar, babar, chorar, emitir uns grunhidos (e num belo dia, dando um bom salto na história, descobriria o Beijo), enfim, que considerava minha boca uma centrífuga, ou Buraco Negro, não hesitava em ir introduzindo tudo o que viesse pela frente. Em decorrência deste seu espírito empírico é que quase mal chegado, quase tive de voltar. Como sucedeu noutra experiência, desta vez com elementos líquidos, verificando quanto tempo um espécime da Ordem Primata, Família Hominidae e Gênero Homo conseguiria ficar sem respirar debaixo d’água: numa lúdica tarde no clube de campo, ela se sentou sobre minhas costas dentro da piscina, e como todo cientista (sobretudo com o gélido sangue alemão) tem um lado disciplinado que sabe esperar pacientemente, esperou pelo resultado, baldadas minhas esperneadas e braçadas. Não fosse uma Alma Cristã passar e notar que o pequeno Sapiens-sapiens já não se debatia mais, não estaria agora contando tais coisas. Claro que não digo que esperava matar-me. Não! Não me passa Caim entupindo a boca de Abel com bananas, nem se sentando sobre as costas do irmão dentro de um ribeirão! Mas, é bom deixar registrado que uma criança pode ser letal.

E os anos se foram passando, uns após outros, e muitos eventos de pequena, média e grande importância ocorreram, uns parentes nascendo, outros morrendo, uns tapas a mais, outras provas de resistência, livre da lupa e do bisturi da irmã, e acabei chegando aqui. Uma quarta-feira de setembro, de clima ameno, com tímidos ensaios de que vai chover como foi muito comum chover em muitos vinte e um de setembro... Mais velho, um bípede já cansado que aprendeu a dormir na cama – embora perdendo aos poucos o típico sono de Morato -, mais inteligente, usando a boca mais para comer que beijar. Presente de mãe desde o princípio em que um presuntivo Gabriel me anunciou... E ainda ausente de pai. Como diria outro nascido que já partiu (sem interferências de irmãs, diga-se de passagem), foi “dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor”: Eis-me!

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