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quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Botão e o Sobretudo

Elda Nympha Cobra Silveira


Eu posso ser um botão que enfeita roupinhas de bebê e, por isso, posso ser como uma borboletinha, um bichinho qualquer e viver cercado de cheirinho de talco, fragrâncias suaves de lavanda e sabonete. Seja como for, estarei sempre envolto por abraços, beijos e carinhos mil. Se estiver num vestido de noiva, serei forrado de cetim e enfeitarei as costas de lindas moças, que adentram as naves das igrejas, circundadas de flores, ao som da marcha nupcial tocada pelo sonoro órgão, num espetáculo de religiosidade e sonho. Mas quando estiver na camisola da noiva na noite de núpcias, onde o romance atinge o clímax, não poderei contar nada, porque estarei jogado em cima da poltrona, aos pés da cama, ou no chão.
Sou um botão grande e redondo que se ajusta muito bem na casa de um sobretudo de lã de cor sóbria, que agasalha um homem charmoso e bonito, que gosta de passear pelo Central Park todos os dias. E lá vou eu com ele! Pela qualidade do casaco e pelo preço pago por ele num magazine de luxo já se pode imaginar a vida que vivo.
Eu e meu dono vamos aos teatros da Broadway, aos restaurantes famosos e aos cassinos onde a roleta gira, muitas vezes sem resultado, e em outras, com a bolinha saltando até cair no número dez, no sete, no treze. Nestas vezes em que ele está com mais sorte, ganha algumas boladas em dólares e mais dólares. E assim, ele vai apostando, enquanto os rostos tensos torcem, esperançosos pela vitória.
Até que um dia a sorte muda e esse homem, jogador inveterado, perde tudo: dinheiro, posses, amigos e mulheres! Assim sua vida vai decaindo, aos poucos, ao ponto até de alguns botões, meus companheiros caírem, deixando nosso convívio.
Por causa do aperto financeiro, assoberbado pelas dívidas, se obriga a vender seu sobretudo para um brechó e ele fica pendurado por um mês num cabide, à espera de um comprador. Um dia me lavaram, me passaram, pregaram os botões caídos, e lá fui eu para lugares muito inferiores aos quais estava acostumado. Acabaram-se os restaurantes luxuosos, os espetáculos de teatro, os passeios em carros do ano e as jogatinas nos cassinos... E consequentemente, fugiram as mulheres também.
Tanto eu como o sobretudo estávamos esfolados e desbotados. Meu novo dono trabalhava à noite como guarda-noturno e eu já não aguentava mais o cheiro de comida que exalava de sua marmita. Fico deprimido vendo seus sapatos tão surrados, com um buraco em uma das solas, que ele tapa, de dentro para fora, com folhas de papelão, para não sentir o chão gelado.
O pobre homem, não suportando o frio do inverno rigoroso, morreu na longa caminhada de volta para seu abrigo,  nem posso chamar de casa aquele quartinho improvisado, debaixo da escada de um prédio. Pessoas retiram o sobretudo do cadáver e o levam para uma casa assistencial. E lá vou eu junto novamente, afinal faço parte dele!
Todos que chegam desviam o olhar daquele sobretudo, desprezado e inútil, pendurado no cabide da arara. Como ele, estou também mais velho, e até lascado de um lado. Os dias passam, semanas, meses... Como ninguém nos quis, acabamos dobrados e esquecidos num canto.
Num sábado modorrento e muito frio, senti de repente um calor gostoso! Era um cãozinho de pelo macio que se deitara sobre nós e ali dormiu tranquilamente. Fiquei feliz, pois trocamos um calorzinho amigo e confortante.
Agora, na minha idade, só quero calor, sossego e companhia...

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