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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Contando Histórias


Ivana Maria França de Negri

A imagem da avó de cabelos grisalhos presos num coque, óculos pendurados no meio do nariz e envolta num xale de crochê numa cadeira de balanço a contar histórias para os netinhos, virou clichê. As avós de hoje não têm cabelos brancos, malham em academias e não perdem tempo em cadeiras de balanço.
Mesmo com a avalanche de informações via internet, cinema em 3D e livros digitais, nada substitui o ato de contar histórias verbalmente pelos pais e avós.
Não existe criança que não fique atenta e encantada, ávida para ouvir uma boa história, floreada, reinventada, onde ela pode interagir, acrescentar detalhes e até mudar o destino da trama com um final que mais a agrade. Isso estimula a criatividade, atiça a imaginação e ainda estreita os laços familiares.
Minha neta de 3 anos, vegetariana, gosta de mudar o final da história dos 7 cabritinhos e o lobo mau. Diz que ele não é mau, virou vegetariano e ficou amigo da família de cabritos. Ela não gosta da parte em que ele devora os cabritinhos.
Muitos escritores creem que escrever para crianças é montar um texto bobinho recheado de palavras no diminutivo. Isso é menosprezar a capacidade intelectual delas, que não são tolas, e têm argúcia e entendimento muito maiores do que imaginamos. Elas gostam de desafios. Quanto mais complexo o texto, melhor.
Quando folheamos livros ilustrados junto a uma criança pequena que ainda não está alfabetizada, ela grava as imagens e as associa com nossas palavras. Um mundo novo se descortina e ela ainda recebe o aconchego, carinho e palavras doces de quem conta. Naquele momento, a criança se sente intensamente amada.
É uma pena que muitos pais, com a agenda lotada e jornadas duplas ou triplas de trabalho, não disponham de um tempinho livre para contar histórias aos pequenos, e acabam deixando essa tarefa para os canais da TV paga que transmitem desenhos 24 horas por dia. Ou as colocam para assistir dvds de histórias. E diante da frieza das máquinas, elas perdem o aconchego e ficam sem ouvir a doçura da voz das pessoas queridas.
Cada vez mais a infância fica órfã dessa felicidade simples e mágica.
Costumo contar histórias para minhas netas de 6,5 e 3 anos. E elas gostam que eu repita sempre as mesmas.
O americano Eric Carle, autor e ilustrador de mais de 70 livros infantis, procura não classificar os pequenos leitores como um grupo à parte. Diz que o desafio começa com a criança que tem dentro dele. Se consegue entretê-la, intui que está no caminho certo.
Para os leitores mirins que já estão alfabetizados, escolher as leituras é uma forma de independência saudável, mas deve ter sempre a supervisão dos pais e educadores pois os textos devem ser compatíveis com cada idade.
Viajar nas histórias, entrar nos cenários, vivenciar as aventuras, tudo isso faz parte de um mundo mágico que, descoberto na infância, perdura por toda a vida.
Pode-se perder tudo de repente: emprego, pessoas queridas, bens materiais. Só o que guardamos na memória e na alma permanece eternamente. E a leitura é um desses bens eternos que gatuno algum pode nos roubar.

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