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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sonho, logo existo

Lídia Sendin

Nos dias calmos em que se abre a agenda e não se tem nenhum compromisso é bem capaz da gente ainda não estar acordado, por isso Sonia voltou para a cama, fechou os olhos e esperou o despertador tocar. Mas, pouco a pouco ela percebeu que aquele dia era especial, no calendário o número brilhava em vermelho no meio da semana e a perspectiva de fazer qualquer coisa naquela tarde vazia encheu seu corpo de adrenalina e ela pulou da cama cheia de projetos.

Pela manhã cuidaria dela mesma: um banho demorado, um café tomado na varanda, com calma e prazer, nada pra esquentar a cabeça, a não ser talvez o secador de cabelos. As possibilidades eram tantas que no fim da manhã ainda não tinha decidido o que fazer. “Posso criar minhas circunstâncias e mergulhar nelas como patinhos na água”, pensou.

Logo após o almoço sentou-se preguiçosa na poltrona mais confortável da sala e seu olhar perdeu-se na paisagem que só parava nas montanhas ao longe. Pegou o livro que a muito ela lia com vagar por falta de tempo e entrou na história como se pudesse sentir na própria pele as alegrias e tristezas da apaixonada heroína. Seu olhar vagava das páginas do livro ás dobras da cortina que teimavam em lhe roçar os cabelos à cada lufada de vento. Aquele marasmo da tarde entrava suavemente janela adentro e ficava difícil manter os olhos abertos.

O movimento rápido das pálpebras e o rosto iluminado pelo leve sorriso indicavam um sonho em andamento. Vagando pelos caminhos do inconsciente a garota idealizava o homem perfeito: cavalheiro, mas firme, sensível, mas determinado, inteligente, porém não presunçoso e muito, muito romântico, sem ser piegas, naturalmente.

Tão perto estavam um do outro que ela podia sentir sua respiração e seu perfume. Suas mãos se tocaram e tudo ficou luminoso como um fim de tarde. A estrada a sua frente se abre e os dois caminham enlevados em direção ao horizonte vermelho do pôr-do-sol.

De repente ele para, passa os braços ao seu redor e aperta seu corpo contra o dela. A jovem prendeu a respiração e aguardou ansiosa uma declaração de amor eterno digna de um filme romântico. Mas, pausadamente, olhando em seus olhos ele falou: “Não se apaixone por mim querida, sou apenas uma criação, uma ilusão passageira, um sonho bom numa tarde de verão.”

Um vento mais forte fez a cortina roçar em seu rosto abrasado e ela acordou sobressaltada, amaldiçoando a brisa que a acordara no melhor momento, sem dar tempo a ela de contestar o argumento do rapaz.

O livro tinha escorregado do seu colo para o chão e enquanto se abaixava para pegá-lo meditava cheia de dúvidas: afinal tudo o que conhecemos é verdade para o pensamento mesmo que não seja verdade para a realidade. Como sei se não estou sonhando agora e o que vivi a minutos atrás era realmente minha vida? E a paixão por sua vez não é sempre passageira? Então qual era a novidade nas palavras do herói da minha fantasia?

Enquanto abria novamente o livro suspirou tristemente. Ah! Como seria bom se a vida fosse um sonho e as noites reais pudessem ser esquecidas.