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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O perfume

O perfume
Eloah Margoni

Nos últimos dias, com o maluco novo anti-sistema de informática do Detran, se minha moral no trabalho baixou, se a preocupação bateu pesada à porta como novo desafio profissional, ao menos as pernas se exercitaram bem e queimei gordura. Durante uns cinco dias seguidos andava da Ciretran ao meu consultório (uns quatrocentos metros), pelo menos quatro vezes ao dia. Contem e multipliquem, por favor, idas e voltas. O restante do tempo era ao telefone tentando falar com a Prodesp, e aqui faço parêntesis, falar com a Prodesp não sei por que, pois quando a musicazinha (diminutivo de música; se não for, leia-se “musiquinha”, se também não for o diminutivo correto, deem um tempo, tá? pois Almodóvar fez um filme pra mim, “Mulheres à Beira...”). Enfim, quando a musicazinha parava e lá atendiam ao telefone, em nada nos ajudavam. Fecha-se o segundo parêntesis. Tem dois parêntesis dentro destes parêntesis.


Daí, eu ligava para o Departamento Médico do Detran, por recomendação da Prodesp, mas o telefone ninguém atende por lá. Passava mensagens eletrônicas que também ninguém lia, ou se as lia fazia que não; por aí vai. Nesta maratona de torturas, voltava eu à Ciretran, e assim sucessivamente. O calor sempre absurdo, sob sol de rachar mamona se é que ainda existe mamona, ia suando e punha, com frequência uma colônia lima/verbena que adoro, refrescante.

Numa das voltas da Ciretran, subia cabisbaixa a íngreme rua, com pensamentos escuros no hipotálamo, os quais se espalhavam por todo o sistema límbico, quando notei à minha frente dois homens simples que conversavam alto e animadamente, subindo a rua a pé também. Éramos só nós ali. Um dos homens era jovem, o outro com cinquenta anos talvez. De costas, pareciam pai e filho. Eu quase os alcançava quando o rapaz falou bem audivelmente:

- Que cheiro bom! De onde será que vem?
Ao que o “pai” respondeu:

- Será de alguma árvore por aqui...

Qual o quê! Pensei, aqui não tem árvore perfumada! Foi quando me dei conta que era eu, que já chegava à altura deles e os ultrapassava, que rescendia à verbena e à lima. Calaram-se, creio que percebendo que o perfume era o que eu usava. E era de plantas. É uma bobagem de nada bem sei, mas alegrou a tórrida tarde, talvez para nós três. Sim, pura besteira, mas muitas vezes são as besteiras que nos salvam a vida ou melhoram nosso brio. Imaginem só um perfume de plantas cítricas, no calor imenso da tarde, na aridez e austeridade da informática defeituosa!