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sábado, 6 de novembro de 2010

VI Concurso de Contos e Crônicas UNICULT- Unimep - Conto premiado


O QUADRO
Ivana Maria França de Negri
(1o lugar no VI Concurso de Contos e Crônicas - 8o UNICULT da UNIMEP - Universidade Metodista de Piracicaba)

O moço moreno de dentes alvos, cabelos encacheados e negros, chegara há pouco do interior. Trazia na bagagem apenas uma mochila com algumas roupas surradas, uns quadros sem moldura numa sacola e os apetrechos para pintar: vários pincéis e a sua inseparável caixa de tintas coloridas.
Instalou-se numa pensão barata no centro da capital e acertou com a dona da casa que pagaria conforme a venda dos quadros.
Montou a barraquinha na praça e logo atraiu curiosos. Todos os quadros retratavam sua cidade natal. Havia bucólicas paisagens, o rio que serpenteava manso, as montanhas grandiosas, a cachoeira e o largo horizonte a perder-se de vista. As pessoas sentiam-se atraídas por aqueles locais tão encantadores, pois na grande metrópole quase nem se via o céu, sempre cinzento, envolto por uma névoa densa que encobria o brilho do sol. E os arranha-ceús uniam-se nas alturas formando uma barreira que impedia a visão dos horizontes.
Nas cercanias da praça havia uma universidade e era caminho dos estudantes passar pela feirinha fazendo estardalhaço, ecoando suas vozes como a algazarra que os passarinhos fazem no verão e espalhando a alegria própria da idade.
Uma estudante chamou a atenção do rapaz. Sentiu-se atraído por ela imediatamente, despertando algo dentro dele como se fosse um poderoso ímã, impelindo-o para perto dela e forçando a junção dos dois.
Ela era de uma beleza ímpar, dona de um maravilhoso e cativante sorriso. Corpo bem feito, pernas torneadas, e o cabelo loiro e longo escorria sedoso pelos ombros. A jovem estudante parou para admirar os quadros e ele ofereceu-lhe um deles. Ela explicou que não podia comprar naquele dia, mas o pintor insistiu e disse que era um presente. A moça agradeceu, levou o quadro, e o jovem nunca mais parou de pensar nela, seduzido por seu porte majestoso de deusa grega.
Sonhava com a moça todas as noites. Descobriu seu nome e soube que morava ali perto. Mas ela não lhe dava a atenção que ele gostaria de receber.
Resolveu pintar um quadro dela e empenhou-se naquilo como se daquela obra dependesse a sua própria existência.
A dona da pensão até estranhou que o jovem não viesse mais fazer as refeições regularmente. Esquecia-se de almoçar, de jantar, muitas noites passou em claro, e quando se dava conta, já estava amanhecendo.
A primeira coisa que fez foi o esboço do retrato e a escolha criteriosa das cores. Para a pele, usou o bege, um tiquinho de magenta, umas gotas de ocre, e foi misturando as tintas até atingir o tom exato da pele acetinada da jovem.
Os olhos foram desenhados vagarosamente, queria capturar o brilho e encontrar o mesmo tom de verde esmeralda. Alguns toques de amarelo ficariam perfeitos, conferindo à modelo olhos semelhantes aos de uma gata. Enquanto se esmerava no desenho dos olhos, mergulhava naquele mar verde e denso e embriagava-se. Os olhos pareciam fitá-lo sedutoramente. Às vezes, parava de pintar e ficava por tempo indeterminado em doce contemplação, adorando aquela divindade que ia adquirindo vida.
Alguns dias depois, começou a delinear os lábios. Vermelhos e carnudos, podia até sentir a textura deles, mornos, envolvendo os dentes perolados. Conseguia degustar o sabor adocicado deles. Perdeu a conta de quantos dias ficou acertando os contornos do rosto, os pequenos sulcos, as nuances, cada mínimo detalhe para a perfeição da obra.
Enquanto pintava o retrato, trancado naquele quartinho mal iluminado, aproveitando as réstias de sol que entravam pelas frestas da janela entreaberta, na casa da moça aconteciam fatos estranhos. A mãe achava que a filha estava pálida demais e a fisionomia, sempre alegre, um tanto tristonha. O sangue escapulia de suas faces descoloridas. E os lábios ressequidos, perdiam a coloração saudável.
Debilitada, não tinha ânimo para frequentar a faculdade e a família achou por bem procurar ajuda médica. Consultaram um, depois outro e mais outro profissional, mas nenhum daqueles sábios doutores descobria a causa da sua fraqueza.
Submeteram-na a diversos exames, até os mais sofisticados e modernos, mas todos constatavam uma anemia profunda e irreversível, sem causa aparente.
Enquanto isso acontecia com a jovem, o moço pintava o quadro como se estivesse em transe, num ritual sagrado. Suas mãos tremiam enquanto o pincel deslizava suavemente pela tela. Ele conseguia captar pequenos detalhes, que passariam despercebidos da maioria das pessoas, e tão perfeitamente, que ele próprio admirava-se da tepidez do quadro. A cada dia sua obra adquiria mais vida. Colocava a mão sobre a pintura e a sentia quente, pulsando.
Quando esboçou o colo, e por fim desenhou os cabelos, colocou uns toques de tinta dourada que deram aos fios um brilho natural, parecendo fios de seda. Podia sentir o perfume deles.
Pintou as mãos bem claras, com dedos finos e longos, e coloriu as unhas em tons róseos. Ficou por horas intermináveis retocando cada particularidade dos dedos. Fechava os olhos e beijava aquelas mãos, sentindo a pele macia, completamente fascinado.
A moça se consumia a cada dia. Sentia seu vigor físico abandonando-a e a palidez ficava cada vez mais evidente. Parecia um plantinha murcha por falta de ser regada. Não tinha fome, e o brilho dos cabelos havia desaparecido. A pele não possuía mais viço. Tinha a nítida impressão de que algo muito forte sugava sua energia vital.
Apática, os olhos opacos fitavam apenas um ponto da parede, onde pendurara o quadro do moço. Mergulhava naquela paisagem singela tentando extrair alguma energia daquelas paragens ensolaradas.
No derradeiro dia, quando finalmente terminaria o quadro, o moço amanheceu em estado de graça. Faltavam apenas alguns mínimos detalhes, os retoques finais para a perfeição da sua obra prima. Pintara o quadro com a alma, colocara nele toda a fúria de sua paixão, toda a volúpia e o seu desejo ardente pela formosa jovem.
Chegou bem perto do peito e podia ouvir o som que vinha dele semelhante a um ruflar de asas cadenciado. Sentiu o cheiro dos cabelos que desciam macios pelos ombros e a quentura dos lábios macios. Mergulhou por entre as tramas da tela do quadro completamente alucinado, em êxtase profundo.
A jovem, em sua casa, com olheiras profundas e lábios roxos, desfalecera para desespero dos pais que não sabiam mais o que fazer para fazê-la voltar à vida.
No quartinho infecto da pensão barata, a dona bateu na porta, pois há dias o moço não saía de lá. A porta estava destrancada. Quando a mulher entrou, não viu o pintor ali.
Suas roupas estavam espalhadas, a caixa de tintas aberta e as bisnagas de tinta sem tampas. Pincéis ainda molhados denotavam sua presença recente no quarto.
No cavalete, um quadro estranhamente belo de uma jovem donzela, cujos olhos verdes, expressivos e fulgurantes, a fitavam de soslaio como se vida tivessem.

Um comentário:

Carla Ceres disse...

Oi, Ivana! Gostei do conto. Prêmio merecido. Beijos!