As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

SEGUIDORES

MEMBROS DO GOLP

MEMBROS DO GOLP
FOTO DE ALGUNS MEMBROS DO GOLP

sábado, 16 de outubro de 2010

Será que pega? Pega não!

Será que pega? Pega não!
Ana Marly de Oliveira Jacobino

Tinha nove anos quando a conheci. Estava iniciando o ano escolar. As aulas começaram numa segunda-feira, período da tarde. Carregava a mochila e o material escolar tinha cheiro de novo.
Entrei na escola devagar, olhando tudo, e percebi que todos me olhavam. Algumas crianças me encaravam e depois saíam apressadas. A diretora falava ao microfone encaminhando os alunos para as salas de aulas.
Na minha sala de aula muitos cartazes e mapas se encontravam pendurados nas paredes brancas. Sentei logo na primeira carteira, recomendação de minha mãe. É que eu usava óculos parecendo fundo de garrafa.
Percebi que ninguém sentou ao meu lado ou atrás. Por que será? Será que podia ter goteira no telhado logo acima dessas carteiras?
Os professores se apresentaram e falaram cada um da sua matéria. Bem, nem todos. A diretora falou que a professora Virginia, das disciplinas de Filosofia, História, Ciências e Geografia, viria dar aulas na semana seguinte, pois estava fazendo um tratamento.
Os dias passaram depressa e não consegui fazer nenhum amigo. No início da segunda semana, precisei faltar para ir ao médico. Teve lição de matemática, e nenhum aluno me emprestou o caderno.
A tristeza tomou conta de mim. Pensei com os meus botões: – Não quero mais ir à escola. Mas, na quarta-feira, a pedido de minha mãe, voltei e que surpresa eu tive! Uma caixa de papelão pintada com um cenário de um sítio e também de uma casa e sua janela de cortinas coloridas e estava bem lá, no canto da sala! Sentei e, como sempre, fiquei esperando o sinal bater, ali, sozinho. Lembro-me de que, naquele dia, estava lendo: “Emília no País da Gramática”, de José Bento Marcondes Monteiro Lobato.
A diretora entrou e pediu para todos os alunos fazerem silêncio. Ela carregou a caixa até a porta e, de repente, a própria Emilia estava falando conosco. A boneca de pano tinha os olhos arregalados e cabelo de tranças colorido.
As marionetes conversavam entre si e com os alunos também. Eu, como sempre, fiquei quieto, mas uma alegria tomou conta de mim. No final do espetáculo, os aplausos sacudiram até as janelas da sala.
Nossa! Meu queixo caiu, a boca abriu. Virginia apareceu sorrindo.
A professora estava careca igualzinha a mim. Não estava mais sozinho. Corri até ela e a abracei pelas pernas. Ah! Quanta felicidade!
Ela devolveu o abraço. E de quebra me deu um beijo estalado, um pouco molhado. Eu, que não gostava de ser beijado, subi até às nuvens e desci flutuando bem devagar. Parecia uma bolha de sabão.
– Não, Não! Mamãe, não vou faltar à escola, não!
Mesmo após as sessões de quimioterapia, sempre às sextas-feiras, eu queria, por que queria, ir à escola. Minha mãe me mandava repousar e eu dormia e sonhava com a minha professora. Ela sempre cantava e ao seu redor muitas crianças pulavam e dançavam.
Ela também foi discriminada pelos pais, alguns professores e alunos. Todavia, não se deixou abater. Todo dia era especial para ela e para mim.
Nas suas aulas a imaginação corria solta. Num dia ela vinha vestida de Napoleão, no outro com um chapéu em formato de mão. Foi numa roda de filosofia que um dos alunos lhe perguntou. Ah! Como criança sabe ser cruel!
– Professora, é verdade que câncer pega?
Eu a olhei com os olhos marejados. Sentia muita dor. Mas, uma dor que não vem de queimadura, nem de um tombo, ou de machucado no corpo. A dor estava dentro de mim.
Naquela tarde, ela estava vestida de Thor, o Deus da chuva, do trovão e das tempestades. Na sua careca um raio entrava por um lado da orelha e saia pelo outro, sem dúvida a sua tiara mostrava ser muito original.
Olhou nos olhos de todos e quando olhou nos meus olhos tenho certeza de que os seus olhos sorriram para mim.

– Pega não! Pode abraçar à vontade que você vai ganhar amor e doar alegria e gentileza.
Levantou-se, foi ao meu encontro e me deu um abraço apertado. Depois pediu para que cada um abraçasse aquele que estava ao seu lado direito e houve muitas trocas de abraços. Dessa maneira, todos se abraçaram.
Daquele dia em diante tudo mudou. As crianças se revezavam para emprestar o caderno nas minhas faltas e os seus pais sempre perguntavam sobre o meu tratamento para a minha mãe.
– Não acredito, mamãe olha quem está sentada ali!
Pois é, não acreditei, Virginia também era bruxa. Ela ia fazer a sessão de quimioterapia no mesmo horário que eu. Nossa! Naquele dia, ela leu vários livros de histórias, enquanto as gotinhas do remédio entravam nas nossas veias. Tinha mais pacientes na sala e todos atentos à sua leitura. As horas passaram rápido. A enfermeira contou que os pacientes pediam para marcar o retorno sempre no mesmo dia e horário em que ela voltaria para o tratamento.
Ficamos juntos naquele ano inteiro.
Bem! Agora, terminei a faculdade e fui escolhido para ser o orador da turma. No computador escrevi o tal discurso e saiu a minha história com a professora Virginia. Chorei de saudades. Será que ela estaria bem?
Depois de muito procurá-la, finalmente a encontrei. A escola informou o seu endereço e telefone. Liguei no mesmo instante. O meu coração cantava no meu peito, o meu corpo, feito a uma gelatina, balançava, sacudia, tremia.
– Alô! Quem fala?
– Não! Essa voz não é a dela! – A sua filha me, informou, onde ela estava.
– Fui à sua procura. Precisava olhar nos seus olhos e con¬tar da minha vitória; da sua importância como professora e amiga naqueles momentos cruciais e de como ela me salvara das outras pessoas e de mim mesmo.
Entrei pelo corredor de chão encerado e limpo. Ouvia garga¬lhadas, alguém cantava. Corri como Hermes, o mensageiro dos deuses, vesti o capacete alado, asas nos pés e nas mãos, e assim, a encontrei!
Sentada, com uma peruca de tranças coloridas, era a própria Emília, do Sítio do Pica-pau Amarelo, o livro de história aberto nos joelhos. Duas dezenas de olhinhos brilhantes ao seu redor a encaravam sorridentes. Sentei, fechei os olhos e escutei a história.
Um menino aconchegou no meu peito. Tinha a cabeça raspada, enxerguei nos seus olhos ternura e compaixão. Eu o abracei e enovelados, feito fios de lã, escutamos o final da história.
Virginia pediu para me apresentar e contar-lhes a minha história. E acabei falando da minha formatura, do porque de estar à sua procura e o quanto a amava. Havia feito Medicina, com especialização na área de Oncologia. Enfim, o começo da minha história vocês já sabem.

Nenhum comentário: