As reuniões do Grupo Oficina Literária de Piracicaba são realizadas sempre na primeira quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal das 19h30 às 21h30

SEGUIDORES

MEMBROS DO GOLP

MEMBROS DO GOLP
FOTO DE ALGUNS MEMBROS DO GOLP

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ouvir ou escutar?

Ouvir ou escutar?
Maria MadalenaTricânico de C. Silveira
Dona Bárbara era uma senhora idosa, que morava sozinha em sua residência, desde sempre.
Tivera muitos filhos e filhas, agora todos casados e morando em suas próprias casas e cuidando de seus filhos.
Como isso acontecia no início do século passado, os filhos fizeram uma escala: cada dia uma filha ou uma nora ia visitá-la e verificava se tudo estava em ordem. Faziam as compras, supriam a geladeira, cuidavam da limpeza da casa e das roupas.
Dona Bárbara era uma senhora muito exigente e era muito difícil uma serviçal contentá-la com os serviços domésticos. Enfermeira ou acompanhante? Nem pensar. Ela bradava aos quatros ventos que não precisava.
As filhas e as noras revezavam e se esmeravam cada vez mais na limpeza e ordem de tudo, porque dona Bárbara, muito querida, recebia muitas visitas, principalmente para pedir-lhe conselhos e orientações sobre convivência familiar.
Estava aproximando o seu aniversário e toda a família queria comemorar os noventa anos com uma festa para ficar na história, mas o destino interrompeu os preparativos.
Dona Bárbara estava cochilando em sua cadeira preferida, quando a filha foi chamá-la para vir à mesa tomar o lanche da tarde. Ela, no entanto, já estava com os anjos no céu; foi uma passagem abençoada.
Surpresa geral aconteceu quando começaram a arrumar a casa depois do velório, pois teriam de desmontá-la. Lembranças e emoções tomavam conta do ambiente. Todos procuravam alguma coisa, mas o que procuravam não estava mais entre os pertences.
Irene, a filha mais velha, sai do quarto da falecida com um caderno nas mãos e vai em direção das outras mulheres da família, que estavam na sala de jantar pensando e conversando sobre quem estaria agora, na linha de frente, isto é, quem lhe tomaria o lugar.
– Vocês não vão acreditar, mamãe deixou tudo escrito aqui! Ouçam só as determinações:
– Para Irene e Mila deixo a minha cozinha, pois elas sabem muito bem cozinhar. Aprenderam comigo!
– Para Dora e Vera, deixo minhas máquinas de costura, elas sabem o porquê. Para Ângela e a Maria deixo todas as roupas da casa, elas também sabem o motivo.
– Vamos logo. O que tem mais ainda.
– Para a Inês, minha nora, deixo todas as minhas jóias... as do cofre e até as que eu estava usando.
– ????????? Continue.
– Ela vinha me visitar e ficávamos conversando, escutava minhas histórias, tinha paciência comigo. Enquanto eu falava do passado ela limpava minhas correntes, pulseiras, anéis e até os brincos da minha orelha . Quando ia embora, me sentia uma princesa! Não! Uma rainha.
– Tem mais, os móveis, façam o que quiserem. Amo muito vocês, amo todos igualmente.

Um comentário:

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Lendo, lembro-me de uma amiga escritora falecida, um dia antes, levantou-se proclamou todos os seus desejos, até de quem ia maquiá-la, a roupa que seria enterrada e assim foi. Despediu-se da vida e morreu como quis, ao que parece; mais ainda recordo-me dela alegre, a Águeda Pereira Lopes, que escreveu o livro Tudo de Mim, em que contava de sua vida. Viveu, leu muito, me chamava de menino inteligente (eu era menino ainda) e me vendeu o seu livro.