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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O plano de fuga

O Plano de Fuga (in Tardes de Prosa)
Raquel Delvaje

Ainda fujo de casa! – falou Leinha para si mesma – Eles vão ver, ainda fujo e ninguém vai me encontrar, aí vão me tratar bem. Do jeito que mereço!...
Leinha se sentia injustiçada. Como sua mãe ainda poderia bater nela, estando já com oito anos, com certeza seria a última surra, pois fugiria de casa. Não ia admitir mais essa situação. Eles iam ver! Todos daquela casa iam ver!
Mesmo sentindo na pele a injustiça, de repente, ela começou a perceber que não era tão inocente. Tudo bem, dessa vez ela admitiu que extrapolou um pouco, mas foi só um pouco também. Diacho de Chiquinho, esse sim tinha sorte, aprontou em todas com eles e na última vez, justamente na que foram pegos, ele não estava lá. E sua mãe ainda disse: “Meu Chiquinho não faz essas coisas”. A menina pôde ver nesse momento a auréola de santinho na cabeça de seu primo, encolhido por trás da tia Sebéstina.
– Safado! Nem se manifestou! Ficou lá nos olhando enquanto éramos arrastados para a guilhotina. Para o calvário... – Falou, entre os dentes, a prima, já bastante furiosa.
Já fazia algumas semanas que o divertimento daquela turminha encapetada era jantar às sete horas e depois se encontrar, todos eufóricos, para dar uma volta. Quando chegavam em frente àquela casa amarela, com um pequeno arbusto na frente, paravam e começavam a jogar pedras. Se o proprietário ameaçava sair, eis que corriam feitos loucos. Iam para casa e se comportavam como verdadeiros anjos, pelo resto da noite. “Que crianças boazinhas”, todos comentavam. “Comportamento exemplar...” Pois era assim que ficavam depois de aprontarem o mal feito.
E olha que isso durou! O coitado do homem da casa amarela já não sabia mais o que fazer e reclamava para alguns vizinhos. Ele morava numa rua em que havia poucas casas, motivo pelo qual a molecagem foi aguçada.
E Leinha, seus irmãos, primo Chiquinho e mais alguns amiguinhos se divertiam com a adrenalina do medo de serem pegos, mas ao mesmo tempo imaginando que isso jamais aconteceria. E foi justamente naquele dia, única vez em que Chiquinho disse que não ia, pois estava estudando para a prova ocorreu o inesperado. Foi nesse dia que o homem da casa amarela, com um pequeno arbusto na frente, teve a sensacional ideia de se esconder atrás da pequena árvore. Surpresa para todos os capetinhas! Ao jogarem suas pedras, sai daquele montinho de folhagens o maior monstro que eles poderiam ter visto na vida e agarra, pelo colarinho, o Romualdo. O mais tímido e mais medroso dos irmãos.
– Ai! Ai! Ai!...
Foi só isso que a menina pode ouvir, pois correu tanto... Percebeu também que cada membro daquela sociedade secreta correu para um lado. Chegou em casa, entrou e viu os outros dois irmãos lá. Já quietinhos, mas brancos que nem papel. Romualdo, o terceiro irmão não estava. O coração ficou na boca, pronto para sair pra fora. Sentou no sofá; passava na tevê o desenho formiga atômica, mas ela não via nada e nem olhava para os outros dois. Tudo, naquele momento, pareceu uma eternidade. Quando ouviu palmas... não saiu! A avó atendeu. Passada mais uma eternidade de segundos, são chamados. Os três. E estavam lá: o homem da casa amarela segurando Romualdo pelo colarinho, a avó, a mãe, tia Sebéstina e... O primo, esse último, todo imaculado, com certeza já tinha ouvido os elogios de sua mãe: “Meu Chiquinho não faz essas coisas”. Não é preciso nem comentar os olhares de condenação que se seguiram, os sermões e depois a surra quando já estavam dentro da casa. E esse era o motivo da revolta da pobre menina. No íntimo sabia de sua culpa, mas seu orgulho estava terrivelmente ferido.
Decidiu pôr seu plano em ação. Fugiria! E para isso precisava preparar tudo. Ela juntou um saquinho com biscoitos de maisena e uma garrafinha de água. E guardou no fundo do armário, por trás de uns potes. Preparou atrás de sua casa, em um terreno baldio, o lugar em que ficaria para sempre. E estava pronto todo seu plano de fuga.
Depois disso, os capetinhas ficaram quietos por um bom tempo. Houve algumas pequenas diabruras, mas que não vem ao caso agora, pois nunca ninguém descobriu. O importante é que, por um grande período, Leinha não se viu mais injustiçada. Até se esqueceu de seu mirabolante plano de fuga, que só foi lembrado, quando sua mãe, limpando os armários, achou um saquinho com dez biscoitos de maisena totalmente embolorados e uma garrafinha de água:
– Que será isso? – perguntou sua mãe.
Leinha olhou:
– “Vô sabê?..”.
Se a mãe tivesse levantado o rosto e olhado para a filha, teria visto o rubor em sua face.

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