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domingo, 5 de setembro de 2010

Lei do Silêncio



Lei do Silêncio
Ivana Maria França de Negri

Sempre ouvi dizer que as leis são válidas para todos, indistintamente. Mas parece que aqui em Piracicaba essa regra não é respeitada.
O cidadão comum que paga os impostos pontualmente, certamente será enquadrado na Lei do Silêncio se fizer alguma festinha em casa. Mas os eventos culturais, que duram dias, às vezes semanas inteiras produzindo barulho infernal, estão isentos. Para eles, foi liberada qualquer extravagância, sem punição.
Em dias de eventos do calendário festivo da cidade, não se pode dormir. São altíssimos decibéis e bombas ensurdecedoras que varam as madrugadas. Azar de quem mora perto dos locais onde se realizam as festas.
O Legislativo Municipal aprovou um Projeto de Lei Complementar alterando a Lei do Silêncio, que é de âmbito federal. Eventos cívicos, folclóricos, culturais, recreativos ou religiosos, não precisam se preocupar com os ruídos que produzem. Podem adquirir microfones mais potentes e caixas de som cada vez maiores.
Mesmo sendo ilegal um município discordar de uma lei federal, a remodelação foi aprovada do mesmo jeito, com a desculpa de preservar tradições. Mas os ouvidos dos piracicabanos não serão preservados.
Total desrespeito ao cidadão que madruga para trabalhar e teria direito de dormir em paz para repor as energias para o dia seguinte. Mas quem se importa com o descanso do trabalhador? Quem se importa com o sono dos idosos?
Morei por muitos anos quase em frente a uma igreja muito barulhenta. Virava e mexia alguém pichava seus muros com dizeres tipo “Deus não é surdo”. Eles retocavam a pintura e prosseguiam com a barulheira.
Um poeta escreveu sabiamente os versos: “Na quietude das capelas Deus ouve nossas preces”. Grande verdade! Para que Ele nos ouça não é preciso gritar.
A Festa do Divino (nada tenho contra a festa em si, que fique bem claro, apenas acho que o som poderia ser moderado) inicia seu ritual bem cedo, às 6h da manhã. Morteiros estrondosos nos fazem acordar com o coração aos saltos. Por que tem que ser às 6h da manhã? E isso dura uma semana inteirinha. Azar de quem mora nas imediações do Engenho Central. E os pobres cães, que têm ouvidos muito sensíveis, se escondem sob a cama e ficam tremendo de medo com o rabinho entre as pernas. Talvez nem os encarregados de soltar os morteiros saibam o real significado do ato que executam.
Hoje em dia virou moda dizer que o que é cultural ou religioso deve ser preservado, não pode ser mudado ou profanado. Rituais religiosos que arrancam olhos e dentes de animais sem anestesia e os deixam sangrar até a morte, não estão inclusos nas leis de proteção aos animais. Em nome da liberdade de cultos e liturgias, as religiões de matriz africana ficam isentas de punição pela Lei de Crimes Ambientais. Nesse caso, a lei também não é igual para todos.
É preciso quebrar paradigmas. Se as novas gerações não os quebrassem estaríamos ainda, por conta da “tradição”, queimando pessoas nas fogueiras como na época da Inquisição e escravizando pessoas negras vindas da África.
Lamentável que o cidadão comum seja tão desvalorizado. Preservem-se as tradições! Que se danem os ouvidos e a saúde da população!

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