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domingo, 5 de setembro de 2010

Jogando conversa fora

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JOGANDO CONVERSA FORA
Ludovico da Silva

Não se sabe se a velhice é um prêmio ou um castigo. É isso que se fala à boca pequena. Há uma razão de ser para que ela seja assim entendida. Acontece que se a saúde não passar por nenhum abalo pelos caminhos da vida, isto é, se a pessoa chega à terceira ou quarta idade em perfeitas condições físicas e espirituais tudo bem. Mas nem sempre é assim. O passar do tempo deixa marcas no organismo que exigem atenção, e a procura de um médico –– ou de vários –– é indispensável. Bem, daí são recomendações mil. Na alimentação, nos exercícios físicos, nas caminhadas, repousar cedo, evitar isto e aquilo e, principalmente, muito cuidado com as intempéries, sobretudo no inverno. Quando a pessoa chega na terceira idade ela leva nas costas a aposentadoria, merecida, afirmam, depois de algumas décadas de trabalho árduo. Mas, quando chega perto dessa situação, um sem-número de conselhos bate na sua cabeça, recomendações de amigos nem sempre bem aceitas. Dizem para tomar cuidado, porque parar de repente pode ser complicado. É preciso arranjar outro emprego, nem que seja leve, somente para ocupar espaço, preencher a vida ociosa que passará a ter. Pior quando falam que fulano bateu as botas depois de pouco tempo aposentado. Um outro bateu com as dez porque não agüentou tanta ociosidade. Um terceiro passou para o andar de cima porque ficou isolado, sem a companhia dos colegas de trabalho, e tinha dificuldades em fazer novas amizades.
Bem, acho que esse é um tipo de conselho extremamente desagradável. O primeiro pensamento que vem à cabeça do aposentado é poder gozar a vida, viajar, conhecer lugares nunca antes visitados, sem ter que levantar de madrugada, com horário estabelecido para entrar no trabalho.
E tem mais. Como é saudável para o espírito e para a mente reunir-se com pessoas, ainda que sem aquela amizade íntima, para prosear, jogar conversa fora! Falar de política, futebol ou mesmo amenidades para passar o tempo.
Uma passada por praças e jardins da cidade, nas manhãs de sol preguiçoso, é suficiente para preencher de uma maneira bastante alegre o tempo que uma pessoa precisa depois de aposentado.
Claro que os tempos são outros. Casais juntam-se as mãos, caminham sem muita pressa e ao primeiro banco à disposição sentam-se. Ficam a admirar o céu azul, as flores que enfeitam os jardins, a mansidão das andorinhas nos seus vôos sem destino ou mesmo a algazarra das crianças brincando nos escorregadores, balanços, gangorras, e se distraindo com outros brinquedos, sob olhares dos pais sempre atentos.
Duas senhoras de cabelinhos lisos e brancos conversam animadamente à sombra de frondosa árvores, uma segurando uma bengala, para qualquer eventualidade, e outra um guarda-chuva, prevendo mudança do tempo.
Avós levam os netos a passear, compram presentes, guloseimas, mesmo para os gordinhos, para o desespero das mães. Brincam com eles, distraem-se, voltam ao tempo de criança. Isso não é bom para um aposentado? O que não é bom é ficar isolado, triste, esquecido na cadeira do papai em um canto da sala, recebendo uma nesga de sol que se infiltra pelas frestas das janelas. Não poder assistir a programas da televisão porque os olhos teimam em diminuir a distância e os ouvidos pedem a proteção das mãos em conchas.
Jogar conversa fora também faz parte da felicidade de quem já cumpriu suas obrigações na vida. Depois, é preciso esquecer o ditado que afirma que é mais bonito o choro de uma criança que o sorriso de um idoso. Bonito mesmo é que ambos possam sorrir juntos.

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